EDITORIAL

A palavra discernimento é composta de termos latinos discernere (separar, dividir, decidir) e mentum (meio instrumento). Significa, portanto, faculdade de escolher, de emitir um juízo sobre determinada situação. O conceito é utilizado, sobretudo, na teologia, mas é por vezes utilizado também em outras áreas de conhecimento. Para a psicologia gestalt, por exemplo, diz respeito ao ponto determinante no decorrer de uma aprendizagem. O direito entende por discernimento a capacidade de um indivíduo em decidir com sanidade sobre suas ações. Pergunta-se se o indíviduo tem capacidade de discernir sobre o certo e o errado. O ato de julgar sobre situações é inerente ao comportamento humano e acompanha, em última análise, os juízos emitidos pelas ciências dedicadas a interpretar por algum ângulo a realidade humana. Cada ciência humana sempre oferece juízos – modos de compreender determinada situação - sobre a realidade, a partir de algum critério adotado. Oferecer uma leitura de uma determinada realidade humana é sempre um ato de discernimento feito com um critério teórico e com uma opção metodológica. Nesse sentido, interpretar é o exercício de discernir sobre algo e construir como resultado uma explicação adequada e coerente.


As conjunturas históricas exigem discernimentos para serem compreendidas em suas dinâmicas e significados reais. Os fatos e sujeitos que as compõem não falam de imediato e por si mesmos. Ao contrário, podem ocultar as causas, os mecanismos e as tendências que sustentam e justificam as conjunturas presentes. As ciências visam ir além das aparências e expor as causas e os mecanismos de funcionamentos de seus objetos. Quando as conjunturas históricas são assumidas como objeto de estudo, o objetivo é desvendar as suas causas, os interesses em jogo, os sujeitos escondidos, as estratégias discursivas etc. As ciências humanas, de modo particular as ciências sociais, enfrentam essa tarefa com suas metodologias e paradigmas teóricos. E, na era da informação, essa tarefa se mostra ainda mais urgente e revestida de grandes desafios: distinguir a verdade da falsidade. As redes sociais são verdadeiras fontes de interpretação da realidade, sem, contudo, apresentar critérios de verificação das verdades oferecidas em volume e velocidade alucinantes. Nunca foi tão urgente ensinar/aprender a discernir os significados da realidade como nos tempos atuais. Para essa tarefa todas as ciências são bem-vindas e podem oferecer ferramentas e conteúdos que ajudem a distinguir a verdade da falsidade.


O conceito de discernimento tem como berço prático e teórico o cristianismo e está posto de modo explícito pelo Apostólo Paulo quando fala do dom de “discernimento dos espíritos” (1Cor 12,10). Paulo já havia exortado na Carta aos Tessalonicenses a não apagar o Espírito e não desprezar os dons da profecia, mas “a examinar tudo e ficar com o que for bom” (5,19). Posicionadas entre a tradição hebraica e a cultura helênica, as comunidades cristãs, tinham que discernir as habilidades de seus membros e discernir sobre seus rumos em nome da fidelidade a Jesus Cristo.


O cristianismo nasceu como discernimento da história; como acolhida do Messias enviado por Deus quando chegou à plenitude dos tempos, segundo o Apostolo Paulo (Gl 4,4). A longa espera do Messias foi, finalmente, concretizada com Jesus de Nazaré, o carpinteiro filho de Maria e José que saiu a pregar o Reino de Deus pela antiga Palestina romana. Acolher Jesus como o Messias foi um ato de fé, ao contrário do que se consolidou no imaginário cristológico posterior que vincula diretamente Jesus ao Cristo, a ponto de dispensar o discernimento e a adesão de seus seguidores. A cena dos discípulos de Emaús retrata com clareza os desafios da fé dos seguidores naquele que iria redimir Israel e foi condenado à morte (Lc 24,13-35).


A vinda do Messias prometido se inscrevia em um horizonte de esperança e de fé que exigia ler em sinais corriqueiros a realização das promessas de Deus. O homem da aldeia, de vida simples e que teve seu destino na pena dos criminosos não realizava as expectativas messiânicas do libertador do povo nem para os revolucionários e nem para os conservadores. Ver em Jesus o Messias era sempre uma decisão de fé para quem dele se aproximava. Após descrever até mesmo os milagres de Jesus, os evangelhos costumam repetir: e muitos creram nele! A abertura para acolher no pobre de Nazaré, crucificado e morto, a presença carnal de Deus é um ato livre de fé que exige discernimento e decisão ontem e hoje.


O cristianismo tem em sua origem esse discernimento radical: Deus visitou o seu povo, Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, Deus se encarnou em Jesus, Deus nos enviou seu Espírito, ele está no meio de nós... Fazer o discernimento messiânico era naturalmente um pressuposto presente e, por vezes, aguçado na vida do povo de Israel oprimido pelos romanos. O tempo de Jesus foi um tempo de expectativa messiânica e, por conseguinte, de interrogações sobre quem seria, quando viria e como seria o redentor enviado por Deus. A pergunta dos discípulos de João a Jesus é sintomática e expressa essa busca de discernimento: Você é o Messias ou devemos esperar outro? (Lc 7,20). A resposta de Jesus indica os sinais proféticos: cura dos cegos, dos doentes, dos espíritos malignos e o anúncio do evangelho aos pobres (Lc 7,21-22). Os sinais não impõem uma interpretação, mas indicam a ação de Deus no presente, por meio de atos concretos no cotidiano do povo, sobretudo dos pobres. Por isso haverá sempre quem, ao contrário, se escandaliza desses sinais (Lc 7,23), não acredita e não acolhe a presença de Deus em Jesus. Jesus foi uma presença trivial, limitada e escandalosa de Deus entre o povo; presença que exigiu fé de quem dele se aproximou e se dispôs a compreendê-lo e acolhê-lo como enviado de Deus. A fé exige discernimento feito com o coração e com a cabeça.


O discernimento dos sinais messiânicos se dá em uma circularidade que envolve as pré-noções da tradição profética (curas e escolha dos pobres no passado) e a ação presente de Jesus (curas e escolha dos pobres no presente). A interpretação confronta passado e presente, ideias e práticas, memória e sensibilidade. Os seguidores de Jesus foram capazes de operar essa circularidade hermenêutica e acolher sua mensagem e sua pessoa como vindas de Deus. Portanto, a manifestação de Deus em Jesus não constituiu, como muitas vezes se imagina, uma presença imposta como milagre que dispense o esforço de discernir, como uma teofania que fala por si mesma e exige que se coloque o rosto por terra. A teofania carnal e pobre de Deus em Jesus é sem estrondos e sem milagres que se impõem como forças persuasivas que dispensam a liberdade e a decisão. A acolhida de Jesus como enviado por Deus é sempre um convite à fé, à decisão e ao seguimento. Por essa razão, o pobre carpinteiro de Nazaré é sinal de Deus para alguns e sinal de contradição e até de maldição para muitos.


O próprio Jesus evoca o discernimento como critério para distinguir seu ministério profético e acolhê-lo como Messias. Aos saduceus e fariseus que pedem um sinal do céu, Jesus não somente nega um milagre como repreende suas incredulidades. São capazes de ler os sinais da natureza e fazer previsões, mas não sabem distinguir os sinais dos tempos (os sinais do Messias presentes em Jesus) (Mt 16,1-4). O desafio de interpretar Jesus como Messias exige fé; é ato livre e não uma imposição feita por um fato extraordinário. Jesus é categórico em sua resposta: nenhum sinal será dado a essa geração (Mc 8,12). As versões posteriores de Mateus e Lucas falam que será dado somente o sinal de Jonas. Para Mateus o sinal de Jonas se relaciona à acolhida das palavras de Jesus e a sua morte e ressurreição de Jesus (11,38-40). Para Lucas o sinal é a conversão dos ninivitas a partir da pregação de Jonas (Lc 11,29-32). Acolher Jesus é um ato de fé que exige discernimento e decisão. Apelam para os milagres os que são fracos na fé. O milagre dispensa o discernimento, uma vez que se impõe por sua natureza extraordinária. Ler os sinais dos tempos significa, ao contrário, buscar significados onde esses não aparecem imediatamente.


O discernimento permanece como atitude fundamental da fé cristã. A busca por teofanias e milagres sempre acompanhou o ser humano em suas práticas religiosas. Enquanto as religiões oferecem curas, a essência da vida cristã continua convidando á adesão de fé que exige sempre discernimento do presente, aprendizagem de leitura dos fatos cotidianos. Os rituais de cura sempre atraíram fiéis e engrossaram as fileiras de comunidades religiosas do passado e do presente. Os santos católicos e os pastores pentecostais fizeram seus currículos sobre a fama de operar milagres. Hoje crescem as igrejas que oferecem mais e maiores milagres. O milagre trabalha com a presença imediata do sobrenatural, o que se impõe como fato inevitável e dispensa o ato de fé que interpreta, aposta e decide. O cristianismo autêntico continua chamando para o discernimento de Jesus presente na história, presença que se mostra no outro e, de modo, sacramental nos pobres, como narra Mateus ao tratar do julgamento final (25,31ss.). Os seguidores de Jesus serão cobrados por saberem ou não discernir sua presença na carne dos que sofrem: os que têm fome, os doentes, os migrantes, os que estão excluídos de um modo geral.


A narrativa de Mateus ensina que os pobres constituem o parâmetro seguro de discernimento ético e político das conjunturas históricas. É partir deles que julgamos a presença ou ausência do Reino de Deus, a justiça na terra, o governo justo, a sociedade humanizada, os direitos de todos etc. A fé em Jesus Cristo não se reduz à adesão a sua pessoa individual como um mestre ou um guru e nem mesmo como salvador; é sempre uma adesão ao seu projeto de “caminho, verdade e vida” (Jo 14,16). E viver o projeto de Jesus é necessariamente discernir os projetos históricos, entender os rumos da história, a lógica dos regimes políticos, as práticas cotidianas etc.


O Concílio Vaticano II retomou a temática do discernimento dos sinais dos tempos como um modo indispensável de a Igreja se relacionar com o mundo contemporâneo. O método conciliar, se assim se pode falar, gira em torno de dois polos hermenêuticos básicos: a volta às fontes (fontes bíblicas e também patrísticas) e a compressão da sociedade atual. O exercício permanente dos padres conciliares foi operar o círculo hermenêutico entre os dois polos: entender o mundo atual a partir da fé, concretamente, a partir das fontes cristãs e reler as fontes cristãs a partir das exigências modernas. Esse movimento metodológico se encontrava em marcha nas teologias modernas que haviam emergido já na primeira metade do século XX e se mostrara de modo mais estruturado na segunda metade. O aggiornamento da igreja convocado por João XXIII exigia novos métodos para pensar e formular a fé, quando o mundo avançava para novos modos de interpretação da natureza e da historia que superavam as velhas abordagens da filosofia clássica.

Algumas passagem da Constituição Pastoral Gaudium et spes deixaram consignadas essa metodologia de leitura dos sinais dos tempos, herança direta de João XXIII (Pacem in terris, 1963). As conotações diversas revelam sempre o esforço de colocar a fé cristã em diálogo com a realidade presente nas seguintes perspectivas: como exigência para descobrir os desígnios de Deus na história (GS 4, 11), como leitura da realidade a partir da fé (GS 4, 11, 44), como missão da Igreja na compreensão, diálogo e serviço ao mundo (GS 4, 11), como tarefa conjunta dos cristãos com outros sujeitos (GS 11) e como diálogo com as várias linguagens e ciências na busca de aprofundamento da verdade revelada (GS 44).


O método de leitura dos sinais dos tempos é um desafio prático e teórico; significa aprendizagem de um método que pressupõe a abertura ao Espírito e sensibilidade para com a realidade presente. Em resumo, discernir pressupõe três elementos fundamentais intrinsecamente articulados: a fé (como pressuposto), a realidade (como desafio concreto) e a razão (aprendizagem de um método). Sobre esse tripé a Igreja exerce sua missão em cada época e lugar, a pastoral elabora seus projetos e a teologia formula suas teses e explicações. Numa palavra, a história é sempre o lugar de memória da tradição da fé vivenciada e testemunhada pelos seguidores de Jesus; é o lugar da experiência da fé que vai sendo transmitida em sintonia com as realidades presentes.


Contudo, o discernimento pode ser dispensado tanto pelos que entendem que a tradição é um conjunto de verdades fixas a ser repetido de modo intacto em todo tempo e lugar, quanto por aqueles que se entregam aos condicionamentos históricos e dispensam a fé como conteúdo ativo que faz um juízo da realidade. A era da informação, dinamizada por veículos e conteúdos variados e em grande volume, pode dispensar o discernimento quando a informação se torna sinônimo de verdade. O ato individualizado de receber e reproduzir as informações dentro de bolhas sociais supostamente detentoras da verdade configura um comportamento de confiança espontânea nas versões (e nos fatos) recebidas em volume e velocidade intensas. Ensinar a pensar, criticar e decidir sobre o falso e o verdadeiro é hoje um desafio pedagógico e político da maior urgências. Nunca foi tão necessário aprender e ensinar a discernir. As fake news constituem a caricatura do relativismo da verdade que se torna cada vez mais legítimo, como prática regular de grande parte da população. Como distinguir o falso do verdadeiro? Como discernir e ficar com o que bom, como recomenda o Apóstolo Paulo?


Se não existem receitas prontas, existe uma postura ética e política que continua indicando a necessidade de buscar sempre pela verdade, seja pela concretude dos fatos, seja pela interpretação fiel dos mesmos. O discernimento é parte da postura racional que separa o falso do verdadeiro como operação básica para a interpretação da realidade. O discernimento pode ser também atitude de fé que significa abertura para a comunicação de Deus no tempo presente. Tanto para a razão quanto para a fé implica um aprendizado, ou seja, indica a necessidade de aprender um método de leitura que inclui o uso das ferramentas inteligentes que vão além das aparências da realidade. As ciências em seu sentido mais amplo e profundo ensinam a discernir o falso do verdadeiro, o certo do errado. Isso significa que as opiniões nem sempre são verdades, mesmo que se apresentem sedutoras e belas. Nem tudo é verdade; o erro está presente nas percepções humanas e podem ser detectados por caminhos lógicos e empíricos. Por isso, desde a Grécia antiga ensinar ciências é ensinar a discernir. Nem tudo é verdade e a verdade pode e deve ser buscada por todos, ainda que não se ofereça como única e definitiva. Os fatos não falam por si mesmos, mas necessitam de interpretações permanentes em cada época e lugar. E nos dias atuais as versões e os fatos nem sempre coincidem e até mesmo se contradizem. A busca da realidade/verdade nunca foi tão urgente.


A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. Hoje, porém, tudo se pode produzir, dissimular, modificar. Isto faz com que o encontro direto com as limitações da realidade se torne insuportável. Em consequência, implementa-se um mecanismo de “seleção”, criando-se o hábito de separar imediatamente o que gosto daquilo que não gosto, as coisas atraentes das desagradáveis. A mesma lógica preside à escolha das pessoas com quem se decide partilhar o mundo. Assim, as pessoas ou situações que feriam a nossa sensibilidade ou nos causavam aversão, hoje são simplesmente eliminadas nas redes virtuais, construindo um círculo virtual que nos isola do mundo em que vivemos (Fratelli tutti, 47).


Essa conjuntura atual desperta Ciberteologia para revisitar e abordar múltiplos aspectos do discernimento. Com esse objetivo interdisciplinar oferece várias leituras entrecruzadas: a histórica que pergunta pelo sentido do passado afirmado no presente, a filosófica que discute o conceito de mentira/verdade, a científica que afirma uma objetividade dos fatos a ser perseguida e afirmada, a social que aponta para o falso e o verdadeiro presente nos discursos atuais e a espiritual que convida para a ruminação dos significados dos fatos na experiência de fé. Além dos Artigos que compõem essa abordagem, as seções Documento e Notas oferecem reflexões que expressam o mesmo desafio de discernir a realidade atual.


No dia 06 de abril passado faleceu o teólogo suíço Hans Küng, perito conciliar, teórico arguto e destemido e responsável por um grande projeto de “ética mundial”, do qual resultaram grandes obras em que liga a paz mundial e o diálogo inter-religioso. As relações entre o político e o religioso por ele expostas com rara lucidez adquirem grande relevância em tempos de fundamentalismo e tradicionalismo em alta e, com frequência, imiscuídos em projetos políticos e governos. Nossa homenagem ao grande teólogo fica, por ora, registrada em um artigo nessa edição.


Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.
Não haverá paz entre as religiões sem um diálogo entre as religiões.
Não haverá coexistência humana sem uma ética mundial por parte das nações 
(Hans Küng).


João Décio Passos
Editor

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