EDITORIAL

A 10ª edição de Ciberteologia é dedicada à cristologia. A maioria dos Artigos selecionados visam a colocar o leitor diante dos questionamentos mais atuais em torno do tema. Em A encarnação e o conceito de Deus, Juan Luis Segundo parte da constatação de que o cristianismo pagou um preço muito alto por não compreender as decisões dogmáticas do Concílio de Calcedônia. A Igreja deveria ter reformulado o dogma ali definido, com novas categorias mais aptas de pensamento, de tal modo que sua verdade resplandecesse melhor e de modo mais pleno. O autor oferece, então, sugestões que extrapolam categorias, a partir de dados científicos (verificados) e dados bíblicos ou teológicos que conduzam a essa reformulação.


Giuseppe Barbaglio afirma, em Jesus: um curandeiro em um mundo de curandeiros – Parte I, que nenhum outro capítulo da vida de Jesus de Nazaré apresenta tanta riqueza e variedade de testemunhos como os que nos falam de sua ação taumatúrgica. Várias fontes cristãs o atestam: Marcos, a fonte Q, a tradição própria de Mateus, a fonte L — utilizada por Lucas, a coleção dos sinais aproveitada por João, até mesmo um dito do Evangelho de Tomé Apócrifo. O autor as analisa e coteja com rigor e clareza, procurando levantar elementos que ajudem a saber como o próprio Jesus entendeu suas curas e seus exorcismos.


Em Jesus de Nazaré e a fé em Deus, Manuel Fraijó diz que Jesus de Nazaré é uma cifra de Deus, de seu Reino, e de muitas outras causas profundamente humanas. As cifras nunca são infalíveis. Por isso Jesus não prova nem garante nada no referente a Deus. Deixa, porém, aberta uma brecha à esperança e, talvez, à aposta. Por sorte, a causa de Jesus parece continuar alentando muitas pessoas do século XXI. Seu potencial de cifra parece indubitável. Para Pierre Debergé, em Jesus Cristo ou o poder salvo, a cruz está no centro do Evangelho. Profundamente ligada à missão e ao ensinamento de Jesus, ela é, também, a consequência da incompreensão e da oposição daqueles cuja maneira de exercer o poder chocava-se com sua mensagem. Ela se reveste de uma importância toda especial no evangelho de Marcos, no qual é o lugar da manifestação da verdadeira identidade de Jesus e aparece, também, como uma dimensão essencial da vida do discípulo. Para ilustrar esse destino comum de Jesus e de seus discípulos, Marcos serve-se de uma imagem: o caminho. Esse caminho desemboca na cruz. A questão do poder não lhe é estranha.


Finalmente, no artigo inédito Do cinzento ao branco: o processo de individuação a partir de Gandalf em “O senhor dos Anéis”, Diego Klautau analisa o processo de individuação, conforme exposto por Marie Louise von Franz em O homem e seus símbolos, coletânea de textos de psicologia analítica, e pelo próprio Carl Jung em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, comparando-o com o desenvolvimento de Gandalf, mago protagonista de O senhor dos Anéis,  de J. R. R. Tolkien. A partir das categorias de crescimento psíquico, inconsciente, Sombra e Si Mesmo, Klautau entende como a passagem de Gandalf de o Cinza para o Branco estabelece sua individuação.


Na seção Comunicação, o primeiro comentário é de dom Marcelo Barros, que nos oferece algumas Questões sobre o 2º Fórum Mundial de Teologia e Libertação, recentemente realizado em Nairóbi-Quênia, poucos dias antes do 7º Fórum Social Mundial. Já o artigo de Antonio Manzatto – O teólogo, responsável pelo mundo – procura responder à pergunta “que esperar do estudo da teologia na área do conhecimento?” e leva-nos a pensar sobre a questão pragmática do “para que serve a teologia?” Também incluímos na seção um texto de Raymond E. Brown sobre A concepção virginal nas narrativas da infância de Jesus – I, em que o famoso exegeta enfrenta a seguinte (e delicada) questão: historicamente, Jesus foi concebido sem um pai humano? Finalmente, o articulista Julio Fontana, sempre provocativo, opina: Por que o método histórico-crítico não dá certo no Brasil?, e procura “quebrar” o que ele chama de tabus em torno da interpretação bíblica para depois examinar a dificuldade na aplicação do método histórico-crítico no âmbito brasileiro.


Completam o número as já conhecidas seções Artigos, Comunicação, além das Resenhas. Chamamos sua atenção para o lançamento, em breve, por Paulinas Editora, do livro O futuro da cristologia, de Roger Haight. Também recomendamos ao leitor uma retomada dos excelentes Repensar a Cristologia, de A. Torres Queiruga, e O Cristo, de Adolphe Gesché, além do magistral A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré, de J. L. Segundo. A seção comunicação continuará a publicar alguns excertos da confissão de fé de Karl Rahner, figura ímpar da teologia católica do século XX.


Enfim, renovamos o convite para que nosso ciberleitor visite a coluna Rumo à Conferência, na qual Ciberteologia coloca à disposição uma série de artigos e informações a respeito da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, a realizar-se, em maio, em Aparecida-SP (Brasil). Novos textos já estão disponíveis.


Está entregue a décima edição de Ciberteologia. Continuamos à disposição de quem quiser, de alguma forma, participar da produção e da divulgação do pensamento teológico latino-americano. Pesquisadores e autores com escritos originais afins com o nosso projeto editorial podem enviar-nos seus trabalhos (artigos, comunicação, resenhas), desde que atendam a nossas normas de publicação. Aproveitamos para agradecer aos articulistas deste número por sua generosa colaboração.


Uma produtiva ciberleitura em nossa companhia é o desejo de toda a Equipe de Ciberteologia!
Afonso Maria Ligório Soares

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