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Diretório para a Catequese

INTRODUÇÃO (n. 1-10)
1.    A catequese pertence plenamente a um processo mais amplo de renovação que a Igreja é chamada a realizar para ser fiel ao mandado de Jesus Cristo de anunciar seu Evangelho sempre e em todos os lugares (Mt 28,19). A catequese participa no empenho da evangelização, conforme sua natureza própria, a fim de que a fé possa ser sustentada em um permanente amadurecimento que se expressa em um estilo de vida que deve caracterizar a existência dos discípulos de Cristo. Por isso, a catequese se relaciona com a liturgia e com a caridade para evidenciar a unidade constitutiva da nova vida emanada do Batismo.

2.    Considerando essa renovação, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, indicou algumas características peculiares da catequese que mais diretamente a unem ao anúncio do Evangelho no mundo atual.

A catequese querigmática (EG, n. 164-165),  que está presente no coração da fé e reúne o essencial da mensagem cristã, é uma catequese que manifesta a ação do Espírito Santo, que comunica o amor salvífico de Deus em Jesus Cristo e que continua a se doar pela plenitude da vida de cada pessoa. As diversas formulações do querigma, que necessariamente se abrem a percursos de aprofundamento, são como portas existenciais de acesso ao mistério.

A catequese como iniciação mistagógica (EG, n. 166) insere o fiel na experiência viva da comunidade cristã, verdadeiro lugar da vida de fé. Essa experiência formativa é progressiva e dinâmica; rica em sinais e linguagens; favorável à integração de todas as dimensões da pessoa. Tudo isso se refere diretamente à conhecida intuição, bem enraizada na reflexão catequética e na pastoral eclesial, da inspiração catecumenal da catequese, que se torna cada vez mais urgente.

3.    À luz dessas particularidades que caracterizam a catequese em uma perspectiva missionária, realiza-se uma releitura da finalidade do processo catequético.  A compreensão atual dos dinamismos formativos da pessoa exige que a íntima comunhão com Cristo, anteriormente indicada no Magistério como fim ulterior da proposta catequística, seja não apenas indicada como um valor, mas também concretizada em um processo de acompanhamento (EG, n. 169-173). De fato, o complexo processo de interiorização do Evangelho envolve toda a pessoa em sua singular experiência de vida. Somente uma catequese que se empenha para que cada  um amadureça sua própria e original resposta de fé pode alcançar a finalidade indicada. Por essa razão, este Diretório ratifica a importância de a catequese acompanhar o amadurecimento de uma mentalidade de fé em uma dinâmica de transformação, que em definitivo é uma ação espiritual. Essa é uma forma original e necessária de inculturação da fé.

4.    Como consequência da releitura da natureza e da finalidade da catequese, o Diretório oferece algumas perspectivas, fruto do discernimento realizado no contexto eclesial das últimas décadas, que estão presentes de modo transversal em todo o documento, de modo que se entrelaçam em um tecido estrutural.
•    Reitera-se a firme confiança no Espírito Santo, presente e atuante na Igreja, no mundo e nos corações das pessoas. Isso cumula o empenho da catequese no sentido de alegria, serenidade e responsabilidade.
•    O ato de fé nasce do amor que deseja conhecer cada vez mais o Senhor Jesus, vivente na Igreja e, por essa razão, iniciar os fiéis à vida cristã significa introduzi-los no encontro vivo com Ele.
•    A Igreja, mistério de comunhão, é animada pelo Espírito e feita fecunda para gerar vida nova. Com esse olhar de fé, reafirma-se o papel da comunidade cristã como lugar natural da geração e do amadurecimento da vida cristã.
•    O processo de evangelização, e nele a catequese, é, antes de tudo, uma ação espiritual. Isso exige que os catequistas sejam verdadeiros “evangelizadores com Espírito” (EG, n. 259-283) e fiéis colaboradores dos pastores.
•    Reconhece-se o papel fundamental dos batizados. Em sua dignidade de filhos de Deus, todos os fiéis são sujeitos ativos da proposta da catequese, não beneficiários passivos ou destinatários de um serviço e, por essa razão, são chamados a se tornarem autênticos discípulos missionários.
•    Viver o mistério da fé em termos de uma relação com o Senhor tem implicações para o anúncio do Evangelho. Exige, com efeito, a superação de toda a contraposição entre conteúdo e método, entre fé e vida.

5.    O critério que norteou a redação deste Diretório para a Catequese encontra-se na vontade de aprofundar o papel da catequese na dinâmica da evangelização. A renovação teológica da primeira metade do século passado trouxe à tona a necessidade de uma compreensão missionária da catequese. O Concílio Ecumênico Vaticano II e o sucessivo Magistério coletaram e reuniram o elo essencial entre evangelização e catequese, adaptando-o de tempos em tempos às exigências históricas. Portanto, a Igreja, que é “missionária por própria natureza” (AG, n. 2),  encontra-se ainda disponível para uma confiante concretização dessa nova etapa de evangelização à qual o Espírito Santo a chama. Isso requer comprometimento e responsabilidade para identificar as novas linguagens com as quais comunicar a fé. Em um momento em que se modificam as formas de transmissão da fé, a Igreja está comprometida em decifrar alguns sinais dos tempos com os quais o Senhor indica o caminho a ser percorrido. Entre esses muitos sinais, podem ser reconhecidos: a centralidade do fiel e da sua experiência de vida; o importante papel das relações e dos afetos; o interesse pelo que oferece significados verdadeiros; a redescoberta do que é belo e do que eleva o ânimo. Nesses e em outros movimentos da cultura contemporânea, a Igreja recolhe as oportunidades de encontro e de anúncio da novidade da fé. Esse é o pilar de sua transformação missionária, que motiva a conversão pastoral.

6.    Assim como o Diretório Geral para a Catequese (1997) estava em continuidade com o Diretório Catequético Geral (1971), também o presente Diretório para a Catequese se coloca na mesma dinâmica de continuidade e desenvolvimento com relação aos documentos que o precederam. Não se pode esquecer que a Igreja vivenciou, nessas duas décadas, alguns eventos importantes que, embora com ênfases diferentes, figuraram como momentos significativos para o percurso eclesial, para uma compreensão mais profunda dos mistérios da fé e da evangelização.

Vale lembrar, primeiramente, o frutuoso pontificado de São João Paulo II que, com sua Exortação Apostólica Catechesi Tradendae (1979), gerou um verdadeiro impulso inovador para a catequese. Bento XVI muitas vezes reiterou a importância da catequese no processo da nova evangelização e, com a Carta Apostólica Fides per doctrinam (2013), ofereceu uma implementação concreta a esse compromisso. Por fim, o Papa Francisco, com sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), quis reafirmar o elo inseparável entre evangelização e catequese à luz da cultura do encontro.

Outros grandes eventos marcaram a renovação da catequese. Entre eles, não se podem esquecer do Grande Jubileu do ano 2000, o Ano da Fé (2012-2013), o Jubileu Extraordinário da Misericórdia (20152016) e os recentes Sínodos dos Bispos sobre alguns conteúdos importantes para a vida da Igreja. Em particular, recordam-se aqueles sobre A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (2008); A nova evangelização para a transmissão da fé cristã (2012); A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo (2015); e Os jovens, a fé e o discernimento vocacional (2018). Por fim, é preciso mencionar a publicação do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (2005), uma ferramenta simples e imediata para o conhecimento da fé.

7.    O Diretório para a Catequese articula seus conteúdos em uma estrutura renovada e sistemática. A organização dos temas buscou considerar as diversas e legítimas sensibilidades eclesiais. A Primeira Parte (A catequese na missão evangelizadora da Igreja) oferece os fundamentos do percurso inteiro. A Revelação de Deus e a sua transmissão na Igreja abrem a reflexão sobre a dinâmica da evangelização no mundo contemporâneo, assumindo o desafio da conversão missionária, que atinge a catequese (Capítulo I). A catequese é delineada na caracterização de sua natureza, finalidade, atividades e fontes (Capítulo II). O catequista – cuja identidade (Capítulo III) e formação (Capítulo IV) são apresentadas – faz visível e operativo o ministério eclesial da catequese. Nessa primeira parte, além de atualizar as questões subjacentes esclarecidas, vale destacar o capítulo sobre a formação que reúne perspectivas importantes no que diz respeito à renovação da catequese.

8.    Com a Segunda Parte (O processo da catequese), entra-se nos méritos da dinâmica catequística. Em primeiro lugar, apresenta-se o paradigma de referência que é a pedagogia de Deus na história da salvação, que inspira a pedagogia da Igreja e a catequese como ação educativa (Capítulo V). À luz desse paradigma, os critérios teológicos para o anúncio da mensagem do Evangelho são reorganizados e adequados às exigências da cultura contemporânea. Além disso, o Catecismo da Igreja Católica é apresentado em seu significado teológico-catequético (Capítulo VI). O Capítulo VII apresenta algumas questões acerca do método na catequese com referências, entre outras coisas, ao tema das linguagens. A segunda parte termina com a apresentação da catequese com os diversos interlocutores (Capítulo VIII). Tendo conhecimento de que as condições culturais no mundo são muito diversas e que, portanto, são necessárias pesquisas em âmbito local, decidiu-se, todavia, oferecer uma análise das características gerais desse tema amplo, acolhendo o ecoar dos Sínodos sobre a família e sobre os jovens. Finalmente, o Diretório convida as Igrejas particulares a prestar atenção à catequese para as pessoas com deficiência, os migrantes, os emigrantes, e os encarcerados.

9.    A Terceira Parte (A catequese nas Igrejas particulares) mostra como o ministério da Palavra de Deus toma forma na concretude da vida eclesial. As Igrejas particulares, em todas as suas articulações, cumprem a missão do anúncio do Evangelho nos diversos contextos em que estão inseridas (Capítulo IX). Nessa parte, reconhece-se a peculiaridade das Igrejas Orientais, que têm uma tradição catequística própria. Cada comunidade cristã é convidada a se confrontar com a complexidade do mundo contemporâneo, no qual se fundem elementos muito diversos (Capítulo X). Diferentes contextos geográficos, cenários religiosos, tendências culturais – embora não afetando diretamente a catequese eclesial – plasmam a fisionomia interior do nosso contemporâneo, ao qual a Igreja se coloca a serviço e, portanto, não podem deixar de ser objeto de discernimento em vista da proposta da catequese. Vale ressaltar a reflexão sobre a cultura digital e sobre algumas questões da bioética, que fazem parte do grande debate dos nossos anos. O Capítulo XI, retomando o tema da ação da Igreja particular, indica a natureza e os critérios teológicos da inculturação da fé, que se expressa também com a elaboração de catecismos locais. O Diretório termina com a apresentação dos organismos que, em diferentes âmbitos, estão a serviço da catequese (Capítulo XII).

10.    O novo Diretório para a Catequese oferece os princípios teológico-pastorais fundamentais e algumas orientações gerais relevantes para a prática da catequese em nosso tempo. É natural que sua aplicação e indicações operacionais sejam um compromisso para as Igrejas particulares, chamadas a prover a elaboração desses princípios comuns para que sejam inculturados em seu próprio contexto eclesial. Este Diretório, portanto, é uma ferramenta para a elaboração do diretório nacional ou local, emanado da autoridade competente e capaz de traduzir as indicações gerais para a linguagem das respectivas comunidades eclesiais. O presente Diretório, portanto, está a serviço dos Bispos, das Conferências Episcopais, dos organismos pastorais e acadêmicos engajados na catequese e na evangelização. Os catequistas encontrarão sustento e desafio em seu ministério diário de amadurecimento na fé de seus irmãos e irmãs.

 

[1] FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. (Documentos Pontifícios, 17). Brasília: Edições CNBB, 2015. Nota do tradutor: as referências completas das obras citadas se encontram nas Referências Bibliográficas ao final do Documento.
[2] NdT: optou-se pela diferenciação entre “catequístico(a)” e “catequético(a)”: por “catequístico(a)” se entende a atividade ou a ação de catequese realizada pelos catequistas, consagrados(as), presbíteros e Bispos; com “catequético(a)” se indica a reflexão sobre a catequese feita por catequistas, catequetas, consagrados(as), presbíteros e Bispos.
[3] CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Ad Gentes. In: SANTA SÉ. Concílio Ecumênico Vaticano II: Documentos. Brasília: Edições CNBB, 2018, p. 529-588.
 

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