EDITORIAL

Este nº 36 de nossa revista eletrônica Ciberteologia encerra o ano de 2011 com uma seleção de trabalhos inéditos que pretende privilegiar as interações entre religião e literatura, de modo especial entre a literatura e a reflexão teológica. O tema não é novo aqui, pois já lhe dedicamos duas edições especiais em números anteriores (nº 8/2006; nº 14/2007).

De fato, a pergunta que permeia essa abordagem poderia ser assim colocada: será que os estudos literários não poderiam oferecer a teólogos e cientistas da religião uma via mais arejada de aproximação à diversidade religiosa – uma possibilidade a mais entre o rigoroso e necessário método científico de falseação (onde se encontra Ciência da Religião) e os interditos confessionais (teológicos)? No que diz respeito às perspectivas de diálogo entre Ciência da Religião e Literatura, autores como Antonio Magalhães já propuseram a literatura como “arquivo (acervo bruto) e interpretação da religião”, colocando a primeira como “interlocutora importante das ciências da religião, especialmente da teologia”. Sem negar as evidentes diferenças entre literatura e ciência da religião, ele sugere ser possível superar alguns limites impostos e coloca a relevância da literatura em suas diferentes possibilidades na interpretação da experiência religiosa.

Do ponto de vista da teologia, Antonio Manzatto, diz que a recente aproximação entre teologia e literatura é fruto mais de trabalhos e esforços de teólogos e teólogas, uma vez que os estudiosos literários sempre se sentiram próximos das questões teológicas ou religiosas – e sua relação com a compreensão humana de si, da vida e do mundo. Ele distingue os métodos de aproximação entre literatura e teologia em três blocos de métodos: o primeiro bloco reúne trabalhos que procuram dentro da obra literária os elementos de teologia que ali estão presentes, trabalhados pelo autor, praticamente, de forma “teológica”. O segundo bloco seria constituído por métodos derivados do pensamento de Karl J. Kuschel, como o método da correspondência proposto por Antonio Magalhães e a teopoética, assim como a trabalham os grupos de Salma Ferraz e o de Maria Clara Bingemer. No entanto, segundo Manzatto, a maior parte desses trabalhos aproximam a literatura da religião, mas não da teologia. Ainda fica em aberto o desafio de encarar a especificidade da teologia, ou seja, a reflexão sobre os conteúdos específicos da fé a partir do horizonte literário. O terceiro bloco de métodos é aquele que, na visão de Manzatto, quer de fato contemplar o desafio teológico em sentido estrito, pensando conteúdos da fé a partir do horizonte literário propriamente dito. Aqui a teologia se deixa provocar pela antropologia da obra literária, vendo aí o Deus que se revela no e para o bem do ser humano.

Os Artigos desta edição são apenas uma amostra do campo que se abre para essa interação entre teologia e literatura. E de como esses blocos de aproximação seguem atuantes. É o próprio Antonio Manzatto quem abre este número com o trabalho O Messias do texto, que pergunta pela importância da aproximação entre teologia e literatura, e a percebe positivamente na afirmação de uma terceira dimensão da compreensão do Cristo, justamente a de Messias do texto, percebida exatamente pelos procedimentos literários, dimensão que funcionaria como ponte de ligação entre o Jesus da história e o Cristo da fé.

Em seguida, Alex Villas Boas, em A proposta de uma Teopatodiceia como pensamento poéticoteológico, sugere-nos uma leitura teológica da patodiceia enquanto tarefa humana de dar sentido à vida. Tal se dá diante de um Mistério que a inspira e participa desse sofrimento, provocando o ser humano a uma reinvenção da existência ao resignificar o lugar e o papel de Deus no sofrimento humano. É o que o autor chama de Teopatodiceia ou pensamento poético-teológico. Da parte da crítica literária, Maria Auxiliadora Fontana Baseio oferece-nos o texto Literatura e imaginário: o sagrado em Manoel de Barros. Segundo a autora, no ventre ficcional tecido pelo imaginário, o sagrado manifesta-se como forte alimento sensibilizador. E ela discute essa presença do transcendente no projeto estético do poeta Manoel de Barros, ao revelar sua consciência mágica, grávida do maravilhoso.

Encerrando a seção de Artigos, Antonio Carlos Ribeiro assina a instigante reflexão intitulada Reza para desdoidar, desendoidecer. E teologia para interpretar! Já que teologia é hermenêutica e se constrói a partir do diálogo com a cultura, cristalizada nas artes, o autor se detém no discurso de Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, que reflete uma visão brasileira, cristã e laica da fé. E sugere que para entendê-lo, o teólogo precisa se deixar tocar.

Na seção de Notas, dois trabalhos provocam nosso discernimento crítico. Em Personagens negras e brancas em livros didáticos de Ensino Religioso, o professor Sergio Luis do Nascimento apresenta algumas considerações sobre a análise dos discursos sobre os segmentos raciais negros e brancos em livros didáticos de Ensino Religioso de 5ª e de 8ª série do Ensino Fundamental, publicados entre 1977 e 2007. Sua análise procurou contemplar textos produzidos de acordo com os três modelos tradicionalmente presentes em diversas escolas do Brasil, a saber: as concepções denominadas Confessional, Interconfessional e Fenomenológica. A segunda Comunicação, Bento XVI e a juventude. A partir dos discursos do papa nas Jornadas Mundiais da Juventude 2005-2011, é um ensaio do professor Jorge Claudio Ribeiro, especialista nos estudos de religião e juventude, que reflete sobre a proposta evangelizadora do atual papa para a juventude, à luz dos discursos do sumo pontífice dados nas Jornadas havidas durante o seu pontificado.

Além da continuação do trabalho de Hermilo Pretto na seção Comunicação, ainda há para o leitor duas indicações valiosas na seção de Resenhas. Resta, então, esperar que o proveito de nossos ciberleitores seja excelente.

Dr. Afonso Maria Ligorio Soares Editor-chefe

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