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Editorial

Edição 08 - Ano II - Novembro/Dezembro 2006 - ISSN 1809-2888
As relações entre Teologia e Literatura
01/11/2006

Este oitavo número de Ciberteologia encerra o ano presenteando o ciberleitor com 5 artigos inéditos em torno do tema das relações entre Teologia e Literatura. Todos são de autoria de mestrandas(os) e doutorandas do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da Religião da PUC-SP. Os textos são fruto das discussões levadas a termo no Curso Temático Literatura e Religião (Núcleo: Religião e Campo Simbólico), coordenado pelo Prof. Dr. Afonso Maria Ligorio Soares.

O primeiro trabalho da seção de artigos é O Mal e o Poder: o Simbólico do Um Anel em O Senhor dos Anéis, de Diego Klautau. O autor trata da simbólica do Um Anel, ponto fundamental na famosa obra de J.R.R. Tolkien. A partir do diálogo com Santo Agostinho, através das categorias de iniância e livre-arbítrio, e das categorias de mito e símbolo em Paul Ricoeur, Klautau analisa o Um Anel segundo as três funções do símbolo (o cósmico, o onírico e o poético) e o compreende como desejo de poder sobre homens, terras e conhecimento.

O silêncio de Deus na Lenda do Grande Inquisidor, de Dostoievski, é um estudo de Jacqueline Sakamoto sobre as nuanças do forte libelo contra Deus em Os irmãos Karamazov e a incompreensibilidade de sua criação que ali está inserida. O tema central do romance é o parricídio ou a morte de todo e qualquer absoluto, evidenciando, no auge desse rompimento com o sobrenatural, a acusação feita a Deus na Lenda por este conferir aos seres humanos a liberdade, mesmo sabendo que a acabam trocando por garantias. Para Dostoievski, o silêncio divino não conforta a razão humana e sua Verdade não passa por nenhum constrangimento lógico, mas por um ato de Amor livre.

Por sua vez, Lílian Wurzba rastreia, em O mal no tríptico de Hieronymus Bosch: O carro de feno, alguns aspectos da reflexão desse artista acerca do mal no tríptico O carro de feno. Após breve descrição do tríptico, seguida de comentários de alguns cholars e da indicação de alguns símbolos do mal presentes na pintura, a autora tece suas considerações quanto ao conceito pessimista de Bosch sobre a natureza humana.

Ceci Baptista Mariani oferece-nos o texto Mística cristã à flor da pele, com o subtítulo Sermones extravagantes” ou “diálogo impertinente” entre um poeta contemporâneo e uma mística medieval. Ela propõe-se a discutir a experiência mística no quadro da tradição cristã, como experiência particular, localizada no tempo e no espaço, e que deve ser interpretada no âmbito de referências próprias do cristianismo. Por outro lado, a mesma reflexão quer ousar estabelecer também um diálogo, que pode parecer extravagante ou impertinente, entre uma experiência cristã-européia-medieval, e uma experiência sincrético-brasileira-contemporânea. Tudo isso para pensar a angústia amorosa da poesia contemporânea, que possibilita entender melhor a angústia amorosa do relato místico medieval e, para além deles, a angústia amorosa como referência para entender a experiência mística em geral.

Finalmente, em Andorinhas sem espelho: os Moradores de rua e a religiosidade, de A. Cristina Gomes Bueno, temos um estudo da religiosidade/subjetividade dessas pessoas na área central paulistana da Baixada do Glicério. Sua principal questão teórica é a ruptura precoce da relação mãe-bebê (Winnicott). Segundo Bueno, falhas profundas nessa fase da relação criança-mãe são determinantes na constituição da religiosidade/subjetividade desses indivíduos.

A seção de artigos traz ainda, como brinde ao leitor, um texto de Juan Luis Segundo para guardar e estudar – O Deus providente e o acaso – e que, certamente, representa uma das mais atualizadas revisões do dogma da providência divina, do ponto de vista da teologia católica.

Na seção de comunicação, mais três reflexões inéditas. Em A solução de Karl Popper para o problema da indução, Júlio Fontana comenta o primeiro capítulo da obra Conhecimento Objetivo, de Karl Popper, e procura mostrar porque o pensamento popperiano é ainda tão importante para a disciplina de Teoria do Conhecimento e para a filosofia em geral.

Cultura religiosa no contexto educacional: articulação de um conhecimento complexo é um trabalho de Adelino Francisco de Oliveira que discute o lugar da disciplina Cultura Religiosa no contexto da educação. Em diálogo com a perspectiva da complexidade (E. Morin), o autor almeja discernir a relevância dessa disciplina na formatação de uma nova concepção de conhecimento, diversa dos postulados que sustentam a racionalidade cartesiana.

É também de Júlio Fontana o texto Por que sou cristão: reflexões eclesiológicas. Partindo de uma alusão à palestra “Porque não sou cristão”, proferida pelo filósofo Bertrand Russell em 1927, Fontana ensaia uma revisão do conceito de eclesiologia e discute a plausibilidade de um cristianismo sem igreja – simpático ao menos para a teologia protestante, para a qual os organismos eclesiais empíricos tradicionalmente constituíram um tipo de solução emergencial. Nesse contexto, Fontana verifica como Russell explicou suas razões para não ser cristão e recoloca o tema para os dias de hoje.

Completam o número as já conhecidas seções Espiritualidade, Nas Fontes da Bíblia e Teologia Aberta, além de três Resenhas muito convidativas.

Queremos também chamar a atenção de nosso ciberleitor para a coluna Rumo à V Conferência, na qual Ciberteologia vem colocando à disposição uma série de artigos e informações a respeito da Vª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe a se realizar em 2007 em Aparecida-SP (Brasil). Já está ali disponível a “Síntese das Contribuições da Igreja no Brasil à Conferência de Aparecida”, preparada na 61ª Reunião Ordinária do Conselho Permanente da CNBB (24-27/10/2006).

Enfim, aí está entregue a oitava edição de Ciberteologia. Nossa Equipe continua à disposição de quem queira, de alguma forma, participar da produção e da divulgação do pensamento teológico. Pesquisadores e autores com escritos originais afins a nosso projeto editorial podem nos enviar seus trabalhos (artigos, notas, resenhas), desde que atendam nossas normas de publicação. Aproveitamos para agradecer aos articulistas desta edição por sua generosa colaboração.

Um Feliz Natal a todas e uma produtiva ciberleitura é o sincero desejo de toda a Equipe de Ciberteologia!