EDITORIAL

Uma Encíclica social nasce para circular dentro e fora da igreja; é endereçada aos fiéis e aos homens de boa vontade, como costumam dizer os Papas. Por conta do seu objeto – as questões sociais – costuma ser recebida por autoridades dedicadas na teoria e na prática às temáticas sociais. A recepção dos textos sociais nem sempre é positiva, desde que o Magistério papal focou de modo critico no modelo econômico vigente, expondo os seus limites éticos, políticos e sociais e sugerindo mudanças de rumo. Os ensinamentos sociais da igreja carregam consigo o germe da critica profética que distingue a justiça da injustiça nas conjunturas históricas e apresentam os valores do Reino de Deus como reserva utópica que provocam transformações. Por essa razão de raiz, jamais será um ensinamento recepcionado de modo consensual e unânime. 

A DSI constitui um corpo de ensinamentos que gradativamente forma um sistema que visa oferecer princípios, critérios e diretrizes para a ação dos cristãos na sociedade (Compêndio da Doutrina social da Igreja). Da reserva ética do Evangelho e das reflexões acumuladas na longa tradição e nos próprios ensinamentos do Magistério, cada documento situado em distintos contextos, oferece essas três chaves de leitura, cujo resultado concreto nem sempre agrada os que defendem a estabilidade dogmática do regime vigente. E não têm faltado recepções negativas e até agressivas aos ensinamentos do Papa Francisco. Seu estilo claro, simples e direto aliado a posturas políticas e pastorais, o coloca numa postura de antagonista do regime imperante no planeta, seja do mercado globalizado, seja das tendências políticas de fechamento nacionais.

Com Francisco os ensinamentos sociais deram grandes passos, de forma que o especialista no assunto, Bartolomeo Sorge, fala em uma nova era desses ensinamentos, por ele definida como “fase revolucionária”. Onde estaria a revolução? Antes de tudo é importante lembrar que todo documento do Magistério deve ser situado em seu contexto; é de dentro dos contextos, da empatia com os desafios advindos da realidade presente que os Papas falam de novo das questões sociais sem seus documentos. Pode-se dizer que as rerum novarum são sempre a referência para se entender um determinado ensinamento social. A cada geração esse ensinamento se renova e avança em alcance e profundidade, oferecendo elementos de discernimento evangélico aos desafios postos pela realidade presente. Precisamente por essa razão, as Encíclicas sociais nunca foram bem recebidas pelos donos do poder econômico e político. Nos primeiros tempos por entenderem que a Igreja não deveria se meter em questões sociais e políticas, depois por negarem as críticas que eram feitas aos regimes econômicos e políticos, uma vez que a DSI cobra as finalidades éticas do capitalismo, defendem os direitos dos excluídos etc.

Desde leão XIII, os ensinamentos sociais da igreja escrevem por assim dizer a história ocidental pelas avessas; indicam outro mundo necessário e possível para a convivência justa da humanidade. Não obstante, adotem posturas diferenciadas em relação ao regime econômico, aos regimes políticos e governos, esses ensinamentos primaram-se pela crítica que distingue os poderes da igreja e do estado, examina criteriosamente as conjunturas e busca uma sociedade justa e fraterna. Os excluídos das conjunturas econômica e política foram, de fato, ocupando um lugar sempre mais central nesse conjunto de ensinamento.

A denominada “fase revolucionária” do Papa Francisco, deve-se ao menos a dois aspectos importantes. O primeiro diz respeito ao próprio contexto histórico. Nos tempos pós-guerra fria ou pós-regime socialista os critérios de discernimentos oferecidos se voltam exclusivamente para o modelo vigente globalizado. Não há mais a critica anterior que colocava em foco os dois regimes. O capitalismo globalizado torna-se, de fato, o objeto central das críticas advindas dos discernimentos oferecidos pelos documentos. Esse foco adquiriu clareza sempre maior desde a Encíclica Centesimus annus (1991) de João Paulo II. Os ensinamentos sociais da igreja se tornaram cada vez mais desconfortáveis aos defensores do neoliberalismo e aos regimes políticos afinados a essa orientação econômica. O segundo aspecto revolucionário decorre desse primeiro. Com Francisco, a DSI deu um grande salto na direção da perspectiva global, seja na proposição de uma crítica radical ao capitalismo que impera com sua lógica exclusivista, seja na proposição de uma visão ecológica integradora que supere as posturas antropocêntricas e os isolamentos localizados. A vida planetária é adotada como um paradigma fundamental que direciona as diversas leituras feitas sobre a realidade e sobre a própria fé.

Alguns eixos do ensinamento franciscano expressam concretamente essa renovação: a crítica radical ao regime do lucro, à economia de exclusão, ao consumismo, ao principio neoliberal; a crítica ao modelo vigente que destrói o planeta, que induz ao consumismo e se sobrepõe de forma destrutiva às culturas locais; a indicação das causas estruturais da pobreza; a afirmação da urgência da justiça social e do bem comum, da superação dos mecanismos de exclusão, da centralidade ética e política dos pobres no exercício da justiça, do imperativo do diálogo entre as nações na busca de soluções globais para os problemas globais, do pensamento ecológico integral que tudo unifica na mesma causa da vida, do todo que se sobrepõe às partes, da unidade que supera os conflitos, da realidade que é superior ás ideias.

Eis a pauta da recepção negativa dos ensinamentos sociais de Francisco fora da igreja, mas também dentro do cristianismo e do catolicismo. Hoje essa postura recebe regularmente um carimbo chamado “comunismo”. A DSI entrou para o grupo dos comunistas, juntamente com os defensores do meio ambiente, da igualdade de gênero, dos direitos sociais das minorias e dos direitos humanos.
A Encíclica Fratelli tutti entrará nesse confronto planetário que pretende retomar valores e práticas políticas pré e antimodernos e expurgar o que propõe valores e práticas contrárias ou diferentes. Ademais, a defesa intransigente feita por Francisco às relações multilaterais entre as nações vem de encontro com os nacionalismos soberanistas e às políticas dos muros hoje em vigor em várias partes do planeta. De outubro passado (precisamente dia 04) até o presente, pode-se descrever os roteiros dessa recepção negativa que vai do estritamente econômico até as leituras conspiratórias.
Contudo, as recepções positivas também escrevem sua história. Desde o seu lançamento a Encíclica contou com o entusiasmo de católicos e não católicos, de crentes e não crentes. O enfoque inter-religioso da Encíclica lhe confere originalidade ímpar. Ao introduzir o texto Francisco apresenta sua inspiração:

se na redação da Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus “criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos” (5).

Colocar um personagem de confissão islâmica como inspiração para o conjunto do texto é algo inédito na historia do Magistério da Igreja. A abertura para o outro diferente como companheiro de caminhada na convivência humana que busca e constrói fraternidade se torna, portanto, normativa. Não se trata apenas de uma cena política, diplomática ou mesmo mística restrita às opções individuais do Papa naquela circunstância, mas, de uma postura que compõe o próprio ensinamento do Magistério papal sobre a fraternidade. A fraternidade se constrói com diálogos concretos e não com simples ideias ou com ideias simples; é preciso sair dos territórios identitários e construir agendas concretas e comuns. Na Laudato si’ Francisco pauta-se numa postura ecumênica chamando para a cena do ensino sobre a casa comum um Patriarca ortodoxo. Agora a contracena fica por conta de um islâmico, figura que encarna o antagonismo do ocidente de ontem e de hoje. O islâmico é o próximo, como foi próximo o samaritano detestado pelos judeus do e execrado pela ortodoxia judaica como impuro e pecador. Jesus coloca o samaritano em uma condição ética que desbanca as autoridades religiosas, sacerdotes e levitas. O mais distante, aquele a quem era negada a condição de dignidade é que se torna o próximo de quem estava fora do caminho.

E não será menos escandaloso para os vigilantes atuais da ortodoxia e os nacionalistas trancados em seus muros que Francisco se inspire em um árabe-islâmico para falar de fraternidade. A fraternidade se constrói de dentro para fora, da periferia para o centro, a partir do mais distante e do mais excluídos dos sistemas doutrinais e políticos fechados em se mesmos. Um árabe islâmico se encontra fora dos caminhos sociais, culturais, políticos e religiosos do ocidente e, sobretudo do ocidente cristão. Francisco dá logo de saída o tom da Encíclica, chamando para a cena central do texto o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb. O meu irmão islâmico! O distante é chamado para ser o próximo, o inimigo histórico do ocidente é chamado para o centro da mesa fraterna.

O ultimo capítulo retoma essa postura de empatia como caminho proposto para a construção da fraternidade universal. O diálogo inter-religioso é assumido, então, como tarefa religiosa, social e política; caminho indispensável para a construção da paz e da justiça na terra. A governança global da casa comum clamada na Laudato si’ como urgente está, agora, apresentada como princípio e como diretrizes para as ações políticas locais e mundiais. A conversão ecológica exige conversão política. Na atual fase da humanidade a opção pelo isolacionismo constitui um equivoco e uma mentira que beneficia somente àqueles que pretendem cominar a terra a seu bel prazer, na verdade a seu próprio benefício. As religiões podem contribuir com esse diálogo mundial como fonte de fraternidade que pretendem ser.

É nessa moldura de um diálogo radical apresentado como norma da construção da fraternidade que o presente número de Ciberteologia se insere. Pretende oferecer uma singela amostra sobre a “recepção inter-religiosa” da Encíclica. Não faltarão, por certo, textos sobre a natural recepção católica do texto. Como última Encíclica social, Fratelli tutti resistirá com seu frescor nos próximos anos e, oxalá, produza os frutos almejados de uma fraternidade universal concreta. O mundo atual clama por horizontes como esse agora desenhado por Francisco. O valor e o mandamento do amor ao próximo, constitutivos da fé cristã, adquirem na Encíclica vigor, atualidade e concreticidade. Ninguém poderá sair imune da leitura desse texto.
Enquanto o presente número era preparado fomos surpreendidos com a notícia do falecimento do eminente teólogo Carlos Josaphat com seus 99 anos. Sua longa trajetória na reflexão teológica o coloca entre aqueles que souberam fazer com maestria, criatividade e coragem o aggiornamento proposto pelo Vaticano II. Seguramente um pioneiro da teologia da libertação com sua obra Evangelho e revolução social nos idos de 1961. Alguns documentos publicados nesse número fazem memória a esse grande teólogo, incluindo uma reflexão de sua autoria. Em um dossiê sobre a Fratelli tutti não poderia ser mais adequada essa homenagem. O pensamento e as obras de Frei Carlos estão em plena sintonia com a busca da fraternidade universal, construção de todos os direitos para todos e todas.

Nesse espaço editorial, o foco de reflexão será no diálogo com interlocutores de fora do catolicismo. Os autores que se dedicaram a esse trabalho aceitaram de bom grado o desafio de recepcionar o texto da nova Encíclica de dentro de suas diferentes confissões e de tecerem com o mesmo um diálogo construtivo. De fora dos caminhos católicos cada qual se apresenta como interessado na mesma fraternidade, na mesma humanidade e na mesma casa comum. Não se trata de um exercício de construção de consensos sobre o conteúdo do texto na perspectiva inter-religiosa, mas precisamente de um olhar que revele as múltiplas possibilidades de interpretação do mesmo. Na chave do diálogo adotada pela Encíclica ficam dispensadas quaisquer posturas de integração que escondam as diferenças, mesmo que em nome de um desejado ecumenismo. Nesse horizonte ético e político, cada autor é muito bem-vindo com suas particularidades. A presença do outro que está fora dos caminhos católicos ensina a antes de tudo amar as diferenças como partes de um todo maior que é a humanidade e, no fim de tudo, o próprio Deus. Dentro dessas totalidades todas as diferenças são legítimas e sagradas e devem ser promovidas. Bem-vindas as diferentes leituras! Fratelli tutti!

Segundo a escatologia cristã, uma vez inaugurado o Reino, pelo dom da graça, pela difusão do Espírito Santo nos corações, a justiça e a paz, em todos os setores humanos, devem brotar para o mundo, por meio da vida e da atividade dos cristãos (Calos Josaphat).

 

João Décio Passos
Editor

 

EDIÇÕES ANTERIORES

Utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, de acordo com a nossa [Política de Privacidade], o que pode acarretar no tratamento de dados pessoais. Ao continuar navegando, você concorda com as condições.