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Editorial

Edição 10 - Ano III - Março/Abril 2007 - ISSN 1809-2888
Cristologia contemporânea
01/03/2007

A 10ª edição de Ciberteologia é dedicada à cristologia. A maioria dos Artigos selecionados visam a colocar o leitor diante dos questionamentos mais atuais em torno do tema. Em A encarnação e o conceito de Deus, Juan Luis Segundo parte da constatação de que o cristianismo pagou um preço muito alto por não compreender as decisões dogmáticas do Concílio de Calcedônia. A Igreja deveria ter reformulado o dogma ali definido, com novas categorias mais aptas de pensamento, de tal modo que sua verdade resplandecesse melhor e de modo mais pleno. O autor oferece, então, sugestões que extrapolam categorias, a partir de dados científicos (verificados) e dados bíblicos ou teológicos que conduzam a essa reformulação.

Giuseppe Barbaglio afirma, em Jesus: um curandeiro em um mundo de curandeiros – Parte I, que nenhum outro capítulo da vida de Jesus de Nazaré apresenta tanta riqueza e variedade de testemunhos como os que nos falam de sua ação taumatúrgica. Várias fontes cristãs o atestam: Marcos, a fonte Q, a tradição própria de Mateus, a fonte L — utilizada por Lucas, a coleção dos sinais aproveitada por João, até mesmo um dito do Evangelho de Tomé Apócrifo. O autor as analisa e coteja com rigor e clareza, procurando levantar elementos que ajudem a saber como o próprio Jesus entendeu suas curas e seus exorcismos.

Em Jesus de Nazaré e a fé em Deus, Manuel Fraijó diz que Jesus de Nazaré é uma cifra de Deus, de seu Reino, e de muitas outras causas profundamente humanas. As cifras nunca são infalíveis. Por isso Jesus não prova nem garante nada no referente a Deus. Deixa, porém, aberta uma brecha à esperança e, talvez, à aposta. Por sorte, a causa de Jesus parece continuar alentando muitas pessoas do século XXI. Seu potencial de cifra parece indubitável.

Para Pierre Debergé, em Jesus Cristo ou o poder salvo, a cruz está no centro do Evangelho. Profundamente ligada à missão e ao ensinamento de Jesus, ela é, também, a consequência da incompreensão e da oposição daqueles cuja maneira de exercer o poder chocava-se com sua mensagem. Ela se reveste de uma importância toda especial no evangelho de Marcos, no qual é o lugar da manifestação da verdadeira identidade de Jesus e aparece, também, como uma dimensão essencial da vida do discípulo. Para ilustrar esse destino comum de Jesus e de seus discípulos, Marcos serve-se de uma imagem: o caminho. Esse caminho desemboca na cruz. A questão do poder não lhe é estranha.

Finalmente, no artigo inédito Do cinzento ao branco: o processo de individuação a partir de Gandalf em “O senhor dos Anéis”, Diego Klautau analisa o processo de individuação, conforme exposto por Marie Louise von Franz em O homem e seus símbolos, coletânea de textos de psicologia analítica, e pelo próprio Carl Jung em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, comparando-o com o desenvolvimento de Gandalf, mago protagonista de O senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. A partir das categorias de crescimento psíquico, inconsciente, Sombra e Si Mesmo, Klautau entende como a passagem de Gandalf de o Cinza para o Branco estabelece sua individuação.

Na seção Comunicação, o primeiro comentário é de dom Marcelo Barros, que nos oferece algumas Questões sobre o 2o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, recentemente realizado em Nairóbi-Quênia, poucos dias antes do 7o Fórum Social Mundial. Já o artigo de Antonio Manzatto – O teólogo, responsável pelo mundo – procura responder à pergunta “que esperar do estudo da teologia na área do conhecimento?” e leva-nos a pensar sobre a questão pragmática do “para que serve a teologia?” Também incluímos na seção um texto de Raymond E. Brown sobre A concepção virginal nas narrativas da infância de Jesus – I, em que o famoso exegeta enfrenta a seguinte (e delicada) questão: historicamente, Jesus foi concebido sem um pai humano? Finalmente, o articulista Julio Fontana, sempre provocativo, opina: Por que o método histórico-crítico não dá certo no Brasil?, e procura “quebrar” o que ele chama de tabus em torno da interpretação bíblica para depois examinar a dificuldade na aplicação do método histórico-crítico no âmbito brasileiro.

Completam o número as já conhecidas seções Artigos, Comunicação, além das Resenhas. Chamamos sua atenção para o lançamento, em breve, por Paulinas Editora, do livro O futuro da cristologia, de Roger Haight. Também recomendamos ao leitor uma retomada dos excelentes Repensar a Cristologia, de A. Torres Queiruga, e O Cristo, de Adolphe Gesché, além do magistral A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré, de J. L. Segundo. A seção comunicação continuará a publicar alguns excertos da confissão de fé de Karl Rahner, figura ímpar da teologia católica do século XX.

Enfim, renovamos o convite para que nosso ciberleitor visite a coluna Rumo à Conferência, na qual Ciberteologia coloca à disposição uma série de artigos e informações a respeito da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, a realizar-se, em maio, em Aparecida-SP (Brasil). Novos textos já estão disponíveis.

Está entregue a décima edição de Ciberteologia. Continuamos à disposição de quem quiser, de alguma forma, participar da produção e da divulgação do pensamento teológico latino-americano. Pesquisadores e autores com escritos originais afins com o nosso projeto editorial podem enviar-nos seus trabalhos (artigos, comunicação, resenhas), desde que atendam a nossas normas de publicação. Aproveitamos para agradecer aos articulistas deste número por sua generosa colaboração.

Uma produtiva ciberleitura em nossa companhia é o desejo de toda a Equipe de Ciberteologia!

  • Artigos
    01/04/2007

    Este artigo analisa o processo de individuação, conforme exposto por Marie Louise von Franz, em O homem e seus símbolos, coletânea de textos de psicologia analítica, e pelo próprio Carl Jung em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, e o desenvolvimento de Gandalf, mago protagonista de O senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien

    01/04/2007

    O artigo parte da constatação de que o cristianismo pagou um preço muito alto por não compreender as decisões dogmáticas do Concílio de Calcedônia. A Igreja deveria ter reformulado o dogma ali definido, com novas categorias mais aptas de pensamento, de tal modo que sua verdade resplandecesse melhor e de modo mais pleno.

    01/04/2007

    O artigo mostra que nenhum outro capítulo da vida de Jesus de Nazaré apresenta tanta riqueza e variedade de testemunhos como os que nos falam de sua ação taumatúrgica. Várias fontes cristãs o atestam: Marcos; a fonte Q; a tradição própria de Mateus; a fonte L utilizada por Lucas; a coleção dos sinais aproveitada por João; até mesmo um dito do Evangelho de Tomé Apócrifo.

    01/04/2007

    Para o autor deste artigo, Jesus de Nazaré é uma cifra de Deus, de seu reino, e de muitas outras causas profundamente humanas. As cifras nunca são infalíveis.

    01/04/2007

    A cruz está no centro do Evangelho. Profundamente ligada à missão e ao ensinamento de Jesus, ela é também a consequência da incompreensão e da oposição daqueles cuja maneira de exercer o poder chocava-se com sua mensagem.

  • Resenha
    01/04/2007

    STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo, Paulinas, 2006. 263 pp.

  • Notas
    01/04/2007

    Hoje em dia, fala-se muito em mística. O que é mística? E como entendê-la na cultura atual de pluralidade religiosa e teológica e do diálogo inter-religioso? “[…] as experiências místicas das diferentes tradições religiosas continuam sendo experiências de comunhão com Deus e de conhecimento de Deus por experimentação.”

    01/04/2007

    Teologia Aberta oferecerá, ao longo das próximas semanas, excertos da confissão de fé de Karl Rahner, assim como foi registrada na recente obra de Herbert Vorgrimler: Karl Rahner – experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento.

    01/04/2007

    Teologia Aberta conclui aqui os excertos da confissão de fé de Karl Rahner, assim como foi registrada na recente obra de Herbert Vorgrimler: Karl Rahner – experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento.

    01/04/2007

    O 2o Fórum Mundial de Teologia e Libertação, ocorrido em Nairóbi, poucos dias antes do 7o Fórum Social Mundial, parece ter interessado mais a militantes e participantes de movimentos sociais e a organizações de solidariedade do que apenas ou propriamente a teólogos(as) profissionais...

    01/04/2007

    A pergunta sobre “o que esperar do estudo da teologia na área do conhecimento” leva-nos a pensar sobre a questão pragmática do “para que serve a teologia”.

    01/04/2007

    No início da análise, quero explicar minha insistência na expressão “concepção virginal” no lugar da mais conhecida “parto virginal”. A questão exata não é a maneira do nascimento de Jesus ou como ele saiu do útero, mas a maneira de sua concepção.

    01/04/2007

    Escrever um artigo que trate de um determinado método de interpretação bíblica não é uma tarefa muito fácil de ser realizada. Todavia, a dificuldade não se constituiu num obstáculo que me levasse à desistência.