EDITORIAL

Santos nascem prontos? Muitos relatos populares sobre a vida dos santos afirmam que sim. Descrevem a vida de alguns personagens como dotada de dons extraordinários desde o nascimento, como pessoas escolhidas por Deus desde sempre para serem uma espécie de humanos superiores aos demais. Os santos seriam, no caso, uma espécie de exceção na natureza humana, pois já teriam nascidos dotados de capacidades incomuns, como que predestinados à santidade. A maioria das pessoas estaria, contudo, localizada em um território profano, de decadência, de pecados e de limitações que não permitiriam chegar à santidade. O imaginário popular sobre a santidade opera desse modo elitista, criando uma esfera superior na qual habitam aqueles que nasceram escolhidos por Deus para serem perfeitos. No fundo, preexiste a mentalidade ocidental cristã com o esquema dualista que separa os bons dos maus, os sagrados dos profanos, os santos dos pecadores. Numa perspectiva sociológica haveria de se pensar em uma sociedade estratificada em classes superiores e inferiores (nobres e plebeus, na idade média, senhores e escravos no Brasil colônia, ricos e pobres em nossos dias) como base que sustenta essa separação entre os seres superiores e os inferiores, entre os poderosos e os sem poder, os sábios e os ignorantes etc. Àqueles que estão na faixa inferior resta pedir socorro aos que estão na faixa superior, de onde podem vir todas as soluções para a vida dos pequenos e sofredores. Com as devidas ressalvas de uma autonomia relativa do religioso em relação ao social, é preciso afirmar que, de fato, o imaginário da santidade e dos santos em muitas situações expressa simbólica e politicamente essa condição de estratificação social. Nessa mesma chave de leitura pode-se constatar uma relação visível entre o santo e os pobres: o santo é sempre aquele que pode oferecer alguma solução, saída ou significado para as maiores urgências dos que não podem contar com suas próprias forças. E quando obtém força ou solução para as urgências parece haver sempre a percepção de uma nova necessidade que brota da alma insatisfeita e busca no santo a proteção para o desamparo. Somos todos precários! Os ricos também têm seus santos! 

Na verdade, o processo de construção dos heróis segue um roteiro regular: o santo ou o herói por alguma razão assim feito na vida adulta é também santificado na fase infantil enquanto criança, bebê e até mesmo na vida uterina. O autêntico herói já possui essa condição antes de vir ao mundo. Assim eram descritos muitos heróis do mundo antigo, como nos casos de Ulisses e de Alexandre Magno. A bíblia hebraica usa também esse expediente para falar de alguns escolhidos por Deus, como no caso das concepções de Isaac filho de Sara (Gn 18,1-15) e de Samuel filho de Ana (1 Sm 1,12-28), do profeta Jeremias (Jr 1,4-5). A construção dos personagens segue a direção inversa do desenvolvimento biológico: vai da vida adulta à vida infantil, o santo adulto se torna santo ainda enquanto criança. A composição das narrativas da infância de Jesus na formação dos Evangelhos de Mateus e Lucas seguiu essa mesma lógica: os comportamentos, os fatos e as características envolvendo o Jesus de Nazaré adulto são retrojetados no menino Jesus; as características messiânicas (cristológicas) de Jesus já estão presentes no menino.


Não basta ser santo a partir de uma fase da vida, é preciso ser santo desde sempre. As hagiografias de muitos santos seguem esse mesmo roteiro. Há um processo de ontologização da santidade, como  uma condição necessária para ser santo. Nas devoções populares é possível também encontrar essa mesma operação. Assim teriam existido as santas crianças: Ritinha (Santa Rita), Terezinha (Santa Terezinha), Toninho (Santo Antônio) etc. A imagem predominante é a de que a pessoa santa, nasce, cresce, vive e morre com seus dons excepcionais de santidade. Nos dias atuais Nhá Chica e Padre Vitor, negros mineiros recentemente beatificados, já começam a ser descritos como dotados de santidade desde criança. Não será diferente com muitos santos que serão construídos daqui pra frente. A regra parece ser: o autêntico santo é santo desde sempre e não se faz depois de velho! Por certo, esse esquema mais mitológico e pagão do que cristão, compõe o arquétipo da construção do santo presente na alma humana. Os mitos antigos e modernos seguem esse roteiro de encantamento biográfico dos personagens. Ao longo prazo, todos os santos e heróis recebem essa carga mitificadora que mistura realidade e fantasia. No caso dos santos católicos, por mais realista que seja a vida de um cristão declarado santo, ele termina adquirindo uma aura de superioridade humana e passa a ser descrito como santo desde sempre. O santo é sinônimo de perfeição do nascer ao morrer. Este é o santo concluído.


Um outro roteiro de encantamento compõe regularmente a vida dos santos: a capacidade extraordinária. Sem dons extraordinários expressos na superioridade moral, na sabedoria e na capacidade de fazer milagres fazem parte das narrativas que constroem os santos. No imaginário popular constitui a exigência mais imediata da santidade e nos processos de canonização católicos o critério definitivo para ser declarado santo. Sem essas capacidades extraordinárias o santo estaria nivelado ao mortal comum, não revelaria sua excepcionalidade, eleição divina e mediação do poder de Deus. Não basta o candidato a santo fazer milagres atuais, como prova de sua inequívoca presença junto de Deus como nosso intercessor; é preciso ter feito milagres ou demonstrar possuir dons especiais em vida. Padre Cícero oferece um comportamento emblemático: faz milagres hoje porque sempre o fez enquanto estava vivo. As narrativas populares sobre o santo sertanejo são ricas na descrição dos mais variados milagres.

Na verdade, para a mentalidade popular, santo que não faz milagre não tem razão de existir. O santo tem uma função importante como protetor, intercessor e auxílio nos problemas diários das pessoas. Santos de tipo ascético ou intelectual não caem nas graças do povo se não avançar para o território prático da ajuda nas dores diárias da vida. A teologia popular da santidade carrega o germe da teologia da prosperidade pentecostal. Ela negocia com o santo, fazendo alianças e promessas de cunho moral e material. O santo é o igual-diferente, o igual-superior capaz de ajudar nos momentos de aflição e de necessidade, sobretudo necessidades naturais (seca, tempestade), existencial (doenças) ou material (de natureza econômica).


O catolicismo assimilou a psicologia pagã de construção de heróis na construção de seus santos e acumulou no decorrer da história um acervo com um número incontável de santos oficiais e populares. Na esfera do catolicismo popular o santo foi sempre central na vida religiosa do povo; posicionados entre Deus e os homens exerciam – e exercem – a função de mediadores permanentes, competentes e especializados. Cada qual se dedica a funções específicas: cuidam da natureza (Santa Bárbara), dos rebanhos (São Sebastião), das doenças de pele (São Lázaro), da visão (Santa Luzia), das cobras venenosas (São Bento), dos alcoólicos (Santo Onofre), das cozinheiras (São Benedito), das prostitutas (Santa Madalena) e assim por diante. É verdade que alguns santos exercem a função de clínicos gerais: São Bom Jesus, Divino Pai Eterno e Nossa Senhora de um modo geral. Os grandes Santuários costumam abrigar os grandes santos, os santos fortes capazes de solucionar todos os problemas.


O mundo pentecostal universalizou e concentrou todas essas funções plurais em Jesus Cristo. Ele é o único mediador e intercessor capaz de resolver todos os nossos problemas e tudo aquilo que se dividia entre os santos no âmbito do catolicismo popular. Jesus agrega em sua pessoa toda a pluralidade dos mediadores santos populares. Desaparecem os santos e permanecem as mesmas necessidades e dores do povo, o mesmo povo, as mesmas súplicas e as mesmas estratégias (as alianças e promessas) que possibilitam o contato e a resolução do problema em questão. O santo, por sua vez, pode ser cada fiel, de modo particular o fiel que comprova com seus testemunhos ser agraciado por Deus com algum benefício. A pessoa “ungida”, como costumam repetir, é a pessoa escolhida e agraciada por Deus. E cada qual se mostra santo na medida em que demonstra possuir os dons do Espírito: o dom das línguas, das curas, do exorcismo etc. O ciclo de construção dos santos católicos populares se concretiza, agora, na vida de cada fiel que uma vez ungido pode contribuir com a solução dos problemas de cada um dos membros da comunidade, mediante orações, imposições de mãos, unções etc. A santidade sobrenatural presentificada de algum modo na imagem de um determinado santo é, agora, concretizada no fiel presente que é capaz de intercessão, de modo particular na pessoa do pastor. Estamos diante de uma tradução protestante do catolicismo popular. O fato é que o santo permanece, assim como a aliança e a solução das muitas dores da vida.


Entre o pobre mortal e Deus haverá sempre um mediador munido de capacidades extraordinárias que contribui com as soluções dos problemas da vida. A fragilidade do homem perante a potência infinita de Deus recorre a mediadores eficientes. Todos precisamos de socorros em nossas necessidades. Eis o ponto de partida de construção de todos os tipos de santo, desde os politeísmos antigos. E a construção dos santos acontece, ainda que por diferentes caminhos, a depender das cosmovisões religiosas subjacentes. Em todos os casos, sem o reconhecimento popular não existirá um autêntico santo: um mediador empoderado entre Deus e os homens.


Não será muito relembrar que os santos são construídos à imagem das necessidades e desejos humanos, em função das dores, dos medos e das esperanças que tomam os corpos e as mentes das pessoas em cada tempo e lugar. Os santos nos representam naquilo que somos e queremos ser. Santo estranho ao que somos não teria, na verdade, objeto de nossa devoção. Isso vale para as devoções individuais e coletivas. O santos concretizam em suas vidas, figuras e poderes aquilo que são as pessoas, as culturas e as sociedades. São Benedito e Santa Efigênia representam os negros por serem negros. São Francisco das Chagas representa o povo sofredor do sertão nordestino exatamente por ser sofredor. São Luiz representa a política francesa do século XIII por ser rei. Nhá Chica representa a mulher benzedeira do catolicismo popular mineiro. Para cada povo, para cada necessidade e pra cada desejo um santo. Os santos são construídos com a matéria prima das dores e esperanças humanas; são a força dos fracos e a solução das causas sem solução. Mas são também, a ternura dos ternos e a doçura dos dóceis, a realização dos sonhos e o ideal de vida plena.


No âmbito do catolicismo, o percurso de construção dos santos pode variar não somente em função do tempo e do espaço, donde vale a máxima, “um santo para cada povo”, mas também em função da biografia (histórica e mítica) do personagem escolhido, da estética que ajuda a construir a imagem santa, da capacidade popular em divulgar a fama do po-der extraordinário e da apropriação do mesmo por parte dos poderes religiosos oficiais. O percurso regular de construção vai do popular ao oficial: primeiro o reconhecimento popular, a devoção, as intercessões, depois o reconhecimento oficial da Igreja. Os santos que nascem desse percurso são os mais eficazes e viáveis do ponto de vista do consenso devocional; são os santos fortes. O caminho inverso também pode ocorrer quando a Igreja propõe um santo por razões que julga relevante. Imaginemos o caso de alguns Papas canonizados nesse século ou de santos intelectuais como Edith Stein (Santa Tereza Benedita da Cruz) ou o Cardeal Newman recentemente canonizado. São santos sem apelos populares e que permanecerão no recinto dos ciclos intelectualizados ou clericalizados da Igreja. Outros santos sobrevivem no âmbito popular com força e graça, sem necessitar dos processos oficiais de reconhecimento da Igreja. No Brasil, o caso emblemático é de Padre Cícero, indubitavelmente santo para os devotos oriundos da região nordeste do Brasil.


Santo forte tem que ter, ao mesmo tempo, cheiro de povo e proximidade com Deus. Essa é mais uma regra da construção popular da santidade. Santo forte é aquele semelhante aos humildes humanos, porém investido de um poder que o distingue radicalmente dos mesmos. Esse é o critério de canonização popular, anterior às virtudes cristãs que o possam tornar modelo de vida para os fieis. O ciclo de canonização popular ou oficial constrói o santo como humano extraordinário, cuja prova final é a capacidade de operar milagres, ou seja, de suspender as leis regulares da natureza. O milagre certificado pelo povo nos testemunhos narrados e repetidos ou pela Igreja com seus peritos oficiais oferece a prova certa da santidade. O ciclo de construção do herói foi bem descrito por Joseph Campbell como saída, crise, superação e retorno. Esse ciclo traça o caminho dos santos, seja na construção de sua biografia, seja na construção de seu ciclo completo que se conclui com a morte gloriosa para junto de Deus como vitória final. O santo é o humano transformado que agora, quando invocado, volta revestido de poder, capaz de vencer os males que afligem a vida humana. Os devotos percorrem o mesmo caminho em um processo de identificação com o santo invocado (imitatio dei) na medida em que peregrina até o santuário e retorno à casa, depois das dificuldade vencidas. A cada peregrinação o fiel se renova e vence, assim como o santo é vencedor. Os ciclos incessantes das romarias até o santuário renovam a vida do fiel a cada peregrinação. O santo é, desse modo, elevado à condição superior aos mortais comuns e desde essa condição exerce seu poder de ajudar os fieis devotos nos momentos difíceis. A construção estética faz parte da construção dos relatos sobre a vida e o poder dos santos. O próprio povo se encarrega de ir construindo os relatos com suas imagens, os artistas populares criam imagens que vão sendo repetidas verbal e iconograficamente. Essa fase de pluralidade narrativa vai sendo singularizada, na medida em que o santo se torna mais unânime, seja do ponto de vista sobre um consenso mítico (os poderes especiais), biográfico (seu itinerário heroico) e iconográfico (imagem oficial). Os processos de canonização exercem precisamente as funções de purificação, unificação e padronização das narrativas e das próprias imagens dos santos que circulavam, anteriormente, bem ao gosto e ritmo da diversidade popular.


Quem pode ser santo? O processo de construção de um santo pressupõe em alguma medida essa pergunta fundamental. Ser santo é pra quem pode e não pra quem quer. Os pré requesitos da santidade estão postos nos âmbitos popular e oficial. O ponto comum entre os dois parece ser o do poder do personagem: santo autêntico possui a prova inconteste do poder de operar feitos extraordinários em nome de Deus. O milagre é o critério definitivo de certificação, aprovação e oficialização de um santo. Crivado por esse critério fundamental, um santo torna-se um humano transfigurado, podendo, inclusive, carregar certas ambiguidades em seu percurso existencial: Santa Joana d’Arc foi uma guerreira condenada e queimada pela inquisição, Santo Tomás de Aquino foi condenado como herege depois de sua morte. Os santos populares são também reabilitados sem maiores problemas: Santa Madalena foi considerada santa pelo cristianismo antigo como ex prostituta, São Longuinho foi o soldado romano que espetou o Crucificado com sua lança, o sentenciado à forca por roubo, Chaguinha, goza do apreço de muitos paulistanos da capital no bairro da liberdade. Essa lista poderia ser ampliada com outros exemplos. A reabilitação oficial ou popular pode fazer o santo, transformar o pecador em santo, na medida em que destaca virtudes escondidas e esconde os defeitos ou demonstra uma conversão sincera do personagem. Os pecadores podem então ser santos. Figuras ambíguas podem ser declaradas santas: guerreiros que mataram, como São Luis da França, Papas que perseguiram inocentes, religiosos e religiosas histéricos, missionários que legitimaram a morte de nativos em nome da fé. O caso mais emblemático que permanece na zona de ambiguidade é o de Pe Cícero, suspenso de ordem e, até que provem o contrário, excomungado pela Igreja. E não poderia, na verdade, causar tanta admiração os processos de reabilitação das ambiguidades de um sujeito candidato e efetivamente feito santo. Os processos de canonização podem ser precedidos por processos de reabilitação do potencial santo. Não há razão para se escandalizar. Quem primeiro o fez foi o próprio Jesus ao redimir o bom ladrão agonizando ao seu lado: ainda hoje estarás comigo no paraíso! Na tradição católica secular teríamos o “primeiro canonizado”, o ladrão São
Dimas. Em seguida o caçador de cristãos, Saulo de Tarso, torna-se o grande apóstolo e o grande santo que ajuda o estruturar as bases do cristianismo.


A santidade triunfa sobre a ambiguidade, transforma a fraqueza em força, o simples em extraordinário, o pequeno em grande. Esse processo de transfiguração esconde curiosidades psicossociais. Sociedades racistas criam santos negros, escravagistas criam santos escravos, machistas elevam mulheres ao poder sagrado, moralistas canonizam pecadores, clericalistas transformam freiras simples em santas doutoras. Muitos santos parecem compensar em sua grandeza reconhecida socialmente, os preconceitos, intolerâncias e exclusões sociais; operam uma espécie de solução simbólica do remorso coletivo.


Mas é impossível evitar uma ruptura nesses parâmetros de construção da santidade na conjuntura eclesial atual, tendo em vista os ensinamentos do Papa Francisco, como sempre carregados de germes renovadores; Para além dessas práticas culturais e religiosas da idade das civilizações, das tradições religiosas e do catolicismo, a tradição cristã tem uma teologia da santidade que oferece outras referências para pensar a questão. Na Exortação Gaudete et exsultate Francisco lançou luzes sobre o significado cristão da santidade, ao destacar que se trata de uma postura vivenciada no cotidiano pela pessoa comum, sem grande alarde e sem milagres, na luta diária e nos momentos de crise. A santidade desveste-se do aspecto mágico e encantado que separa o santo do homem comum e reveste-se de outra extraordinariedade que transfigura a vida e o cotidiano do santo a partir de dentro, ou seja, a partir do significado e da direção dos atos que a pessoa pratica na rotina e no anonimato da vida. Essa concepção de santidade cria outro tipo de santo, cuja imensa maioria é sequer reconhecida como santo pelo povo e pela própria oficialidade da Igreja que permanece exigindo sempre a prova do milagre em seus processos de canonização. São os santos anônimos do povo simples que sabem amar e lutam para viver o amor nas situações mais corriqueiras ou mais difíceis. É bem verdade que para a religiosidade popular em geral essa concepção de santidade pode não agradar ou mesmo romper com a concepção cristalizada do santo separado e acima do mortal comum. O Papa Francisco reafirma o chamado universal à santidade e insere essa virtude comum do cristão em outra esfera que supera o mágico pelo místico, o poder pelo serviço, a extraordinário pela rotina. O recado é que o chamado à santidade é para todos e que, portanto, todos podem ser santos.


Nesse dossiê, Ciberteologia explana a temática da santidade, focando especialmente no processo de construção do santo do ponto de vista sócio-religioso. Não se trata de um estudo teórico sobre a questão, mas de um mapeamento de casos concretos de vida de santos, oficiais ou não, porém todos reais que ocupam, por conseguinte, um lugar reconhecido entre os fieis e devotos; são personagens que passaram ou passam por processo de construção de santidade, mediante a devoção do povo e/ou processos canônicos. Os santos escolhidos variam no tempo e no espaço e coincidem numa coisa fundamental: necessitam de construção para que possam vingar como tal. Como tudo o que tem vida social, os santos são socialmente construídos. Na seção Artigos segue uma fila de santos já feitos ou em construção. Ali se destacam santos em processo de canonização, como o caso de Dom Helder Camara e santos bem desconhecidos, como Santa Brígida da Irlanda. A conhecida Santa Madalena é retomada como um caso emblemático de construção popular da santidade já na antiguidade. A seção Documentos complementa o dossiê com duas peças bem atuais, o Discurso do Papa Francisco aos membros da Congregação para a causa dos Santos e um rol completo dos santos, beatos e servos de Deus do Brasil, incluindo na lista aqueles que se encontram em processo de beatificação. O Papa Francisco definiu os santos como “pessoas que... experimentaram a fadiga diária da existência com os seus sucessos e fracassos, encontrando no Senhor a força para se levantar sempre e continuar o caminho” (Angelus, 1 de novembro de 2019).


A tradição cristã e, de modo particular, a católica constrói seus santos desde os seus primórdios. As formas de construção variam no tempo e no espaço. Os santos continuam somando o rol dos vencedores da vida. Todos os cristãos estão em travessia para a vida plena que há de vir. Os que venceram as dificuldades da vida e chegaram com êxito no último final nos aguardam como heróis e modelos, como mediadores e, até mesmo, libertadores. A ladainha cresce e o povo pede ajuda!

Rogai por nós!
João Décio Passos - Editor

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