EDITORIAL

Quando Bento XVI, bispo emérito de Roma, anunciou que iria renunciar ao papado não faltou quem pensasse que os Maias tivessem errado por pouco: o fim não era 21/12/2012; era 28/02/2013. Ou seria o 11/09 do catolicismo, sinal de que só então iria começar o século 21? O fato é que parecia ser a 1ª vez na história que um Papa renunciava por vontade própria, alegando não ter mais condições físicas para o cargo. Nas 3 vezes anteriores, parece ter havido sempre algum tipo de deposição violenta.

Mesmo se o motivo principal da renúncia não tiver sido sua idade avançada [85 anos], o pontífice nº 265 da Igreja Católica e 7º Chefe de Estado do Vaticano precisou de muita coragem para admitir que não estava mais à altura do cargo. Mas certamente os escândalos recentes e a clareza de ter sido apunhalado pelo seu próprio pessoal [ultraconservadores de altíssimo escalão] devem ter pesado na decisão papal. A questão que se colocou logo em seguida foi saber quem venceria o braço de ferro. Quem seria o escolhido para exercer o ministério petrino? Um místico? Um diplomata? Um homem da mídia? Haveria alguma chance, desta vez, de o Espírito Santo exercer alguma influência? De novo aconteceria o certo por linhas tortas? [que, ao menos, é melhor que fazer a coisa errada pelos meios ortodoxos]. Aos católicos, além de acompanhar de forma crítica os desdobramentos seguintes, só restava orar para que o conclave superasse a pequenez política e pensasse grande, pensasse no melhor para a raça humana.

Foram dias de perplexidade no mundo católico e de uma curiosidade por vezes mórbida por parte de expectadores outsiders. Muitos palpiteiros midiáticos assumiram o risco de merecer a famosa repreensão de Dante Alighieri: “Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?” Não obstante esse apelo à prudência, alguns vibraram com o que pensaram ser o início do fim [da Igreja]; outros arrepiaram pelo que temeram ser sinal do fim [do mundo].

Mas para quem quisesse manter os pés no chão, só era possível chutar palpites quando o assunto era o nome do próximo Pontífice. Havia análises e listas para todos os gostos, com munição para nos distrair satisfatoriamente até o esperado momento da fumaça branca. Pessoalmente, seguíamos sonhando com alguém próximo do que foi João XXIII ou do que poderia ter sido João Paulo I, que nos encantou durante 33 dias. De certo, porém, só tínhamos que deveria ser alguém de perfil conservador, como sói acontecer. Também era provável que os cardeais eleitores tivessem em mente a necessidade de escolher alguém com potencial para ser um líder espiritual e com disposição para aprofundar a reforma na cúria romana que Bento XVI tentou encaminhar.

Fosse quem fosse o eleito, parecia improvável (quase impossível) que desejasse (ou que conseguisse, mesmo que desejasse) chegar à raiz do problema: destrinçar a confusão entre a Igreja-Estado e a Igreja-comunidade de fé; entre o Vaticano e a Santa Sé; entre o Bispo de Roma, que fala com autoridade espiritual, e o Chefe de Estado, que fala com diplomacia curial. Esse dilema foi o presente de grego que Constantino deu aos católicos no século IV e que causou, como reação interna, um pipocar de comunidades monásticas que fugiam para o deserto e para as montanhas em protesto contra a mundanização da Igreja. A versão moderna deste cavalo de troia (um vírus!) veio na forma de Cidade-Estado, graças a Mussolini, o fascista. O que há em comum entre elas está resumido naquela frase clássica, de sabor dantesco: “Quando Pedro e César dão-se as mãos, escorre sangue”.

A todo católico consciente restava, contudo, um consolo: nada cometido pelo seu clero porá em xeque um dogma fundamental: o pecado original, que estende democraticamente a miséria humana a todo indivíduo nascido neste planeta. Com base nessa verdade, Santo Ambrósio se referiu à Igreja, numa passagem de seu comentário ao Evangelho de Lucas, como a “immaculata ex maculatis”, querendo com isso dizer que, embora santa e sem mancha, ela acolhe homens manchados de pecado. Mais forte ainda é outra expressão de Ambrósio no mesmo comentário: “casta meretrix”. Embora os peritos divirjam sobre onde Ambrósio pretendia colocar a ênfase – se na santidade que vem de Deus ou na corrupção dos que adentram a comunidade eclesial – o certo é que ambas as expressões são duras, realistas, exigentes, e não fazem concessões, ingênuas ou maliciosas, à condição terrena do Povo de Deus que peregrina na história.

O ato derradeiro de Bento XVI está longe de ter sido um gesto desesperado. Coerente com sua filiação espiritual agostiniana, Ratzinger é um profundo investigador da miséria humana. Ele sabia ter alcançado o limite além do qual só a oração prossegue. O tipo de purificação necessário a essa comunidade chamada Igreja, a começar pelos seus príncipes curiais, passa pela conversão dos corações. Mas isso não bastou a Bento XVI. Ele sabia que aqueles que dizem não ser possível fazer mais nada precisam sair do caminho dos que ainda têm forças para por a mão na massa. Por isso, corajosa e humildemente, passou o cajado.

E, para surpresa geral, foi eleito Jorge, o Papa Francisco. E renasceu a esperança. Esta edição de Ciberteologia, que já estava em preparação quando os últimos acontecimentos deram essa reviravolta, abriu espaço para repercutir algo do que representa Francisco para o futuro da Igreja católica.

Algumas Notas deste número pretendem participar deste debate. Em “Francisco: renasce a esperança”, João Décio Passos e Afonso M. L. Soares sintetizam a introdução que prepararam para o livro Francisco, renasce a esperança (Paulinas), que foi concebida para oferecer uma primeira reflexão sobre os antecedentes e os prováveis desdobramentos da eleição do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco, para o futuro da Igreja Católica. É um livro franco, que detecta e avalia os graves problemas que a cúpula da Igreja Católica precisa enfrentar, mas é também uma obra esperançosa, que acredita na contínua conversão de todos e cada um dos membros desta Igreja para o cerne do Evangelho de Cristo. O principal diferencial da obra é a seleção de articulistas reunidos para pensar o novo pontificado a partir da realidade brasileira e latino-americana: Dom Angélico Bernardino; Dom Demétrio Valentini; Afonso M. L. Soares; Agenor Brighenti; Carlos Josaphat; Eduardo Hoornaert; Faustino Teixeira; Fernando Altemeyer Jr; Francisco de Aquino Jr; João Batista Libanio; João D. Passos; Lucia Ribeiro; Luiz A. G. de Souza; Luiz C. Susin; Manoel Godoy; Maria Clara L. Bingemer; Mario de F. Miranda; Paulo Suess e Ronaldo Zacharias.

Além destas, a edição traz as seguintes colaborações, também presentes no supracitado livro: “A grande (in)disciplina: crise de um projeto”, de João Batista Libanio, e “Bento XVI: alcances e limites de seu pontificado”, de Faustino Teixeira.

Esta edição, porém, também destaca trabalhos de pesquisadores da área de Ciência da Religião que vêm pensando a relação entre Literatura e Religião. Assim, Magna Regina Dantas, em “No vitral Odisseia, o espelho Iracema: Metáfora do caminho”, ousa por em diálogo duas epopeias clássicas de períodos e culturas distintos, Odisseia de Homero e Iracema de José de Alencar a partir da lógica metáfora do caminho. Nesse contexto dialógico, percebe a vida como coragem e caminho, na qual se faz presente o combate pessoal e espiritual que desencadeia o encontro consigo.

Em “Dos pés feridos de Édipo ao pé dinamizador de Exu”, Maria Elise Rivas e Sumaia Miguel Gonçalves evocam os pés feridos de Édipo e o pé de Exu (Òkòto) para penetrar o modo de pensar e interpretar de duas culturas, de períodos e locais diferentes. Seu desafio é encontrar similaridades ou disparidades entre a tragédia grega e os Itanifá, jogo divinatório dos iorubas, que são gêneros literários distintos. Os pés, tanto na tragédia grega como nos odù do Itanifas, são responsáveis pelos movimentos ou por levar ao movimento um indivíduo ou todo um grupo.

Outras duas Notas focam esse tema da litetatura: “Caminhos de Dante. Ensaio de dois momentos no Inferno: Canto III e Canto VIII”, de Flávio Ferreira de Melo; e “A Emblemática Travessia do Mar Vermelho: do passado de um povo ao presente da humanidade”, de Maria Cecília Mendia.

Completam o número dois artigos. Em “Teologia na Filosofia!?: a propósito da disciplina introdução à teologia no curso de filosofia”, Francisco de Aquino Júnior tem uma dupla pretensão: explicitar, de modo mais direto e imediato, o estatuto teórico da disciplina introdução à teologia no curso de filosofia, justificando, assim, sua inserção no âmbito teórico-acadêmico da filosofia, e, de modo mais indireto, e como seu pressuposto, o vínculo ou nexo interno entre teologia e filosofia. Com isso, pretende contribuir tanto para o caráter interdisciplinar da teologia e da filosofia, quanto, sobretudo, para o desenvolvimento e radicalização do fazer teológico e filosófico, seja no que eles têm em comum, seja no que eles têm de específico.

Já o propósito do artigo “O Mestre que ensina com sabedoria e amor: Uma possível interpretação pedagógica dos discípulos de Emaús”, de Paulo César Nodari, não é fazer uma análise exegética, nem uma interpretação hermenêutico-apologética da passagem dos discípulos de Emaús, e, tampouco, afirmar ser a presente interpretação a única e a melhor das interpretações possíveis. Trata-se, pois, de apresentar algumas características importantes do texto, evidenciando, por um lado, que a atitude de Jesus, ao aproximar-se dos dois discípulos, é eminentemente pedagógica, e, por outro, sublinhar, à luz da passagem bíblica, alguns aspectos imprescindíveis de exigências dos educadores no tempo hodierno, caso se queira que sejam, de fato, educadores.

Enfim, esperamos que nossos leitores e leitoras façam bom proveito das provocações que agora vão a público.

Afonso M. L. Soares - Editor

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