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Editorial

Edição 16 - Ano IV - Março/Abril 2008 - ISSN 1809-2888
Homenagem a Irmã Maria Carmelita de Freitas e Hugo Assmann
01/03/2008

Este décimo sexto número de Ciberteologia vai ao ar em luto. Perdemos em fevereiro do corrente ano duas personalidades muito queridas e de trajetórias relevantes na vida do cristianismo e do pensamento teológico. Irmã Maria Carmelita de Freitas faleceu no dia 8 de fevereiro, em Belo Horizonte (MG). Era membro da Congregação das Filhas de Jesus e Doutora em Teologia, tendo atuado durante décadas como Assessora Nacional da CRB (Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil) e da CLAR (Conferência Latino-Americana dos Religiosos). Até Julho de 2007 era Presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião), além de escritora, professora e conferencista. No dia 22 de fevereiro de 2008, deixou-nos Hugo Assmann. Um dos fundadores da Teologia da Libertação, a obra de Assmann estendeu-se também pelas áreas da Economia, da Política e, na última década, dedicou-se apaixonadamente a “reencantar a Educação” (título de um de seus livros). Este número vai dedicado a esses dois exemplos brasileiros de seriedade científica banhada no amor pelos mais excluídos da sociedade.

O primeiro trabalho da seção de Artigos é O campo religioso como representação da vontade de ser reconhecido socialmente. Nele, Sidney Antonio da Silva, a partir de dados etnográficos, afirma que uma das formas de se compreender a maneira de ser do boliviano imigrante no Brasil, e, talvez, a mais importante, é através da variada e específica maneira de manifestar a sua religiosidade.

Em O futuro do cristianismo – Parte I, Manuel Fraijó parte da constatação, aparentemente paradoxal, de que a identificação entre “cristianismo” e “fé em Deus” não é universalmente aceita. Há quem opine que a sombra do cristianismo é mais abrangente do que a de Deus. Poderia dar-se o caso, portanto, de que o cristianismo sobrevivesse sem Deus. E sugere, provocativo, que talvez queiramos ser cristãos, “mas não demais”.

O biblista Paulo A. de S. Nogueira estuda, em Jesus em boa companhia: exaltação visionária no relato da transfiguração, a experiência religiosa cristã primitiva no âmbito da pesquisa do Jesus histórico e de seu movimento. Sua pergunta é se uma dada experiência pertence ou não ao conjunto de formas em que a sociedade de Jesus vivenciava a religião, se faziam parte do contexto dele. E mesmo se somente for possível comprovar que apenas seus discípulos vivenciaram algo, isso não deve a priori desmerecer a narrativa. Afinal, uma das conquistas da pesquisa moderna sobre o Jesus histórico é a adoção do critério de continuidade, ou seja, aquilo em que os discípulos de Jesus creram e aquilo que eles praticaram não é necessariamente incompatível com o que ele tiver crido e praticado.

Enfim, em Axé, Malungo!, Roberto Zwetsch discute a vitalidade da cultura negra a partir de alguns poetas negros. Além disso, entende que, na poesia, o inconsciente aparece com mais força do que em outras formas literárias. E é justamente na fronteira entre o consciente e o inconsciente que o autor espera encontrar alguma coisa nova.

A seção de Comunicação, abre-se com o texto Sábios contra os ídolos, de Marie Balmary. A autora afirma que Freud não se coloca diante da Escritura como de uma produção do inconsciente que começará a decifrar ousadamente. Muitas vezes, contudo, os comentaristas notaram a semelhança entre o trabalho de interpretação judia dos textos e o que Freud faz com sintomas e sonhos. Daí se pergunta a autora: sobre o que, portanto, incidia a crítica de Freud a respeito da religião?

Em Recordação de um grande ausente, Manuel Fraijó parte da afirmação de J. B. Metz, quando este afirma que “também a nós cristãos ficam algumas coisas por saber em relação ao tema Deus”, para tecer breve e instigante comentário sobre a insistência moderna na ausência de Deus ou em sua invisibilidade.

Em O Imigrante boliviano e o papel da cultura em suas trajetórias, Sidney A. da Silva reflete sobre Migração e clandestinidade, questionando a visão que os cidadãos têm do outro imigrante e de sua cultura.

Enfim, publicamos o texto-testemunho Hugo Assmann: teologia com paixão e coragem, gentilmente oferecido por Jung Mo Sung, atual coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)

Na seção comunicação, publicamos uma Memória da Irmã Carmelita (1933-2008), falecida no último dia 8 de fevereiro, escrita pelo frater Henrique Cristiano José Matos, cmm.

Aí está, portanto, a décima sexta edição de Ciberteologia. Como sempre, novos textos e resenhas vão, aos poucos, completando esta edição, ao longo das semanas de março e abril. Pesquisadores e autores com escritos originais afins a nosso projeto editorial podem nos enviar seus trabalhos (artigos, notas, resenhas), desde que atendam nossas normas de publicação (enviar para: ciberteologia@paulinas.com.br). Aproveitamos para agradecer aos articulistas desta edição por sua importante participação em nosso projeto.

Uma Feliz Páscoa do Senhor a todos!

  • Artigos
    01/04/2008

    O artigo apresenta: a partir dos dados etnográficos podemos dizer que uma das formas de se compreender a maneira de ser do boliviano, e, talvez, a mais importante, é através da variada e específica maneira de manifestar a sua religiosidade.

    01/04/2008

    O artigo apresenta: embora pareça paradoxal, a identificação entre “cristianismo” e “fé em Deus” não é universalmente aceita. Há quem opine que a sombra do cristianismo é mais abrangente do que a de Deus. Poderia dar-se o caso, portanto, de que o cristianismo sobrevivesse sem Deus.

    01/04/2008

    No presente artigo, estudar a experiência religiosa cristã primitiva no âmbito da pesquisa do Jesus histórico e de seu movimento é quase um tabu. Primeiro porque os pesquisadores nunca admitem que se possa reconhecer este ou aquele texto como “histórico”, recaindo sobre os textos sempre as velhas suspeitas de que sejam elaboração posterior da Igreja primitiva.

    01/04/2008

    O artigo discute a vitalidade da cultura negra a partir de alguns poetas negros. Além disso, entende que, na poesia, o inconsciente aparece com mais força do que em outras formas literárias.

  • Notas
    01/04/2008

    Na sexta-feira, dia 8 de fevereiro de 2008, partiu para a Casa do Pai nossa querida Irmã Maria Carmelita de Freitas.

    01/04/2008

    Freud não se coloca diante da Escritura como de uma produção do inconsciente que começará a decifrar ousadamente.

    01/04/2008

    Metz afirma que “também a nós cristãos ficam algumas coisas por saber em relação ao tema Deus”. É verdade. No final de sua vida, são Tomás de Aquino considerava “palha” tudo o que ele havia escrito sobre Deus.

    01/04/2008

    O outro não existe: essa é a fé racional, a crença incurável da razão humana. Identidade = realidade, como se, afinal de contas, tudo tivesse de ser, absoluta e necessariamente, um e o mesmo.

    01/04/2008

    Faleceu no dia 22/02/08 Hugo Assmann, um dos principais teólogos da libertação. Na verdade, ele foi mais do que teólogo, foi um pensador que se guiou pelo seu compromisso pessoal...