EDITORIAL

Esta edição julina de Ciberteologia sai com uma motivação extra: a oportuna e solidária homenagem que decidimos prestar a um dos principais teólogos da atualidade, o pensador galego Andrés Torres Queiruga. A motivação imediata para este destaque foi a Notificação emitida em março deste ano pela Conferência Episcopal Espanhola sobre algumas obras deste conhecido teólogo galego. A repreensão a um teólogo e/ou a discussão de suas teses e métodos de pesquisa é perfeitamente cabível e usual. O que estranha nesse episódio é mais a maneira como todo o processo de repreensão se desenrolou. A única resposta que podemos dar ao evento é justamente a de abrir espaço para a discussão e o estudo.

Por ironia, a experiência de ler um livro desse autor é sempre a de que se está na companhia de alguém com quem podemos entabular um diálogo franco, respeitoso e sem falsas concessões. Permeia sua reflexão uma busca incessante do sentido histórico das ideias, principalmente daquelas teológicas. Busca que se traduz em volta obediente (ob-audire) à Tradição para de novo redizê-la, na liberdade e no diálogo com a cultura, nas categorias deste tempo.

Em fases delicadas como a que vive hoje o cristianismo institucional, quando dilemas enormes se colocam à frente dos cristãos modernos e, ao mesmo tempo, ventos restauradores sopram de maneira preocupante nos meios eclesiásticos, é sempre um alento poder mergulhar em produções de alto quilate, cujo escopo seja oferecer, na gratuidade, uma fé expressa em categorias atuais.

Fica, então, a dica: a obra que parece fundamental para compreender os desdobramentos ulteriores do pensamento queiruguiano é Repensar a revelação: a revelação de Deus na realização humana. A primeira experiência a permear todo o seu projeto é a de estarmos todos, a inteira humanidade, mergulhados no amor desmesurado de um Deus que se nos dá sempre e plenamente. Toda cultura, toda tradição religiosa é uma autêntica e verdadeira tentativa de resposta a quem primeiro nos amou. E seu amor não se exaure, nem mesmo quando (e se) a nossa resposta for negativa. Ainda assim – e para dizê-lo à moda de Juan Luis Segundo, um dos primeiros, entre nós, a chamar a atenção para a reflexão de Torres Queiruga – teria sido vitorioso o projeto divino de criar autênticos interlocutores e não meros robôs programados para servi-lo.

A segunda intuição presente em sua abordagem da revelação, e que qualifica a nota original da obra, consiste no reconhecimento da palavra revelada como “maiêutica histórica”, a saber, como “palavra que ajuda a dar à luz a realidade mais íntima e profunda que já somos pela livre iniciativa do amor que nos cria e nos salva”. Nada de nosso podemos dar, afinal, mas tão somente tornar evidente, com nosso testemunho comunitário, aquilo que já pertence de direito a todo ser humano. A maiêutica, entretanto, é histórica; pois, afinal, “a revelação se realiza incorporando em si a carne e o sangue do esforço humano”.

Portanto, o que se ganha em humanização, ganha-se em revelação. E nesse espírito de diálogo, o texto que abre a seção de Artigos de Ciberteologia – Para alén da oración de petición – foi-nos gentilmente cedido pelo próprio Torres Queiruga. Ele deverá sair em breve, com pequenas alterações, como capítulo do próximo livro do autor, mais testemunhal, cujo título provisório é “Alguém assim é o Deus em quem eu creio“. Mantivemos a língua original do artigo, em galego, para que a publicação também faça às vezes de uma homenagem estendida a todo o povo galego, de cuja língua e cultura, sem dúvida, também descendemos.

Alonso Gonçalves, que já nos brindara anteriormente com o texto “Deus absolvido: a contribuição de Andrés Torres Queiruga para o problema do mal”[†], apresenta neste número o trabalho “A letra mata.” A contribuição de Andrés Torres Queiruga para uma leitura não fundamentalista da Bíblia, em que, depois de considerar que a hermenêutica protestante faz uso do texto bíblico, com raras exceções, em viés fundamentalista, quando a revelação divina é tomada a partir do texto e não antes dele, o artigo procura abordar a perspectiva revelação Bíblia em Andrés Torres Queiruga e sua contribuição para uma leitura bíblica que contemple o contexto da comunidade de fé.

A seção inclui ainda um trabalho de Taciane Jaluska e Sérgio Junqueira sobre As possibilidades de educação em espaços não formais por meio do turismo educacional. A seção de Notas, após apresentar um texto do prof. Ênio José da Costa Brito, que repercute o lançamento do livro “Umbanda sertaneja. Cultura e religiosidade no sertão norte mineiro”, de Cristina Borges (Notas para a leitura de um texto sobre a religiosidade afro-brasileira no norte de Minas), seguido de um estudo de Anderson de Oliveira Lima (Enunciados teológicos paulinos em estrutura cumulativa: estudo sobre Rm 1,1-7), volta ao tema desta edição com a transcrição de dois documentos importantes para ajudar em nossas ponderações sobre o pensamento de Torres Queiruga.

Inicialmente transcrevemos o texto original da Notificación sobre algunas obras del Prof. Andrés Torres Queiruga, emitida pela Conferência Episcopal Espanhola, assim como foi dado a público em 30 de Março de 2012, no sítio daquela entidade. Em seguida, oferecemos a nosso público a íntegra da Entrevista concedida pelo teólogo galego Andrés Torres Queiruga à revista italiana IL REGNO-attualità. Uma Resenha especial sobre a obra de Queiruga completa este número.

Boa leitura! 

Afonso Maria Ligório Soares

[†] Ali o articulista comenta que este teólogo galego tem merecido o devido destaque por intentar formular uma teologia contextualizada e libertadora que toma como ponto de partida a secularização e a Modernidade. Um de seus temas prediletos é a questão do mal. O artigo pretende, de forma panorâmica, apresentar suas ideias sobre o tema. (cf.: http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/index.php/artigos/deus-absolvido-acontribuicao-deandres-torres-queiruga-parao-problema-do-mal/)

IL REGNO-attualità nº 8/2012: 17-22. Reproduzimos aqui a íntegra da entrevista, com prévia autorização.

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