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Conferência Episcopal Portuguesa tem novo presidente

Presidente da CEP admite debate sobre celibato obrigatório e ordenação de mulheres


 
O novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CE) diz que “não veria mal” a possibilidade de haver padres casados na Igreja Católica de rito latino – já que eles existem no rito oriental. Em entrevista ao site Público, neste domingo (21), o também bispo de Setúbal, dom José Ornelas, afirma: “Não vejo mal nisso. Agora a discussão não deve ser colocada porque temos pouco padres; deve incidir naquilo que é o sacerdócio e no que ele significa para a Igreja como um dos ministérios fundamentais.”


Já quanto à ordenação de mulheres, admite que o tema é “mais complicado, mesmo na tradição da Igreja”, mas acha que “a Igreja tem de discernir e de ver. O que não se pode é pretender que o problema não existe. Há que confrontá-lo com a reflexão da própria Igreja e com a sua experiência para ir encontrando caminhos.”


Sobre as comissões que vão averiguar eventuais queixas de abusos sexuais, o bispo Ornelas admite que, com a sua criação, “possam surgir mais” casos, mas que a Igreja deve enfrentar o que aparecer. Numa outra entrevista, desta vez à agência Lusa, o presidente da CEP acrescenta, sobre os abusos: “A nossa posição de princípio é bem clara. É uma situação que com a qual não há possibilidade de pactuar.”


Na entrevista ao Público, o novo presidente da CEP, eleito terça-feira, em Fátima, alerta ainda para o perigo da deriva totalitarista neste tempo de reação à pandemia e avisa que as bolsas de pobreza poderão sair caras ao país e que já há instituições de solidariedade “à beira do colapso”.


José Ornelas admite ainda que os bispos da CEP têm de aprender a colaborar mais entre si e que a Igreja deve “encontrar caminhos e linguagens novas” para passar a sua mensagem. “Hoje, temos de ser uma Igreja que vai ao encontro das pessoas (…) significa ir realmente à procura das pessoas, nas suas aspirações e nos seus sonhos”.


Na entrevista à Lusa, ainda sobre o papel da Igreja no mundo atual, o bispo de Setúbal afirma: “As tentativas de querer voltar para trás são precisamente a negação da fidelidade que se quer aos princípios que se tem.”
Abaixo, segue a entrevista que o presidente da CEP deu à Rádio Renascença e à agência Ecclesia:


Parabéns pela eleição para presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. O que significa para si esta eleição?
Primeiro, foi uma confusão… (risos) Saber como vai ser conjugar a diocese com mais este trabalho... Sem dramatizar nada, é evidente que vai exigir uma certa ginástica.


É uma dupla responsabilidade…
Sou bispo da quarta diocese maior do país, em termos populacionais. É uma diocese que me fascina e com a qual me identifico muito bem. É nessa qualidade também que me é pedido para ser presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Não existe um bispo que cai do céu para ser presidente da CEP. Os outros colegas que podiam ser hipótese também estão igualmente assoberbados de trabalho.


Tem algum significado particular o fato de Setúbal ser uma diocese periférica, ou assim considerada?
Não sei, acho que não é Setúbal que fica em evidência. O que fica em evidência é a Conferência Episcopal. Neste momento, é uma ideia que tem de me entrar na cabeça, ou seja, passar a olhar para a Igreja em Portugal de uma forma global. Estas duas dimensões têm de ser sempre conjugadas, mas isso é muito importante no ser Igreja. Quando eu penso na minha diocese, não posso pensar em Setúbal como se fosse a Igreja, ela é uma das Igrejas da Igreja Universal. Mas não posso deixar de pensar que sou da Igreja de Setúbal e com ela estou identificado. Estas coisas não entram em contradição. São dois níveis que se juntam para formar a rede que somos.

 

O papa Francisco fala muito da Igreja sair para as periferias. A realidade de Setúbal toca muito esse âmbito. Dom José Ornelas já disse que foi eleito por causa da sua experiência no terreno. Isso é uma mais-valia para o país?
Nós temos, desde o início, quatro Evangelhos, quatro leituras de Jesus. São o mesmo Jesus, mas quatro modos de viver a Igreja. A Igreja é como uma orquestra. Tem vários instrumentos e todos juntos formam essa orquestra, fazendo músicas complementares para a melodia final. A Igreja tem de ser sempre assim. Cada um junta à sua experiência eclesial aquilo que a Igreja anuncia. A narração dos discípulos de Emaús é precisamente isso. Cada pessoa que acredita faz crescer a Igreja. Cada bispo que interpreta e vive na sua realidade eclesial está a contribuir para a Igreja.


O papa Francisco vai tentando delinear o perfil de uma Igreja marcadamente laical e também sinodal. Qual será o papel das conferências episcopais na sinodalidade e na dimensão laical da Igreja?
A sinodalidade não é inimiga da unidade, bem pelo contrário. A catolicidade da Igreja tem de ser vivida dentro de cada uma das igrejas particulares. mas, ao mesmo tempo, temos de fazer caminho em conjunto. E, quanto à dimensão laical, a primeira coisa é que nós somos todos pelo batismo, filhos e filhas do Espírito de Deus. E o Espírito dá os seus dons, a todos e cada um, para o bem de todos. Para colaborarem na construção da Igreja e construção do mundo.


O primeiro papel da autoridade não é ser dominador de leões, mas ser criador de leões. Isto é a única forma de fazer uma Igreja viva. Mas não nos podemos esquecer que a Igreja funciona com todos os seus carismas e ministérios. O ministério da autoridade não é incompatível com a sinodalidade. O exercício da autoridade dentro da Igreja está ao serviço da comunhão e da unidade. O bispo é aquele que supervisiona para que não falte nada e ninguém fique para trás.


A sua experiência missionária e o seu percurso no terreno ajudam à consolidação da experiência sinodal?
Quando temos uma Igreja muito parada, institucionalizada e acomodada, temos uma Igreja onde, facilmente, a estrutura e o esquema ganham maior preponderância. Quando temos uma Igreja que vive fazendo-se e, portanto, caminhando, é uma Igreja que tem de ir sempre inventando. A Igreja missionária é, por natureza, uma Igreja constantemente criativa, tem de se adaptar a novos meios, novas culturas, novas línguas, criar o que ainda não estava criado. Esta pandemia, por exemplo, veio dizer-nos que, se nos fixarmos simplesmente naquilo que temos, não chega. Por isso, fomos criando outras coisas. Nas missões também aconteceu o mesmo.


É uma experiência de fé criativa…
Quando a Igreja se deixa mover pelo Espírito, não deixa de ser uma Igreja missionária. A igreja tem de ser missionária em todo o lado. A secularização veio dizer-nos, para quem ainda não se convenceu, que não vivemos em cristandade. Nós não somos um país, digamos, cristão.


Não?
Não, nós não somos um país cristão, no sentido de que a nossa Igreja é determinante e onde tudo conflui para a Igreja.


Então, as estatísticas enganam?
Na diocese de Setúbal, a maioria considera-se crente, mas os que frequentam a Igreja são uma minoria muito pequena. Isso significa que o nosso espírito missionário é tão necessário aqui como é em África. Aliás, os países mais cristãos, nesse ponto de vista, já não são os europeus.


Há também necessidades que surgem e exigem à Igreja criar respostas para este tempo e ultrapassar problemas, como, por exemplo, as comissões de proteção de menores. Que trabalho foi este, feito através do Vaticano e que envolveu todas as dioceses?
É um chamamento feito a toda a Igreja. As comissões de proteção de menores vêm ao encontro de uma situação que não é simplesmente eclesial. Não é simplesmente a questão dos abusos sexuais, é um problema mundial onde o principal foco de preocupação não são verdadeiramente os ambientes eclesiais, que também existem. E, infelizmente, não posso garantir que não vão continuar a existir.


As comissões de proteção de menores vão ajudar a ultrapassar este problema?
Elas foram criadas para isso, com o objetivo de criar sistemas de detecção e ajuda. Criar uma mentalidade de intolerância a este estado de coisas, a nível infantil, das pessoas fragilizadas e para o drama da violência familiar. É necessária uma mudança cultural. Vejo estas comissões não tanto como estando prontas para intervir em caso de avaria, mas, sobretudo, para manter saudáveis os nossos ambientes, ajudar a formar outra cultura de respeito para com as pessoas.


Que desafios e aspetos positivos sublinha depois do período pandêmico?
O documento agora aprovado pelos bispos, na assembleia plenária, dá muitas perspectivas a esse nível. Um dos primeiros elementos de valorização é a primazia da vida, a convergência de valores para a vida e os meios que a defendem, a atenção aos mais frágeis. São parâmetros muito importantes. A própria convergência de política interna e internacional a este nível acabou por ser interessante, mas, ao mesmo tempo, revela também sistemas de interesses que já estão a passar ao lado, o que é dramático.


Não o preocupa a questão da eutanásia voltar ao Parlamento?
Neste sentido, estar a discutir a eutanásia, é um murro estômago. Surge em contra-mão de tudo aquilo que se veio dizer. Deve-se enquadrar aqui também a questão dos cuidados paliativos e criar um ambiente para que as pessoas tenham um gosto de viver. Isto é que é importante. Agora, colocar a questão da eutanásia, é um contraponto.


Outro aspecto relaciona-se com a questão internacional, com Portugal e a União Europeia. Pela primeira vez, vamos ver se a União Europeia aparece, realmente, com uma capacidade de intervenção para dizer que ninguém fica para trás. Isto é uma medida inteligente, é uma questão de inteligência económica, social e política. A União Europeia não pode ser apenas para os mais potentes e deixar de lado os mais fragilizados.


Isso não evita que a pandemia tenha colocado a descoberto bolsas de pobreza, bairros mais problemáticos e pessoas mais fragilizadas…
Que acontecem por essa Europa fora. Os níveis de pobreza podem ser diferentes, mas a sua equidade e dramaticidade existem em todos os países. Temos de criar condições mínimas de dignidade para todos.


… sem o tal vírus do egoísmo que denunciou no Domingo de Páscoa...
Se não formos capazes de fazer isso, as consequências vão ser dramáticas para todos. Os fenómenos como aquele dos coletes amarelos, em França, as revoltas nos bairros periféricos de Bruxelas e os protestos em Portugal sobre as discriminações, são sinais e sintomas de uma doença que não está curada. Os coletes amarelos paralisaram a França, mesmo com muita manipulação à mistura, revelam um mal-estar que é preciso atender.


E o que revelam as manifestações de violência e anti-racistas que têm marcado a sociedade em todo o mundo?
Positivamente, revelam - e não é só da parte das pessoas discriminadas - uma consciência onde se juntaram muitas raças e etnias para dizer "não pode ser, basta. Não se pode viver assim". Vejam o que significa a exclusão política da África - um continente, como lhe chamava o professor Adriano Moreira, "estrategicamente insignificante depois da Guerra Fria". Esquecidos, até que acordámos com eles a baterem-nos à porta, a entrarem desesperados, arriscando tudo para atravessarem o Mediterrâneo.


Como se deve encarar este problema?
Estive com os nossos estudantes africanos, a maioria deles nos Camarões, onde falavam de África com ceticismo. Jovens que deviam ser fonte de esperança olhavam para os vários setores da sociedade sem encontrar motivos de esperança. A Igreja tem de ser motivo de esperança e de denúncia. Temos de criar um mundo alternativo que não se faz, simplesmente, por contraposição, mas com criatividade. Veja-se o caso de Nelson Mandela, um homem que sofreu a discriminação, a opressão política. Quando saiu da prisão, devia ser um homem completamente amargurado, mas fez com que um país se erguesse e deu passos significativos na criação de um novo mundo. Felizmente, o mundo também está cheio destes profetas.


Nesta Europa secularizada, onde Portugal se inclui, o que pode tornar a fé atrativa nos dias de hoje, concretamente para os jovens?
A fé é uma forma de viver que nos faz interpretar as coisas. Primeiro, na realidade do mundo onde vivemos. Eu não vivo em mundos ideais. O mundo novo tem de nascer dentro de mim. Tenho de sonhá-lo. Os profetas viram esse mundo.


É um sonho realista?
É um sonho realista porque vai ser a base para a criação de caminhos. A Igreja vai ser sempre isto: ter um sonho e querer realizá-lo e, depois, ser capaz de dar a vida por esse sonho, de empenhar aí a existência. Não podemos ficar à espera de que aconteça. Temos de fazer acontecer. O cristão tem de ser alguém ativamente presente na criação deste mundo.


Que motivações podem os jovens e a sociedade portuguesa encontrar na realização da Jornada Mundial da Juventude?
Nós, em Setúbal, estamos a falar do "Partilha". Partilha-te… Partilha em… Partilha-te em missão, na solidariedade, na construção… Partilha-te ao nível do sonho. Queremos que os nossos jovens sejam capazes. A Igreja do Concilio Vaticano II foi o levantar-se para estar ativa na construção da sociedade. A Igreja, em si e no seu modo de viver, tem de ser um laboratório do mundo novo que Deus sonha para a humanidade.


Disse que a Igreja é chamada a discernir sem saudosismos. É isso que quer para a Igreja em Portugal?

Gostaria que a Igreja fizesse sempre memória, com gratidão e alegria. Memória sim, daquilo que ela é, sem medo e sem constrangimentos. Não é uma memória saudosista e bolorenta. É uma memória que dá força e inspiração, nesta época complexa de nós vivemos.


Fonte: https://domtotal.com/

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