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Santidade: chamado à humanidade

BINGEMER, Maria Clara. Santidade chamado à humanidade. Reflexões sobre a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate. São Paulo: Paulinas, 2019, 136 p., 135 x 21mm – ISBN 9788535645187

 

Maria Clara Bingemer é professora titular do Departamento de Teologia da PUC-RJ e coordenadora da Cátedra Carlo Maria Martini da mesma universidade. Doutora em Teologia pela Universidade Gregoriana, com vários estudos publicados sobre mística e espiritualidade, professora visitante em várias universidades estrangeiras e orientadora de retiros espirituais. 


A obra Santidade chamado à humanidade. Reflexões sobre a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate pertence à coleção Ecos de Francisco. A autora tendo em conta a exortação apostólica Gaudete et Exsultate  do Papa Francisco desenvolve uma reflexão sobre a santidade – fazendo notar que a santidade é o destino e a meta da vida de todo cristão. Diante disso, esclarece na Introdução que a pretensão do papa é apenas uma coisa: que o chamado à santidade ressoe uma e outra vez no mundo de hoje, fazendo entender que ser santo é, na verdade, ser profunda e radicalmente humano: criado, redimido e santificado por Deus em seu amor infinito. 


O livro está estruturado em quinze (15) reflexões com o objetivo de clarificar o horizonte do qual fala o Papa Francisco:
1) A alegria como primeiro sinal: destaca-se que a primeira chave de leitura para compreender a visão da santidade que nos dá Francisco aparece no titulo mesmo da exortação: “Alegrai-vos e exultai”. A alegria é a marca da santidade, é um estado de espírito-, alimentado pela comunhão com Deus e com os outros.


2) Clareando alguns conceitos antes de prosseguir: destaca-se que na história do Ocidente, nomeou-se as grandes atitudes éticas e morais da humanidade, delineando tradicionalmente uma trilogia de modelos ideais: o sábio, o herói e o santo. O sábio é aquele que alcançou equilíbrio, associando teoria com práxis e reflexão cultivando as virtudes da ordem, da medida, da harmonia e da serenidade. O herói entrega-se ao serviço de uma causa que vai além de si mesmo e o leva a ultrapassar-se continuamente. Distingue-se pela fortaleza da alma, mas também pela magnanimidade e nobreza na escolha de suas posições. O santo é alguém possuído por um desejo infinito de Transcendência que para ele tem um nome: Deus. Ele/a segue a sede sempre mais aguda que lhe desperta esse desejo, menos pela busca de uma perfeição moral do que pelo amor de Deus, ao qual quer corresponder com total devoção e esquecimento de si.  O Papa Francisco, em sua exortação, seguirá a linha que conecta o santo não só verticalmente e interiormente (com Deus e seu Espírito, que o habita e lhe concede experiências espirituais consoladoras e de plenitude) mas horizontalmente (com os irmãos), aos quais é levado a amar e a servir impulsionado pelo mesmo Espírito do mesmo Deus.


3) O santo: uma testemunha: a partir do capitulo 1 da exortação, aborda-se a categoria: “o testemunho”. Mostrando que a fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros, é preciso ter claro que essas testemunhas não se situam em um tempo e espaço longínquos, demasiado elevados para que as alcancemos e, para que não pensemos que santidade é sinônimo de heroísmo e de morte violenta, o Papa Francisco fala de “santos ao pé da porta”, das testemunhas simples do cotidiano: neles se constrói a verdadeira história da salvação, ainda que permaneçam anônimos e ocultos, não revelados pela história oficial. 


4) A santidade primordial: tendo em conta a teologia latino-americana utilizando a expressão de Jon Sobrino entende-se por santidade primordial a total intimidade om Deus e uma total doação ao outros em meio a situações onde isso seria humanamente impossível. Quando a condição humana tem tudo para se animalizar e perder a dignidade, muitas vezes, em lugar disso, eleva-se com uma dignidade e uma altura espantosas. Assim, essa santidade primordial que se dá na vida de cada dia das pessoas pobres, simples e humildes - se aproxima do que o Papa Francisco chama de “santidade ao pé da porta”. 


5) A santidade “anônima”: com base no que afirmou o Concílio Vaticano II: que a salvação humana vai muito além dos limites da Igreja institucional, o Papa Francisco diz em sua exortação que mesmo fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes, o Espírito suscita testemunhas que são sinais de sua presença. E esses e essas que se encontram às margens ou fora da instituição brilham com a luz divina e auxiliam os próprios discípulos de Cristo a viver mais plenamente sua vocação. Essas afirmações feitas pelo Papa Francisco encontram apoio na mais sólida teologia católica, concretamente no teólogo Karl Rahner. Este afirma que todo ser humano possui dentro de si um dinamismo existencial sobrenatural e, por conseguinte, é, em sua essência mais profunda, aberto a uma possível revelação de Deus. Todo homem é alcançado pela graça de Deus e, por isso, todo homem é alcançado pela graça de Deus. O cristão anônimo não é salvo por sua moralidade natural e intrínseca, mas porque ele experimentou a graça de Jesus Cristo, mesmo sem saber que o fazia. 


6) O chamado e a missão a todos e a cada um em particular (o Reino de Cristo): embora a santidade seja um caminho para todos, o papa demonstra que ela não pode ser fabricada pela indústria humana, mas depende inteiramente da iniciativa e da graça de Deus, embora peça uma resposta da parte do ser humano. Na origem de todo processo de crescimento na fé e na caridade reconhecido como “santo” está o chamado de Outro. Outro não se compara nem faz número com nada do que existe. Que é infinito e se dá infinitamente, pedindo por isso mesmo uma resposta ilimitada e suscitando uma confiança igualmente ilimitada: Deus. Esta compreensão do Papa Francisco aflora a espiritualidade inaciana que Bergoglio recebeu e da qual bebeu como jesuíta e que encontra sua fonte nos Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. 


7) Santidade e teologia da vida cristã: o Papa Francisco está sintonizado com a mais atual teologia do laicato -   entendendo que a santidade é a vocação maior do cristão leigo tanto quanto do sacerdote ou dos religiosos. Por isso em sua exortação encontra-se exemplificada a santidade com figuras leigas: a mãe de família, o trabalhador, a senhora que vai ao supermercado.  Se a perfeição é para todos, a santidade – tradução mais atualizada de perfeição - é também para os cristãos leigos que, a partir de seu batismo, são chamados ao seguimento radical de Jesus Cristo e à vida de união com Deus. Ainda mais: se o fundamento da vida de todo cristão é a consagração batismal, e é desta que decorre sua vida espiritual- parece impróprio falar em termos de uma espiritualidade própria dos leigos ou laical. 


8) O desafio de ser “de Deus” no meio “do mundo”: a inserção nas realidades temporais ou terrestres é específica para cada um e todos os batizados, podendo acontecer sob variadas formas mais ligadas a carismas pessoais. Desta forma, o batizado é chamado a oferecer constantemente o sacrifício espiritual da vida consagrada a Deus, não se conformando com este mundo, mas discernindo dentro dele o que é melhor,  o que é perfeito, o que é de Deus. 


9) Santidade: o destino de todo batizado: fazendo um percurso sobre os textos neotestamentários destaca-se a centralidade do batismo para a compreensão da igualdade fundamental de todas as vocações. A centralidade do batismo torna-se a condição primeira e momento fontal da santidade cristã. Assim sendo o batismo é: a) um rito inclusivo; b) dá ao ser humano uma nova identidade; c) funda um modo específico de ser e construir a Igreja.


10) O santo: perito em humanidade: a exortação de Francisco direciona seu objetivo principal a explicar aos fiéis que a santidade não deve remover o cristãos do mundo e situá-los próximos às coisas celestes, esquecendo ou minimizando as terrestres ou históricas. Deseja fazer entender que o cristão não deve ser alguém supraterrestre ou angélico, mas, pelo contrário, ter os pés profundamente fincados no chão da humanidade à qual pertence. 


11) As duas tentações permanentes da santidade: o gnosticismo e o pelagianismo  são as duas tentações para aqueles que desejam progredir na vida cristã. O risco maior do gnosticismo é a tentação de medir uma maior ou menor elevação espiritual e avanço no caminho da fé pela quantidade de dados e conhecimentos que se consegue acumular. O risco do neopelaganismo é o da justificação pelas próprias forças, da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Quanto as atitudes que revelam o neopelaginismo: obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado com a liturgia, da doutrina e do prestigio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial – na caminhada da Igreja latino-americana com testemunhos e exemplos magníficos de denúncia profética, clarividência teológica e criatividade para a invenção de um novo modelo de Igreja, em alguns casos, degenerou em formas de pelagianismo que podem ser nomeadas como: ativismo, militância e excessiva politização da fé. 


12) Santidade: o desafio da alteridade e da solidariedade: os santos têm em comum a experiência de que todas as graças  conhecimentos a eles dados por Deus os direcionam misericordiosamente para o sofrimento humano. Cada santo/a não quer estar separado das dores e dos sofrimentos de seus contemporâneos, mas entrar em profunda solidariedade e comunhão com eles. A experiência mística ao contrário de proporcionar fuga do sofrimento e da morte, dos problemas e conflitos, leva a mergulhar dentro deles e abraçá-los compassivamente, com profundo desejo de solidariedade e comunhão. 


13) Santidade: o caminho das bem-aventuranças: o papa Francisco apresenta pontos positivos concretos que fazem obrigatoriamente parte do caminho de todo aquele/a que deseja crescer no seguimento de Jesus Cristo, movido por seu Espírito. Encontra, então, no Sermão da Montanha e especialmente nas Bem-aventuranças a carta magna da santidade cristã. Afirma que Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são a carteira de identidade do cristão. O que as bem-aventuranças mostram e o Papa Francisco sublinha é que ser santo é inspirar-se, seguir e, em consequência, assemelhar-se sempre mais a Jesus Cristo. 


14) Santificação=cristificação: o número 95 da Gaudete et Exsultate apresenta a grande regra de comportamento. Trata-se da bem-aventurança da misericórdia. O capítulo 25 do Evangelho de Mateus marcou indelevelmente a história do cristianismo e traz uma lista que foi incorporada pela Igreja  em sua Teologia Moral e Catequese como as obras de misericórdia: corporais e espirituais. Fiel ao Evangelho, Francisco segue o mesmo caminho não reduzindo a santidade a êxtases e fenômenos extraordinários- destacando a santidade como um estado permanente de insatisfação. O santo não apenas deseja crescer em perfeição particular e pessoal. Deseja transformar o mundo segundo o desejo e o coração de Deus. Por isso a santidade está vinculada com o saneamento do espaço público – não demonizando o engajamento e o compromisso social.


15) Os santos que o mundo de hoje necessita e pede: num contexto de mudança de época o discípulo de Jesus Cristo é chamado a desenvolver algumas virtudes verdadeiramente necessárias na sociedade e na cultura em que vivemos como: a paciência (ciência da paz), a alegria (marca registrada da santidade), a ousadia e o ardor (o coração dos santos é sempre ardente do amor de Deus), a comunidade e a comunhão (o espaço teologal onde a santidade encontra ambiente propício para acontecer e florescer), a oração (profunda experiência de oração e abertura ao diálogo com Deus).


O livro traz contribuição para uma melhor compreensão do tema da santidade, uma vez que a santidade é confundida com atitudes de beatice ou relacionada com atitudes alienadas e com comportamentos desiquilibrados e totalmente distantes do mundo real. Toca questões centrais dessa temática de forma clara e simples. O texto é uma excelente introdução para quem se interessar em conhecer o verdadeiro significado da santidade: ela é o destino e a meta da vida de todo cristão. 

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