EDITORIAL

Ciberteologia fecha um ciclo de sua existência, completando dez anos e publicando centenas de Artigos, bem como várias modalidades de textos de comunicação científica e cultural. Nasceu inovando a linguagem acadêmica e oferecendo espaços para a reflexão teológica e para as humanidades. Concretizou de modo excelente seu ideal, ancorada no carisma comunicacional da família paulina, e sintonizada com as pautas acadêmicas nacionais e internacionais. Estabeleceu vínculos fecundos com a academia brasileira, abrindo espaço para professores e estudantes divulgarem suas ideias e projetos. Democratizou a palavra, pensou a fé, perseguiu a verdade. Ciberteologia testemunha também que é possível fazer muito com o pouco de que muitas vezes se dispõe e que a teologia é um bem público que transcende os territórios confessionais, convivendo e dialogando com outros saberes. No território virtual em que habita pôde agilizar a comunicação, estabelecer vínculos entre o próximo e o distante e acumular um significativo depósito de reflexões sempre disponível aos interessados. Esse acervo já compõe, de fato, uma biblioteca valiosa de obras originais, de ensaios e de resenhas que expressam os rumos do pensamento teológico, das ciências da religião e das humanidades de um modo geral em nosso contexto brasileiro.

Esse ciclo que se completa com o presente número sugere alguns balanços para dar, agora, um paço à frente e continuar sua marcha bem sintonizada com a história religiosa e cultural de nosso país e também de nosso planeta. Algumas coincidências tristes e felizes completam essa performance de mudança que ora se impõe como êxodo pascal. A primeira delas a passagem de seu editor, Afonso M. L. Soares, para o lado de lá para fazer o grande encontro definitivo. A sua partida inesperada nos colocou de frente com o mistério da morte/vida e nos lançou de novo para o horizonte que nos resta nessa hora: a esperança. Nosso companheiro – comeu do mesmo pão conosco – nos antecipou na comunhão final: vive o definitivo que apalpamos em nosso transitório. Não faz mais teologia. Não necessita mais das linguagens do logos e da ciber; sacia-se simplesmente do Teo. De nossa parte, sua memória só pode nos impulsionar a tocar em frente, sem medo e com a expectativa de agarrar a cada reflexão as migalhas da Verdade. Afonso Ligório foi promotor incansável de encontros interdisciplinares, interculturais e inter-religiosos em suas reflexões, em sua docência e em seu trabalho editorial. Viveu na transitividade, fazendo passagens, construindo pontes na circularidade permanente caminho-verdade-vida. Entendeu a mensagem de Guimarães Rosa que diz que o real não está nem na saída e nem na chegada, ele se dispõe na travessia. Concretizou sempre o que hoje ensina o Papa Francisco a respeito da Igreja: sempre em saída, com o pé na estrada que pode sujar, na direção das periferias humanas.

A reforma inadiável da Igreja convocada por Francisco sacramentaliza o momento de mudança de Ciber e a caminhada continua de seu editor primeiro. A saída para o diálogo permanente com o outro faz parte do próprio mistério fundante da fé cristã. O Espírito nos lança para sentir, captar e assimilar as sementes do Verbo que se escondem nas alteridades, ainda que sejam completamente estranhas aos nossos universos particulares e desafinadas aos nossos ouvidos pautados por melodias rotineiras.

No outubro passado mais um personagem partiu para não mais voltar, deixando sua memória estampada pelo mundo afora em suas ricas criações artísticas: o artista sacro Cláudio Pastro. Defini-lo seria difícil e arriscado. Na galeria dos artistas sacros nacionais mais marcantes, pode-se afirmar que Pastro está na sequência do grande Aleijadinho. Se o barroco mundial tem seus débitos com a originalidade artística do mineiro de Ouro Preto do setecentos, não menos o espírito bizantino com esse último, em nossos dias de modernidade artística. A obra original de Claudio Pastro espalhou-se por Igrejas e capelas brasileiras e por muitos trabalhos editoriais de variados formatos, rendeu a concepção geral da grande Basílica Nacional de Aparecida e chegou ao Vaticano com o Pantocrator Cristo evangelizador para o terceiro milênio (1998) e o monumento a N. S. Aparecida, inaugurado nesse ano de 2016. Beleza e contemplação são inseparáveis em seus trabalhos, como sempre professou. A Editora Paulinas contou com suas criações em muitos trabalhos ao longo dos anos e quer, agora, continuar divulgando tudo o que vier contribuir com o conhecimento de seu riquíssimo legado. Em cada obra de arte deixada por Pastro, continuamos aprendendo a transitar para o infinito, a seguir o caminho da beleza na direção do sentido, a lançarmo-nos para além da sensualidade visível no descanso da contemplação.

Ciberteologia avança em sua história banhada no batismo pascal que dá sentido à morte e incorpora em nossa existência a passagem permanente. O momento atual nos insere em várias passagens factuais e nos lança para o significado das mudanças que nos permitem ir além de nossas frágeis seguranças garantidas pelas instituições que nos amparam e pelas ideias bem arquitetadas que nos ancoram na verdade.

Com efeito, a reflexão da fé presta um serviço essencial para as reformas da Igreja, da sociedade e do planeta que hoje se encontram em curso e coloca a muitos em dores de parto. Se pudermos anunciar uma pauta para a próxima década para nosso Periódico será, por certo, esta: a busca do novo e a tarefa concreta de construí-lo. As crises diversas que nos tem atingido nessa segunda década do terceiro milênio são chamadas ao discernimento e à criatividade em nome da fé e da razão. A conjuntura mundial que hoje se desenha é, de fato, definida como uma aguda crise e clama por saídas urgentes em todos os âmbitos. A impotência das instituições políticas mundiais e locais aumenta, na medida em que aumenta o poder do mercado financeiro, mercado que se avoluma sobre si mesmo, gerando imensas riquezas que sequer revertem em produção econômica: produção-trabalho-salário-comida. Por outro lado, nunca estivemos tão inseridos na ordem mundial como indivíduos consumidores, desejosos do produto de melhor qualidade e fornecedor de maior bem-estar. Com efeito, essa ordem mundial é, não somente indiferente à vida, mas ameaçadora. O planeta clama por mudanças de rumo, por uma “conversão ecológica”, como alerta o Papa Francisco. O paradoxo se aprofunda. Estamos plenamente conectados mundialmente. Se por um lado não há mais fronteira entre o individuo e o mundo, por outro, a individualização acentua-se em plena rede de comunicação. Uma espécie de ego cogito digital afirma-se como modo de existir e configura a multidão solitária nas ruas, nos transportes coletivos e até nos trabalhos, assim como o isolamento dentro das famílias.

A nova fase de Ciberteologia tem diante de si o desafio e o método do discernimento dos sinais dos tempos, como bradava o Vaticano II há cinquenta anos. Nunca foi tão urgente aprender de novo esse modo de ver, de criticar e de atuar na realidade presente. A indiferença e o ceticismo em relação à nova terra não podem ditar os rumos da vida planetária, nacional e individual. As pessoas de fé e as mentes críticas e criativas convergem seus esforços nessa busca do novo, ainda que sob a tirania de um velho que se espalha pelo planeta em formas institucionalizadas de ideias e de poder.

Mais uma coincidência desafia e golpeia nossa consciência ética e política nessa época de passagem. O Brasil vive um momento dramático de mudança no seu quadro político. Esse momento revela, por certo, a impotência das instituições políticas e jurídicas nas suas funções de garantir a regra democrática e de agir soberanamente como defensoras da verdade, da justiça e da ética. A crença na democracia consolidada que nos alentou desde o fim dos anos da tirania, mostra, agora, seus limites e desafia a lucidez dos amantes da verdade e das instituições democráticas. A consciência crítica e a esperança nunca foram tão urgentes para nos orientarem nesse momento de liquidez político-institucional. Ciberteologia entrará vigilante nessa era e deverá cumprir seu papel de observatório critico e de anunciadora dos valores que permitem esperar para além das falsas ilusões.

O presente número de Ciberteologia pretende, sobretudo, pensar a si mesma e, no limite, pensar sobre o significado de sua missão, volvendo, para tanto, seu olhar para o passado (sobre seu Editor progenitor e sobre o percurso feito até o momento). O número único do ano corrente recolhe reflexões que compõem três momentos centrais na seção de Artigos e um núcleo de comunicações variadas. Os textos estão dispostos em três momentos. O primeiro gravita em torno da homenagem a Afonso Ligório, onde se expõem aspectos de seu pensamento plural e sobre a pluralidade e foca a questão da negritude que lhe foi sempre cara. O segundo momento faz memória a Cláudio Pastro, ao retomar a temática do espaço litúrgico e recordar sua própria biografia. O terceiro, a seção notas, apresenta dados sobre a trajetória de Ciber: balanço de seus Artigos nesses dez anos. Apresenta também uma homenagem feita por Andrés Torres Queiruga a seu amigo de “idioma e de esperanças”. O Artigo sobre a morte abre as seções como uma epígrafe de todo o conjunto e o Artigo sobre a ausência de Deus como via de busca espiritual oferece uma reflexão que nos posiciona na travessia permanente da busca para o encontro com o Sentido.

Nesse ano que finda o presente número se faz, portanto, rito de passagem e, por essa razão, toma fôlego para avançar nos próximos anos cumprindo sua missão de comunicação científica e cultural. Também, nesse ano de 2016 um acontecimento de significado pascal marcou a Igreja no sentido mais genuíno da superação do velho pelo novo: a publicação da Exortação Pós-sinodal Amoris Laetitia pelo Papa Francisco. Por certo, a história futura se encarregará de declarar o real peso moral desse Documento que, de imediato, desafia os pastores e as pastorais a uma verdadeira conversão de suas mentalidades e práticas referentes à acolhida e integração dos casais de segunda união nas comunidades. A misericórdia é o imperativo cristão que antecede e sucede toda norma moral na vida da Igreja, ensina Francisco no conjunto e nas partes dos nove capítulos que compõem a Exortação. A seção Destaque foca essa temática urgente trazendo à luz dois textos de grande afinidade, embora compostos em temporalidades e contextos distintos e distantes. O primeiro resgata uma reflexão feita por Afonso Ligório em 2008 em Ciberteologia sobre Comunhão dos divorciados na igreja (Ciberteologia 17, 2008). Na ocasião, ao colocar a questão disputada para a Igreja, auspiciava que “cedo ou tarde, a Igreja Católica chegará a uma posição oficial mais clara e decidida as esse respeito...”. Essa posição mais clara e decidida está hoje posta na referida Exortação pelo Papa da misericórdia. Estamos diante de uma posição oficial claramente demarcada sobre a questão que, embora persista polêmica, pode agora encontrar novos rumos nas reflexões e nas práticas eclesiais. O segundo texto da seção pretende expor uma reflexão feita pelo Editor sobre a Exortação em um opúsculo que acaba de ser lançado por Paulinas no corrente ano (Cf. A alegria do Amor; das sementes aos frutos).

Acreditamos com Francisco que o amor é o caminho de diálogo e de vida para os casais e para a o relacionamento da Igreja com as famílias “regulares” e “irregulares”. Por essa ponte todos atravessamos todos, superando todas as formas de exclusão, ainda que moralmente justificadas por regras objetivas e seguras. Com esses dois textos o presente número de Ciber que fazer ecoar os ensinamentos de Francisco para a Igreja e para o mundo, particularmente para o mundo das famílias que compõem o núcleo fundamental da vida humana. Na Amoris laetitia aprendemos que da crise pode nascer o diálogo, da postura sem saída podem-se achar saídas. Por fim, agradecemos a todos os que ofereceram suas reflexões para esse número axial de Ciberteologia. Aqueles que se debruçaram sobre a história de nosso Periódico no intuito de contribuir com a compreensão seus trajetos realizados até o momento merecem nossa honra e nossa especial gratidão. No ano que virá nos encontraremos em uma próxima página de sua história. As palavras animadoras de Francisco também a nós se dirigem nessa hora de transição: O que nos é prometido é sempre mais. Não percamos a esperança por causa de nossos limites, mas também não renunciemos à procura da plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida (Amoris laetitia, 325).


Dr. João Décio Passos - Editor

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