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Outra comunidade é possível: sob a liderança do Espírito

GARCÍA PAREDE, José Cristo Rey, Outra comunidade é possível: sob a liderança do Espírito, São Paulo: Paulinas, 2019, 160 p. 14 X 21 cm. ISBN 9788535645408

 

Vivemos um momento particular da história da humanidade, caracterizado por profundas e rápidas transformações em todos os campos do saber e da atividade humanas. Nossa sociedade está em constante processo de mudança e em reorganização permanente. Grandes, médias e pequenas empresas, consideradas sólidas no mercado, estão em processo de reavaliação de seus métodos, de seus processos, de seus investimentos, de sua identidade e de seu quadro de pessoal.

 
A vida religiosa consagrada, com sua história milenar, não está alheia a essa tendência e não tem medido esforços para se reorganizar, com sabedoria, discernimento e generosidade, apesar das resistências às mudanças. Nestes últimos anos, muitos institutos de vida religiosa consagrada viveram processos de reorganização e reestruturação. As causas são muitas, particularmente, o envelhecimento dos membros e a diminuição das vocações, a secularização e a diminuição do apreço pela vida religiosa consagrada. 


Muitos institutos religiosos optaram pelo abandono ou pela concentração em obras consideradas significativas do ponto de vista do carisma e da missão, dando particular atenção às periferias geográficas e existenciais, como expressão de opção pelos pobres.


José Cristo Rey García Parede, autor desta obra, missionário claretiano, doutor em Teologia, profundo conhecedor da Vida Religiosa Consagrada, chama atenção para outra reorganização religiosa necessária que vai além da meramente institucional. Na verdade, é a mais importante. É a reorganização da comunidade sob a liderança do Espírito. A reorganização estrutural deve suceder-se outra reorganização não de tipo estrutural, mas interna de caráter teológico e espiritual, tanto a nível de comunitário como pessoal.


Ao se referir a uma “comunidade sob a liderança do Espírito” o autor considera uma dupla questão: por um lado, o Espírito como grande protagonista da comunidade e, por outro lado, os membros da comunidade como colaboradores dessa liderança do Espírito, cada qual segundo seu próprio dom e ministério. 


Consultor da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, por expresso desejo do Papa Francisco, o autor se pergunta: “de que nos serve a reorganização institucional se não abordamos seriamente a reorganização da própria comunidade local? O Autor adverte que este é o objetivo das reflexões contidas nesta obra que ele compartilha, depois de alguns anos de experiência, não só na Europa, mas também na América, Ásia e África. Por isso, ele julga que as propostas oferecidas podem ser válidas em qualquer lugar. 


José Cristo Rey Paredes trata de seis tipos diferentes de comunidade, interconectados entre si e traça o perfil de cada uma delas, com suas riquezas, carências, exigências.


- Comunidades configurada pela missão, casa da missão, que tem Deus Trindade como grande protagonista o qual configura e oferece a razão de existir da comunidade. As nossas comunidades locais e provinciais precisam entrar numa fase de reorganização para tornar tudo mais simples e fácil e pergunta-se: qual é o autêntico “por quê” de uma comunidade de vida consagrada? Não é aquilo que a comunidade faz por Deus, mas o que Deus faz pela comunidade e com ela. Deus espera que suas comunidades estejam presentes lá onde está o povo e, por conseguinte, sejam comunidades voltadas para a missão. 


- Comunidades-morada: espaço de comunhão, cujo paradigma é o “organismo vivo” que segundo as leis da vida, se organiza e se reorganiza, comunidades fruto da comunhão, não meramente legal, jurídica, mas orgânica. A comunidade é chamada a ser “casa”, “lar”, “morada” e “espaço de intimidade”. Descobre-se o que é a casa quando contemplamos o não-lugar. Muitos espaços nos quais vivemos são lugares para clientes, onde se entra e se sai; são lugares para o anonimato. Um lugar deveria ser um espaço para a pessoa, para viver em relação, em sociedade, para gerar história, para viver verdadeiros encontros. A casa-lugar é aquela que, aos poucos se converte em espaço para sonhar a utopia, em espaço gerador de personalidade, onde cada um emerge com seu próprio rosto. 


- Comunidades organizadas: o novo paradigma, identificado como paradigma “turquesa holístico-integral”, considera a organização como um sistema vivo, um organismo vivo, em contraposição com os paradigmas anteriores. A fonte de energia provém de três campos exegéticos: a atividade dos membros, as relações e interações mútuas dos membros, o contexto no qual a comunidade se localiza. A proposta do paradigma “turquesa” responde ao momento evolutivo atual da consciência humana e ao movimento que o Espírito Santo suscita em nosso tempo para levar em frente o projeto do Reino de Deus. Contempla a vida como um caminho para a realização pessoal e grupal. A pessoa não é um problema, mas um potencial, as relações são entre iguais e não hierárquicas, a gestão é compartilhada e todas as opiniões são respeitadas. 


- Comunidades liderada pelo Espírito: líderes e colaboradores, cujos elementos fundamentais e correlativos são: a liderança do Espírito e o seguimento de Jesus. É importante se perguntar: como entender a condição de líder e de seguidor (a), hoje, na segunda metade do século XXI? Como exercer uma liderança associada e subordinada ao Espírito? Como coordenar isso com os destinatários dessa liderança? Não é fácil ser líder num mundo em mudança. A liderança missional precisa ser reinventada. Essa liderança pode ser contemplada a partir de quatro perspectivas: cultivo, mudança, multidimensionalidade e promoção da comunidade cristã. 


- Comunidades diante do conflito: reconciliação transformadora, em que ao contemplar o rosto do irmão, da irmã, contempla-se o rosto de Deus e a reconciliação é um caminho que vai do conflito à transformação. O movimento de transformação não é circular, mas “em aspiral”. A pessoa não se reconcilia quando quer, mas quando lhe é concedido. A transformação reconciliadora acontece num lugar que se converte em “lugar da memória”.


- Comunidades em transformação: voar, viajar, contemplar, sonhar. O processo de transformação é uma viagem para o futuro emergente: o que buscamos e o que nos é concedido. Requer: abrir a mente, transcender os limites do conhecimento; abrir o coração: transcender os limites das relações; abrir a vontade, transcender os limites da nossa vontade limitada. Organizar-se à maneira de programação” não é o mesmo que organizar-se “à maneira de transformação”. 


Esta obra Outra comunidade é possível não é um texto para ser lido apenas, mas um texto especial para ser objeto de reflexão, de iluminação, de estudos nas comunidades religiosas que estão realizando o fatigoso trabalho de reorganização e estão em busca de um novo tipo de liderança, adapto aos tempos atuais, na certeza de que sob a liderança do Espírito, outra comunidade é possível. 

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