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O laicato na Igreja e no mundo

BRIGHENTI, Agenor. O laicato na Igreja e no mundo. Um gigante adormecido e domesticado. São Paulo: Paulinas, 2019, 120 p., 14,0 x 21,0 mm – ISBN 9788535645170

 

O laicato: sua situação atual, sua identidade e sua missão na Igreja e no mundo é o assunto deste livro de autoria de Agenor Brighenti - presbítero da Diocese de Tubarão, SC, doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Professor-pesquisador na PUC de Curitiba e professor-visitante no Instituto Teológico-Pastoral do Conselho Episcopal Latino-americano, em Bogotá. Membro da Equipe de Reflexão Teológica do CELAM  e do Grupo de Teologia Ibero-americana. 


Em relação à situação atual do laicato, o autor faz referência ao seu potencial grandemente minimizado pelo clero. O laicato conforma a maioria quase absoluta dos fiéis, de suas qualidades e carismas, composto de profissionais em diferentes áreas do saber e do trabalho. São a maior riqueza da Igreja, com um potencial evangelizador imensurável, mas ainda não suficientemente valorizado, reconhecido e mobilizado, em especial as mulheres.  Essa situação a qual se encontra o laicato é descrita pelo autor como a de um  “gigante adormecido e domesticado” pelo clericalismo e pelo patriarcado cultural e eclesial.  As consequências do clericalismo são nefastas: revela um retrocesso em relação às conquistas do Vaticano II; a domesticação e a criação de leigos clericalizados.


Num segundo momento são mencionados os avanços e retrocessos em relação à renovação conciliar e à tradição eclesial libertadora latino-americana. O Concílio Vaticano II, ao lembrar que é pelo batismo que começamos a ser cristãos, reafirmou a “base laical” da Igreja - concebendo os leigos como sujeitos e protagonistas da evangelização. Há uma corresponsabilidade de todos os batizados em tudo na Igreja. Infelizmente num contexto de involução eclesial, de gradativo distanciamento da renovação do Concílio Vaticano II e da tradição eclesial latino-americana - a Igreja caminhou para trás, em descompasso com um mundo que caminha vertiginosamente para a frente: uma Igreja autorreferencial, uma Igreja-visibilidade e dos grandes templos, de eventos de massa em lugar de processos no seio das pequenas comunidades, em missão centrípeta onde o laicato é considerado  “extensão do braço do clero”, passando de sujeito a colaborador, coadjuvantes, objetos ou destinatários de serviços prestados pelo clero, cristãos de segunda categoria.


Aparecida e o pontificado de Francisco são um sopro sobre as cinzas- capazes de reacender novamente o fogo trazido pelo espírito conciliar. O autor mostra como a Conferência de Aparecida (2007) e o Papa Francisco veem/compreendem o laicato. Aparecida desautorizou segmentos da Igreja que estão virando a página para trás – denunciando uma eclesiologia e uma espiritualidade anteriores ao Concilio Vaticano II, assim como o clericalismo que faz dos leigos objetos da pastoral e coadjuvantes do clero. Oficialmente o Papa Francisco resgata, com Aparecida, o Concílio e a tradição eclesial latino-americana. A Exortação Evangelii Gaudium (2013) recolhe e relança as intuições básicas e os eixos fundamentais da renovação conciliar e da tradição latino-americana. Resgatando a teologia do laicato oriunda do Vaticano II o Papa Francisco tem sido um crítico contundente da volta do clericalismo e da sua superação, da despatriarcalização da Igreja  em vista de uma Igreja toda ela ministerial- aludindo ao lugar e ao papel das mulheres. 


Na segunda parte do livro, o autor faz uma abordagem sobre a identidade e a vocação dos leigos. O enfoque histórico, bíblico e patrístico procuram situar o leitor diante do significado e da evocação do termo leigo. O autor mostra que uma classe de cristãos, separada do clero, aparece na Igreja no início do século III e se consolidará somente ao século IV. Coincide com a estratificação do clero em bispos, presbíteros e diáconos, que passa a se distanciar gradativamente dos fiéis não ordenados, formando uma categoria de cristãos à parte, paralela à outra categoria conformada por leigos e leigas. Percorrendo o itinerário a Igreja mostra como se deu o surgimento de cristãos de segunda categoria e como se configurou uma eclesiologia segundo o binômio clero-leigos, ganhando um estatuto jurídico no século XII e, nele, a separação das duas categorias de cristãos será regulamentada canonicamente. 


É neste contexto de desprestígio do laicato que surgiram muitos movimentos de leigos, preocupados com a vida espiritual, o amor ao Evangelho e a vida de pobreza. Destaca-se no século XIII o papel das ordens mendicantes, no século XVI a reforma protestante que se propôs superar a organização da Igreja em classes de cristãos, insistindo no “sacerdócio dos fiéis”, na santificação dos leigos pelo trabalho, no valor do casamento e no acesso de todos às Sagradas Escrituras, dado que a Igreja como um todo é a depositária e intérprete da Palavra de Deus. O magistério é reflexo da teologia de seu tempo.  Nesta perspectiva – no final do século XIX, Leão XIII em Carta de 1888 dirigida ao Arcebispo de Tours, justifica a Igreja organizada segundo o binômio clero-leigos; no início do século XX, Pio X em sua encíclica Vehementer, de 1906, faz o mesmo. Nesta compreensão aos pastores compete dirigir seus membros e ao rebanho deixar-se conduzir e seguir seus pastores como rebanho dócil. 


A mudança desta compreensão se dará com a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), preparado por diversos movimentos de renovação, entre eles o movimento do laicato, em especial em torno da Ação Católica. O Vaticano II irá reconhecer que o laicato são sujeitos  na Igreja e no mundo, como todo cristão, incluídos os clérigos. Essa compreensão eclesiológica se funda no Batismo, de onde brotam todos os ministérios da Igreja. O Povo de Deus é todo ele, um povo profético, sacerdotal e régio. A identidade do laicato vem da relação com Jesus Cristo, com a Igreja e com o mundo. No pós-concílio o debate teológico se encarregou de mostrar que o compromisso com o mundo deriva do Batismo - engajar-se nas tarefas temporais não é só imperativo para os leigos. É um imperativo também para o clero. 


A terceira parte, com relação à missão do laicato na Igreja e no mundo, o autor, optou por enfocá-la a partir do tria munera ecclesia, os três múnus da Igreja: o múnus profético, o múnus sacerdotal e o múnus da caridade, conferidos pelo Batismo a cada membro do Corpo que conforma a Igreja, do qual Cristo é a Cabeça.


Com relação do ministério da profecia/ pastoral profética está se dá pelo exercício do testemunho (martyria), o anúncio do Evangelho (kerigma), a catequese (didaskália) e teologia (krísis). O testemunho é o primeiro meio de evangelização, é condição para o cristão ser luz do mundo e sal da terra. É falar de Deus sem falar, pois se trata, antes de mostrar Deus e não demonstrá-lo com palavras. A vivência da fé, além de acolher e irradiar o Evangelho pelo testemunho consiste em anunciá-lo explicitamente. Trata-se do anúncio do Reino de Deus que Jesus inaugurou com sua presença e com sua obra- um Reino de justiça, de paz e de amor, já anunciado pelos profetas. Precedida pela vivência da fé no seio de uma comunidade eclesial e pelo anúncio do Evangelho do Reino, a catequese (didaskália) é o momento da educação e da formação cristã. A formação a fé cristã não se limita ao conhecimento do querigma, nem à catequese, por mais que busquem ser um verdadeiro processo de catecumenato ou de iniciação cristã – é preciso dar razões da fé de forma crítica e fundamentada – através de uma boa formação teológica no âmbito acadêmico e profissional. 


No tocante ao exercício do sacerdócio, este, se caracteriza pela celebração dos sacramentos, pela oração litúrgica  e pela pregação. São ações importantes da Igreja e para todo cristão, ainda que não seja toda a sua ação. O autor mostra como a configuração da Igreja no binômio clero-leigos eclipsou o sacerdócio comum dos fiéis conferidos pelo Batismo e pela monopolização dos ministérios por parte dos ministros ordenados e como a reforma litúrgica do Vaticano II resgatou o sacerdócio comum. Conclui apresentando alguns entraves atuais no exercício do sacerdócio comum dos fiéis. 


Por fim, no exercício do ministério da caridade que compreende o serviço ao mundo (diakonia) e a promoção da comunhão (koinonia), o autor destaca os lugares do serviço de todos os batizados. Mostra que existem serviços ad intra e ad extra, enquanto realização histórica da missão do cristão na Igreja e no mundo. O serviço do cristão, exercido na Igreja e no mundo, é para a comunhão (koinomia) ad intra e ad extra, vivendo a comunhão dentro da Igreja, entre os seus membros, e também contribuindo para a comunhão com toda a humanidade, dado que o Povo de Deus peregrina na história, no seio de uma humanidade toda ela peregrinante, e que o destino do Povo de Deus não difere do destino da humanidade.  


Sintonizar o leitor com a teologia mais atual do laicato é a grande contribuição deste livro tão bem elaborado com seriedade e objetividade. Bom conhecedor da história, da eclesiologia do Vaticano II e da tradição eclesial latino-americana, o autor, coloca o leitor diante de nível de informações gigantescas, de elementos críticos e riqueza de sugestões pastorais. Além disso, apresenta uma excelente seleção bibliográfica sobre a temática. 


Embora estejamos muito atrasados nesta questão – o livro é um convite a continuar semeando, cultivando e fazendo frutificar essa herança do Vaticano II – na superação do clericalismo, do autoritarismo e fazendo a passagem do binômio clero-leigos para o binômio comunidade-ministérios. Tarefa de todos nós!

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