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Editorial

Edição 36 - Ano VII - Outubro/Dezembro 2011 - ISSN 1809-2888
Interação entre religião e literatura
01/10/2011

Este nº 36 de nossa revista eletrônica Ciberteologia encerra o ano de 2011 com uma seleção de trabalhos inéditos que pretende privilegiar as interações entre religião e literatura, de modo especial entre a literatura e a reflexão teológica. O tema não é novo aqui, pois já lhe dedicamos duas edições especiais em números anteriores (nº 8/2006; nº 14/2007). De fato, a pergunta que permeia essa abordagem poderia ser assim colocada: será que os estudos literários não poderiam oferecer a teólogos e cientistas da religião uma via mais arejada de aproximação à diversidade religiosa – uma possibilidade a mais entre o rigoroso e necessário método científico de falseação (onde se encontra Ciência da Religião) e os interditos confessionais (teológicos)?

No que diz respeito às perspectivas de diálogo entre Ciência da Religião e Literatura, autores como Antonio Magalhães [1] já propuseram a literatura como “arquivo (acervo bruto) e interpretação da religião”, colocando a primeira como “interlocutora importante das ciências da religião, especialmente da teologia”. Sem negar as evidentes diferenças entre literatura e ciência da religião, ele sugere ser possível superar alguns limites impostos e coloca a relevância da literatura em suas diferentes possibilidades na interpretação da experiência religiosa. 

Do ponto de vista da teologia, Antonio Manzatto, em [2], diz que a recente aproximação entre teologia e literatura é fruto mais de trabalhos e esforços de teólogos e teólogas, uma vez que os estudiosos literários sempre se sentiram próximos das questões teológicas ou religiosas – e sua relação com a compreensão humana de si, da vida e do mundo. Ele distingue os métodos de aproximação entre literatura e teologia em três blocos de métodos [3]: o primeiro bloco reúne trabalhos que procuram dentro da obra literária os elementos de teologia que ali estão presentes, trabalhados pelo autor, praticamente, de forma “teológica”. O segundo bloco seria constituído por métodos derivados do pensamento de Karl J. Kuschel, como o método da correspondência proposto por Antonio Magalhães [4] e a teopoética, assim como a trabalham os grupos de Salma Ferraz e o de Maria Clara Bingemer [5]. No entanto, segundo Manzatto, a maior parte desses trabalhos aproximam a literatura da religião, mas não da teologia. Ainda fica em aberto o desafio de encarar a especificidade da teologia, ou seja, a reflexão sobre os conteúdos específicos da fé a partir do horizonte literário.

O terceiro bloco de métodos é aquele que, na visão de Manzatto, quer de fato contemplar o desafio teológico em sentido estrito, pensando conteúdos da fé a partir do horizonte literário propriamente dito. Aqui a teologia se deixa provocar pela antropologia da obra literária, vendo aí o Deus que se revela no e para o bem do ser humano.

Os Artigos desta edição são apenas uma amostra do campo que se abre para essa interação entre teologia e literatura. E de como esses blocos de aproximação seguem atuantes. É o próprio Antonio Manzatto quem abre este número com o trabalho O Messias do texto, que pergunta pela importância da aproximação entre teologia e literatura, e a percebe positivamente na afirmação de uma terceira dimensão da compreensão do Cristo, justamente a de Messias do texto, percebida exatamente pelos procedimentos literários, dimensão que funcionaria como ponte de ligação entre o Jesus da história e o Cristo da fé.

Em seguida, Alex Villas Boas, em A proposta de uma Teopatodiceia como pensamento poético-teológico, sugere-nos uma leitura teológica da patodiceia enquanto tarefa humana de dar sentido à vida. Tal se dá diante de um Mistério que a inspira e participa desse sofrimento, provocando o ser humano a uma reinvenção da existência ao re-significar o lugar e o papel de Deus no sofrimento humano. É o que o autor chama de Teopatodiceia ou pensamento poético-teológico.

Da parte da crítica literária, Maria Auxiliadora Fontana Baseio oferece-nos o texto Literatura e imaginário: o sagrado em Manoel de Barros. Segundo a autora, no ventre ficcional tecido pelo imaginário, o sagrado manifesta-se como forte alimento sensibilizador. E ela discute essa presença do transcendente no projeto estético do poeta Manoel de Barros, ao revelar sua consciência mágica, grávida do maravilhoso.

Encerrando a seção de Artigos, Antonio Carlos Ribeiro assina a instigante reflexão intitulada Reza para desdoidar, desendoidecer. E teologia para interpretar! Já que teologia é hermenêutica e se constrói a partir do diálogo com a cultura, cristalizada nas artes, o autor se detém no discurso de Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, que reflete uma visão brasileira, cristã e laica da fé. E sugere que para entendê-lo, o teólogo precisa se deixar tocar.

Na seção de Notas, dois trabalhos provocam nosso discernimento crítico. Em Personagens negras e brancas em livros didáticos de Ensino Religioso, o professor Sergio Luis do Nascimento apresenta algumas considerações sobre a análise dos discursos sobre os segmentos raciais negros e brancos em livros didáticos de Ensino Religioso de 5a e de 8a série do Ensino Fundamental, publicados entre 1977 e 2007. Sua análise procurou contemplar textos produzidos de acordo com os três modelos tradicionalmente presentes em diversas escolas do Brasil, a saber: as concepções denominadas Confessional, Interconfessional e Fenomenológica. A segunda Nota, Bento XVI e a juventude. A partir dos discursos do papa nas Jornadas Mundiais da Juventude 2005-2011, é um ensaio do professor Jorge Claudio Ribeiro, especialista nos estudos de religião e juventude, que reflete sobre a proposta evangelizadora do atual papa para a juventude, à luz dos discursos do sumo pontífice dados nas Jornadas havidas durante o seu pontificado.

Além da continuação do trabalho de Hermilo Pretto na seção Teologia Aberta, ainda há para o leitor duas indicações valiosas na seção de Resenhas.

Resta, então, esperar que o proveito de nossos ciberleitores seja excelente.

Dr. Afonso Maria Ligorio Soares

[1] Magalhães, A. C. de Melo. Religião e interpretação literária; perspectivas de diálogo das ciências da religião com a literatura. Religião & Cultura. Paulinas/PUC/SP, III/6 (2004): 11-27.

[2] Ver: A. Manzatto, Pequeno panorama de Teologia e Literatura, em: Vilhena, M. Angela & Mariani, Ceci (org.). Teologia e Arte. Paulinas, 2010, p. 87-98.

[3] Para o que segue: Ibidem, p. 92-96.

[4] Magalhães, A. C. de Melo, Deus no espelho das palavras, São Paulo: Paulinas, 2000.

[5] Salma Ferraz trabalha com Rafael Camorlinga na UFSC, enquanto Maria Clara Bingemer atua na PUC-Rio, com Eliana Yunes.

  • Artigos
    01/12/2011

    O artigo pergunta pela importância da aproximação entre teologia e literatura, e a percebe positivamente na afirmação de uma terceira dimensão da compreensão do Cristo, a de Messias do texto, percebida exatamente pelos procedimentos literários, dimensão que funcionaria como ponte de ligação entre o Jesus da história e o Cristo da fé.

    01/12/2011

    Este artigo propõe uma leitura teológica da patodiceia enquanto tarefa humana de dar sentido à vida. Tal se dá diante de um Mistério que a inspira e participa desse sofrimento, pro-vocando o ser humano a uma reinvenção da existência, ou seja, re-significando o lugar e o papel de Deus no sofrimento humano.

    01/12/2011

    Neste artigo, nosso propósito é discutir a presença do sagrado no projeto estético de Manoel de Barros, ao revelar sua consciência mágica, grávida de maravilhoso, capaz de encantar o leitor e fazer “milagrar” a vida humana.

    01/12/2011

    O artigo mostra que teologia é hermenêutica e se constrói a partir do diálogo com a cultura, cristalizada nas artes. O discurso de Riobaldo, de Guimarães Rosa, reflete uma visão brasileira, cristã e laica da fé. Para entendê-lo, é preciso deixar-se tocar.

  • Resenha
    01/12/2011

    VILLAS BOAS, Alex. Teologia e poesia: a busca de sentido em meio às paixões em Carlos Drummond de Andrade como possibilidade de um pensamento poético-teológico. Sorocaba: Crearte Editora, 2011. 252 p.

    01/12/2011

    KNITTER. Paul F. Introdução às teologias das religiões. São Paulo: Paulinas, 2008. 398p. (Coleção Kairós.) ISBN 978-85-356-2309-3.

  • Notas
    01/12/2011

    O artigo apresenta algumas considerações sobre a análise dos discursos sobre os segmentos raciais negros e brancos em livros didáticos de Ensino Religioso de 5a e de 8a série do Ensino Fundamental, publicados entre 1977 e 2007. A análise foi produzida nos contextos interpretativos da teoria da ideologia (Thompson, 1995) e dos estudos contemporâneos sobre discursos racistas.

    01/12/2011

    O artigo reflete sobre a proposta evangelizadora do atual papa para a juventude, à luz dos discursos do sumo pontífice dados nas Jornadas Mundiais Da Juventude entre 2005 e 2011.

    01/11/2011

    O tema da santidade, essencial no interior da experiência cristã, revela-se complexo em razão de elementos que entre si se contrapõem. De um lado, o desabrochar das potencialidades humanas. O resultado a ser perseguido, objetivo inspirador daquilo que, em determinada situação, se pensa e se faz, da mesma forma como sua qualidade, depende de quanto o ser humano seja capaz de realizar. Nessa dinâmica é preciso que haja renúncia, autocontrole, ascese, conversão, no interior de uma justa e adequada escala de valores.