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Decadência ou esperança?

Decadência ou esperança? Os sinais da casa comum e a urgência de uma nova organização social

 

O título sugerido para a reflexão pergunta e responde. Ao afirmar a urgência de uma nova organização social indica que tem uma ordem social que mostrou seus limites nessa pandemia; há uma velha ordem que agora se mostrou assim e que deve ser sucedida por uma nova com urgência. De nossa parte, como cristãos, a esperança é a atitude – a virtude – que nos orienta em qualquer situação, de normalidade e de crise. O princípio da casa comum constitui o parâmetro ético global dessa nova ordem. Portanto, devemos falar de organização social, de esperança e de vida na casa comum.

1.    Uma nova organização social

A pandemia revelou – tirou o véu – que encobria uma ordem econômica e política mundial supostamente definitiva, imutável e verdadeira: economia estruturada no capital globalizado, capital financeiro (centrado no dinheiro que gera dinheiro) e não mais na produção e orientado por princípios neoliberais: nos dogmas da autonomia absoluta do mercado que nega toda intervenção estatal e a afirmação do estado mínimo que nega a função social do Estado. Do ponto de vista político, o que se observava antes da pandemia já era uma crise da democracia liberal (estado moderno com suas estruturas) e um movimento crescente de governos de direita que desprezam os direitos políticos, sociais e, até mesmo, os direitos humanos e coloca Deus como fonte direta do poder.  Esse modelo centra-se na ideia de segurança nacional e na construção de muros, de rejeição ao diferente (no fundo na negação dos pobres) e na desqualificação das oposições. 
 Chegou a pandemia. Esse regime constituído na economia e ensaiado na política mostrou seus limites e sua ineficácia. Os Estados intervieram na economia (injetaram bilhões nas empresas) e retomaram desesperadamente sua função social com as políticas de renda mínima e de saúde pública. A saúde entregue à iniciativa privada (convênios de saúde) mostrou sua impotência (caso emblemático dos EUA). O dogma do progresso incessante (da produção e do comércio que não podem parar) mostrou também seus limites. Contudo, outro jeito de viver se impôs na reclusão social, na produção, no trabalho, no consumo etc. Os governos pautados na segurança também mostraram que os muros não salvam as economias nacionais. O coronavírus atravessou a velha muralha da China, os muros dos Estados Unidos, de Israel, os muros políticos da Itália etc. A velha ordem não respondeu aos desafios da pandemia e uma nova ordem se mostrou possível. A retomada da casa comum como lugar de todos os filhos de Deus e de todos os cidadãos e cidadãs, sujeitos de direitos iguais se apresentou como necessária e urgente.

2.    A esperança

A esperança é uma das três virtudes cristãs e pode nos orientar na leitura correta da crise instaurada pela pandemia. Muitas leituras foram feitas e circularam pelas redes sociais e pelas televisões. É triste constatar que cristãos de diversas confissões acolhem e repassam as leituras mais disparatas da pandemia. O cristão precisa aprender de novo a ler a realidade a partir da razão e da fé. A virtude da esperança possui uma dinâmica que nos permite ler o presente a partir do futuro, os riscos do presente a partir de valores maiores que nos lançam para além de toda circunstância histórica, de um futuro já concretizado em Jesus Cristo que nos ensina a experimentar a dor sem negá-la e de superá-la, mesmo quando o limite é a morte. A esperança cristã é pascal, é vida que vence a morte. Trata-se de uma virtude e de um princípio que exige renegar algumas leituras da pandemia: a) a leitura determinista que afirma que a história está mãos de uma força superior, boa ou má, Deus ou o demônio, da natureza que vinga de tempos em tempos, de purificação da espécie; b) a leitura mágica que dispensa a liberdade e a responsabilidade humana. Essa leitura oferece soluções religiosas para a contaminação: unções, novenas, crucifixos na porta etc. c) as leituras econômicas que colocam o valor do mercado acima da vida e dás as costas para os riscos de morte dos pobres; d) as leituras que dispensam as ciências em nome de projetos de poder a serem salvos.
A esperança nos ensina a ler a história com consciência, com discernimento, com a razão e com a fé. A razão explica o que é o vírus, como ele circula e como podemos controlá-lo. O que foge dessa explicação é falso; é lenda e ilusão. A fé nos ensina a ler os sinais de Deus em toda conjuntura histórica: Deus de Jesus Cristo é o Deus da vida que grita no grito das vítimas e nos chama para a solidariedade com os que sofrem e para a responsabilidade para com a vida. 

3.    Aprendizados para a casa comum

Nunca fomos tão iguais. A pandemia foi verdadeiramente globalizada em poucas semanas.  Mas, nunca fomos tão diferentes. O vírus mostrou que mata muito mais pobres do que ricos. Basta olhar o mapa da pandemia. Com certeza, nossa fé exige uma atitude ética e política que clama por uma nova ordem capaz de integrar de modo justo os filhos da terra. Nesse sentido, podemos falar em alguns aprendizados dolorosos que a crise nos trouxe e que nos ajudam a afirmar o valor e a prática da casa comum: 
1º. O ensinamento da fragilidade.  A vida humana pode sucumbir-se a qualquer momento. Todos os seres humanos se igualam na fragilidade, para além de qualquer distinção. As cenas das mortes ajudam a lembrar que a vida está sempre por um fio e que as prepotências não passam de mecanismos psicológicos de superioridade ou de status social e político que perdem suas seguranças e eficácias a qualquer momento. 
2º. O ensinamento da mutabilidade. As coisas mudam, mesmo quando afirmam ser imutáveis. A pandemia rompeu com a regularidade geral da vida. Conclusão: o mundo pode mudar de rumo, romper com as doutrinas fixas e construir outro tipo de civilização. Outro de tipo de vida é possível. O mundo parou, mas não acabou. O futuro é aberto e pode ser construído.
3º.  O ensinamento da desconstrução. Os mitos que sustentavam os regimes econômicos ruíram sem tempo para explicações. As urgências sociais colocaram os dogmas neoliberais por terra; ao menos por hora estão fechados para balanço. Os Estados injetaram dinheiro nas economias e retomaram suas funções sociais. Portanto, é possível outro modelo de relação entre mercado e Estado, outro modelo econômico sem as bases neoliberais, outro ritmo de crescimento, bem como outras práticas de consumo. 
4º. O ensinamento da desigualdade. O mundo mostrou que a desigualdade é estrutural no regime geral que o comanda e nos regimes locais que o reproduzem. O mundo é desigual. A desigualdade mata. O sistema de saúde é frágil. As classes empobrecidas podem, de fato, morrer de fome. Os pobres existem em todo o mundo e, de modo, gritante, mostraram seus rostos no Brasil. É preciso superar essa situação. Um regime justo, capaz de incluir a todos nos direitos sociais é urgente.
5º. O ensinamento do valor da vida. A defesa da vida coletiva e individual orientou as políticas de condução da crise. O isolamento social poderia levar a falências econômicas, mas se impôs como consenso mundial em nome do valor superior da vida.
6º. O ensinamento da ciência. As ciências ofereceram as explicações que permitiram aos governos adotarem as estratégias de controle da contaminação viral e do socorro das vítimas. Sem as ciências, a humanidade teria reproduzido as performances de outras epidemias anteriores. Sem as ciências cairíamos sem opção nos discursos das soluções mágicas e nas mentiras das fake News. As ciências podem contribuir efetivamente com a saúde pública em velocidade e em projetos mais eficientes do que normalmente contribuem. 
7º. O ensinamento da solidariedade.  O mundo se sintonizou na pandemia. A empatia com os dramas vivenciados pelos países distantes, trouxe para próximo os problemas. A humanidade aprendeu em meio aos dramas da contaminação e da morte a ir além da indiferença. Sem o sentimento comum da crise vivenciada e sem a solidariedade, o drama se tornaria imediatamente tragédia.  


O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal (Papa Francisco).
 

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