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Editorial

Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Medellín e os apelos da realidade 50 anos depois
05/05/2018

Três anos após as celebrações do jubileu do Vaticano II em 2015, a Igreja católica na América
Latina celebra os cinquenta anos da Conferência de Medellín. A II Conferência do episcopado
latino-americano visou precisamente recepcionar o grande Concilio no continente, quando sua
chama brilhava com imenso fulgor e a história de nossos povos clamava por uma palavra de esperança e solidariedade, tendo em vista as condições de pobreza e opressão política em que se encontravam.
O momento urgente do continente oferecia as interrogações e os desafios que viriam dar
às orientações conciliares um chão concreto de aplicação, assim como uma chave de leitura sobre
os ensinamentos do Magistério extraordinário emanados nos dezesseis Documentos conclusivos.
Mas, era o espírito conciliar que, antes e abaixo de qualquer passagem escrita desses Documentos,
que soprava no episcopado qual novo pentecostes. O Concilio havia, de fato, desenclausurado o
episcopado continental; nos anos após a conclusão da grande assembleia, as Igrejas latino-americanas conheceram tempos de renovação como nunca dantes em suas histórias; elas foram também
adquirindo rosto concreto como Igrejas locais, povo de Deus, comunhão de diversidades e como
sacramento do Reino na história.

As sementes conciliares foram lançadas pela II Conferência na fidelidade ao aggiornamento
desejado por João XXIII, desde que concebera “qual flor de inesperada primavera” a realização de
um Concilio Ecumênico para a Igreja. Visto pelo mesmo Papa como um “novo pentecostes”, o
evento caminhou pelas estradas do novo, exigindo dos padres conciliares uma verdadeira conversão,
tanto nas ideias quanto nos métodos de trabalho. Os percursos previamente planejados pelas
Comissões pré-conciliares, sob o comando central, do Cardeal Alfredo Ottaviani, homem forte
da Cúria Romana, foram rejeitados desde as primeiras sessões. Era necessário começar de novo e
caminhar como que no escuro, tendo como luz “a Palavra que faz novas todas as coisas” e como
chão o mundo moderno com todos os seus dramas. O processo conciliar foi obra colegiada dos
bispos ali presentes. Nesse sentido, como muitos padres conciliares testemunharam, as quatro
sessões gerais do Concílio foram uma verdadeira escola para seus participantes. Ali aprenderam
de novo, não somente o que era a Igreja, mas, também a ser Igreja, como comunhão de diversidade, como povo de Deus a caminho e como sinal do Reino de Deus na história. É desse aprendizado
fundamental que a II Conferência bebeu e ofereceu ao continente como vinho novo.

No corrente ano, cinquenta anos depois, a memória de Medellín tem sido feita por especialistas
no assunto, aliás, tornado presente mais como objeto acadêmico do que propriamente
eclesial. Muitas obras foram escritas, seja na forma de coletâneas, seja por meio de Periódicos. A
pergunta pelo significado de Medellín no passado e no presente deu o tom das reflexões diversas
e provocou o resgate de posturas e de questões teológicas, eclesiais e políticas. Medellín ainda
vive como memória perigosa para muitos. Porém, se no passado significou perigo para as elites
dominantes e, sobretudo, para os poderes tirânicos, hoje parece significar para muitos sujeitos
e grupos dentro da própria Igreja. A Igreja dos pobres, a denúncia das injustiças e as convocações
dos cristãos à luta por libertação de todo tipo de opressão ainda permanecem urgentes e,
em certa medida, urgentes tanto quanto naqueles tempos de poder tirânico hegemônico nos
países do continente. Não tempos mais ditaduras naqueles moldes de alta intensidade, mas estamos
submetidos a processos de dominação que continuam tolhendo as liberdades e, de modo
eficiente, escondendo as explorações dos ricos sobre os pobres. É bem verdade que o que hoje
chamamos “ricos” adquiriu uma dinâmica sistêmica e global. Vivemos a tirania de um poder
do dinheiro que não tem mais demarcações de espaço e, a rigor, demarcação individual. Alguns
poucos comandam mundialmente um sistema financeiro de dinheiro que gera dinheiro e que,
sequer, ousa investir na produção. As dinâmicas de vida locais se submetem pela via política e
pela via do consumo a esse grande sistema e dele participam em graus distintos, porém todos
perversamente incluídos.

Fora desse sistema não há mais mundo possível, vida possível, comércio possível, política possível, felicidade possível!! Onipotente e onipresente o poder do dinheiro exige submissão e participação de todos. Na lógica do lucro que promete prosperidade econômica, estabilidade política e felicidade individual, esse sistema entrou na alma das nações, dos poderes instituídos e na própria alma humana. O mercado que se isolar localmente estará condenado à inanição, o Estado que se insubordinar se desmoronará como castelo de cartas e os indivíduos que o rejeitarem pagarão preço de voltar aos modos de vida paleolítico.

Mas, o Brasil está entrando no território obscuro de uma era histórica, fruto mais perverso dessa conjuntura mundial. A conjuntura local que se desenha de agora em diante desafia as utopias e valores modernos e a esperança mais genuinamente cristã: os valores da liberdade, da igualdade, da justiça social, do respeito ao diferente, da paz social, dos direitos humanos etc. Numa única palavra cristã: do amor ao próximo e da rejeição do ódio. Para uma parcela significativa da população o político liquidificou-se em tal grau que já não se diferenciam sequer ditadura e democracia. Os valores se relativizaram a ponto de não se distinguir o ódio da paz e a cultura comum legitima como normal a discriminação, a intolerância, a vingança, os discursos de morte em massa.

A barbárie legitimada por ações políticas odiosas, por concessões ilimitadas do judiciário e pela rotinização dos discursos violentos diuturnamente repetidos nas mídias sociais, anunciam seus efeitos imprevisíveis. Quem nos salvará do caos social e político? As regras do mercado financeiro mundializado e concentrado nas mãos de sujeitos corporativos ocultos ditarão de forma tirânica os rumos e as estratégias do novo governo eleito como salvador do país decadente. As ilusões dos pobres e dos ricos convergiram-se entusiasticamente para um personagem comum, embora sendo ele nitidamente ultraliberal na perspectiva econômica e segregacionista nas posições políticas. A cegueira moral não somente mostrou sua existência, como avançou com sua moléstia, na medida em que o processo eleitoral avançou. Embora o quadro político contrastasse cada vez mais dois projetos visíveis a olho nu nos discursos que eram pronunciados e, por conseguinte, oferecesse uma dicotomia de fácil discernimento ético, o relativismo predominou até mesmo em instâncias políticas e eclesiais. Parcela significativa dos cristãos aderiu aos discursos de ódio sem qualquer confronto com o fundamento mais elementar da vida cristã: o amor. A rotina da história trará de volta as condições de exercício de uma consciência ética cristã? Ou, as redes sociais continuarão ditando as regras como magistério da verdade? O tempo depura as lendas e as ilusões quando essas são confrontadas com a realidade concreta, a começar pela mesa dos pobres e o bolso da classe média. Mas, antes que os desgastes do poder revelem as fragilidades dos projetos e das promessas, a fé cristã permanece viva e operante, como parâmetro de discernimento e orientação de vida para os seguidores do Mestre que revelou a sacralidade do próximo e, de modo sacramental, dos pobres e sofredores.

E nesse mundo eticamente desmontado que o carisma de Medellín tem sua densidade e sua realidade, bem como, seu anúncio profético-utópico da civilização do amor. Todo carisma tem força de dom que fecunda o novo e desfaz o velho. Os profetas vêm para derrubar e edificar com seus anúncios carismáticos. Aliás, todos eles vivem da missão de criar o novo, mesmo quando tudo se anuncia como regular e feliz. O carisma é o anuncio que se instaura em uma conjuntura que o tronou viável e encontra acolhida precisamente na crise se estampa em uma determinada situação. Ele pode ser uma oferta que liberta ou que conduz a crise para patamares ainda mais agudos, mesmo que prometendo salvação. Os políticos mais autoritários emergiram como salvadores da pátria. Os líderes religiosos fanáticos se apresentaram como portadores da salvação segura e imediata aos seus adeptos. Os verdadeiros e os falsos profetas são personificações dessa ambiguidade do carisma. É preciso, por essa razão, discernir os carismas com seus portadores. Quando os discípulos de João Batista para perguntar se Jesus era , de fato, o Messias – se seu carisma era verdadeiro – ele deu a senha do discernimento: aos pobres é anunciada a Boa Nova (Mt 11,5). Os desvalidos da história expõem com seus gritos por vida mínima as injustiças que reinam no mundo e ensinam que somente partindo deles se pode fazer a verdadeira justiça. Enquanto houver pobres e excluídos haverá justiça a ser feita.

A II Conferência oferece um carisma vivo a ser discernido nos dias de hoje, para que se evite o fundamentalismo literal – que fixa a verdade no texto e não permite avançar para além dele na busca de um sentido de fundo – ou histórico – postura tradicionalista que entende a verdade como ligada a uma determinada temporalidade a ser eternamente preservada. A justiça para com os pobres oferece o cerne vivo daquele carisma que pretende ecoar nos tempos atuais. Os pobres vinculam a história a Jesus e Jesus a Deus; são os lugares teológicos indispensáveis para se falar em justiça evangélica, em Igreja discípula e missionária de Jesus Cristo, em ética cristã e, até mesmo, em ética laica, segundo o princípio clássico da justiça distributiva que reza: dar desigualmente aos desiguais. A opção pelos pobres institucionalizada como imperativo evangélico em Medellín e retomada com toda força profética por Francisco estabelece o critério primeiríssimo de discernimento da verdade cristã. Os textos da II Conferência podem ter caducado em muitos aspectos: nos dados numéricos ali subjacentes, na conjuntura econômica, social e política com a qual interage, na compreensão analítica da realidade, nas ações concretas que foram propostas etc. No entanto, restou-lhe o mais fundamental: Deus e os pobres. Por conseguinte, restou o espírito da justiça para com os pobres com o mesmo vigor, com o mesmo apelo e com a mesma urgência daqueles tempos de então. Esse é o espírito de Medellín que continua vivo porque vem do coração do Evangelho e do coração da realidade. O imperativo ético da opção pelos pobres, opção que “nenhuma hermenêutica eclesial tem direito de relativizar”, grita Francisco (EG 194 ), torna-se imperativo hermenêutico que faz o discernimento da atualidade do texto de Medellín. A partir dele, as orientações da Conferência de cinquenta anos atrás, passam pelo teste evangélico do conhecimento de Deus presente nos excluídos, nos pobres e nos sofredores.

É verdade que o processo de globalização mudou radicalmente o mundo desde 1968. Os próprios pobres foram incluídos de modo diferente no processo de produção e de uso das riquezas; estão perversamente incluídos e quase sempre iludidos pela satisfação imediata do desejo de consumir para ser mais feliz e, até mesmo, para sentirem-se cidadãos. No entanto, o mecanismo de exploração do mercado atinge multidões no planeta e se impõem por meio de seus objetos sagrados de devoção: os produtos renováveis incessantemente com uma promessa nova em cada formato mais belo, mais eficiente e mais verdadeiro que vão endo oferecidos, qual fruto que ao ser comundo nos torna plenos: iguais a Deus. O drama do Paraíso terrestre permanece atuante nos paraísos do consumo que cooptam os desejos humanos para comerem dos frutos agradáveis aos olhos e ao paladar. O drama dos pobres adquire nessas seduções performances paradoxais, quando o necessário e o supérfluo, já não são mais distinguidos na luta diária da vida que deve escolher entre viver e morrer.

De fato, temos hoje os pobres que morrem de forme e os que morrem de tanto comer mal; são eles que perfilam os números das populações mais obesas nas periferias das cidades e que terminam nas anunciadas moléstias. São também os pobres os principais consumidores dos produtos das chamadas marcas falsas que alimentam os mercados do contrabando e os grandes mercados produtores. Estão entre os mais pobres os prestadores de serviço ao mercado das drogas que guardam seus lucros no Banco dos ricos do mundo financeiro; também dentre os pobres são condenados esses mesmo traficantes internacionais que arriscam suas vidas fazendo o serviço sujo e consumindo suas vidas nas prisões. O mundo assiste hoje à produção de outros pobres que são expulsos de seus países por causas econômicas e políticas e somam a cada dia o crescente número de migrantes e refugiados que ficam largados nos acampamentos ou pede asilo em terras estrangeiras.

Medellín, por certo, não explica esses pobres, mas os indica como rostos concretos que clamam por libertação. Os mecanismos que geram a pobreza estão muito mais sofisticados e complexos, porém permanecem os mesmos: a ganância como origem desses males de todos os outros, o pecado social que configura a situação de injustiça agora em cores cinzentas. O individualismo é o nome mecanismo gerador – egoísmo, hedonismo, narcisismo – e o relativismo a justificativa que tudo acomoda na rotina de um bem-estar vivenciado por poucos ou desejado por todos.

O Papa Francisco insiste que devemos dizer não a tudo isso. Não ao hedonismo, não á idolatria do dinheiro, não à indiferença. A Boa Nova do Evangelho tem suas consequências proféticas que gritam contra aquilo que se impõem como valor e prática hegemônicos. Gritar a favor dos pobres é loucura para todos: para os ricos e para os pobres. A prosperidade assume o comando da vida social e religiosa. Ter mais, ou parecer ter mais, tornam-se sinônimos inequívoco do ser mais.

Assumir o espírito de Medellín com o comando profético de Papa Francisco constitui hoje uma tarefa que, por certo, exige antes de tudo uma aposta de fé em Jesus de Nazaré, pobre com os pobres, antes de conseguirmos a ferramenta analítica capaz de decodificar com total clareza os mecanismos econômicos atuais, por demais complexo e hegemônico, antes de possuirmos as ferramentas políticas de enfrentamento eficaz, onde tudo se torna líquido, como explica Bauman e antes de contarmos com um sujeito social, político e religioso que possa protagonizar uma grande transformação. Em outros temos, o mundo não vai mudar tão logo suas estruturas e mecanismos; continuará expelindo para além de sua lógica os que forem desnecessários à sua perpetuação (pessoas, culturas, países) e continuará seduzindo os devotos da felicidade total com seus produtos sempre novos. Para essa lógica, o Evangelho nunca foi tão desnecessário e será rejeitado como equivoco de ignorantes, como ética ultrapassada e como coisa de comunistas. A boa notícia dos produtos renováveis e carregados de promessas de felicidade que chegam aos indivíduos, às famílias e a nações inteiras pelas muitas mídias de tempo real se impõem como valor e regra para todos. Fora do consumo não há salvação! Não há caminho, verdade e vida! Do outro lado da mesma moeda pode-se dizer: fora do mercado financeiro não há política possível. Fora dessa universalidade não há localidade possível. Contudo, para os que creem e, até mesmo para os que creem unicamente em mundo novo possível, os valores transcendentes (utópicos) do Evangelho se mostram como finalidades éticas que podem referenciar a critica da situação atual e alavancar novas direções para a humanidade nesse momento de crise histórica global.

Viver Medellín na igreja de hoje é resgatar seu espírito e sintonizar-se com Francisco. A igreja pobre, servidora e sinal do reino na historia coloca-se necessariamente em saída. Entre o Reino e o mundo, a Igreja se apresenta como grandeza relativa que não existe por si mesma e nem atua para si mesma. A serviço do Reino (da salvação oferecida por Deus no hoje da história) e dos seres humanos (de modo particular dos pobres), a Igreja caminha como peregrina e como provisória, como comunidade de aprendizes permanentes e como organização que sempre se renova. O Papa Francisco resgata essa eclesiologia tão básica e simples e, ao mesmo tempo, tão nova e desafiante. Medellín deu a ela concreticidade e operacionalidade. Francisco a assume como programática e como projeto para toda a Igreja. E desse lócus eclesial lança suas reformas para a cultura católica, para a moral e para as estruturas eclesiais. Trata-se, evidentemente, de uma reforma em pleno curso. Com efeito, nem o papado e nem a teologia dele emanada são mais as mesmas, se comparados com as posturas e métodos dos Papas anteriores. Os efeitos dessa reforma ágil, corajosa e profunda das ideias ou da cultura católica, se fazem ver não somente em seus Documentos pessoais, mas também em documentos produzidos por Dicastérios da Cúria Romana. Nesse sentido, os Dicastérios não são mais os mesmos; ao menos alguns deles revelam uma nítida mudança de rumo em seus posicionamentos teológicos. Os efeitos Francisco vão tornando-se visíveis desde o centro administrativo curial, ainda que não se mostrem tão visíveis nas cúrias locais. O aparelho geral da Igreja permanece o mesmo com suas estruturas e funções canônica e administrativamente consolidadas. As mudanças de mentalidade podem provocar as demais mudanças, no ritmo possível da historia um tanto lenta da Igreja católica. Como ensinam os tempos passados, as mudanças chegam sempre atrasadas na alma e no corpo da Igreja. O Vaticano II acolheu a modernidade com déficits de séculos, embora não tenha provocado, de fato, mudanças estruturais no corpo eclesial. Hoje, em tempos de história rápida, quando as ideais e os processos são acelerados pelos meios tecnológicos, as mudanças da Igreja tendem a chegar muito depois. A vivência do valor-tradição, inerente ao ethos católico, resiste ao novo com certa naturalidade e, com frequência, com medo e resistência política e teológica. A era Francisco tem permitido rever o passado e provocado maior agilidade na produção das ideias dentro da Igreja. Estamos diante de um pontificado veloz que avança pra frente e em várias direções na busca do novo que brota permanentemente do carisma do Evangelho e dos clamores da realidade. Os 50 anos de Medellín significam um marco que contribui com a sedimentação das renovações franciscanas e com a recuperação dos elos históricos que compõem a vivência eclesial latino-americana daquela data até nossos dias. Entre Medellín e Francisco a historia eclesial do continente e, agora também universal, adquire uma coerência de significados ainda maior, tendo como eixo fundamental a opção pelos pobres. O que era fragmentado e polêmico eleva-se como legitimo, o que era descontínuo se expõe como contínuo e o que era local se universaliza. Francisco religa os fragmentos da Igreja pobre e para os pobres em uma interpretação clara e firme de que a Igreja está situada entre a história concreta e a Boa nova de Jesus Cristo, entre o mundo e o Reino, entre os excluídos e o Cristo encarnado, entre a materialidade e a espiritualidade, a contemplação e a ação.

O número atual de Ciberteologia dedica-se de modo especial ao que tema que propôs o titulo do editorial: Medellín e a realidade atual. A conversa começa pela realidade atual. Os gritos da realidade atual ecoam os clamores por justiça e liberdade que se faziam presentes naquela II Conferência há cinquenta anos. De novo, não somente o grito dos pobres ecoa como parcela excluídas da mesa do mundo, mas também daqueles que anseia por liberdade no exercício da cidadania, das profissões e da livre expressão. A conjuntura atual revela, sem dúvidas, um regurgito autoritário da história, embora o processo que se instaura, desde então, já na esfera das possibilidades políticas e institucionais, é que dará o rumo real das ideias norteadoras da campanha eleitoral. A governança concreta impõe, evidentemente, seus limites às ideias demolidoras do novo governo. E as organizações da sociedade civil estão mais do que nunca desafiadas à vigilância e à mobilização numa resistência comum em prol do humanismo: a dignidade e a igualdade dos seres humanos. Aqui se encontram os defensores das luzes modernas e dos valores cristãos fundamentais.

Sem prognósticos seguros, os Artigos referentes à conjuntura oferecem elementos que permitem ampliar e aprofundar a compreensão da realidade atual, ainda marcada pelo imprevisto dado político da emergência da extrema direita no poder. O primeiro deles interroga sobre o que nos aguarda no futuro. O segundo apresenta dados e reflexões sobre a participação dos evangélicos na eleição do atual presidente. Os Artigos referentes à Conferência de Medellín resgatam três aspectos da Segunda Conferência: o significado atual dos ensinamentos da 2ª Conferência, a espiritualidade de Medellín e a questão da vida religiosa. A seção de temas avulsos completa o número com reflexões afins a essas temáticas, oferecendo um resgate do pensamento de Dom Paulo Evaristo Arns e uma reflexão sobre a sinodalidade no Papa Francisco. Esses dois gigantes da Igreja foram e são testemunhos vivos dos ensinamentos de Medellín no contexto atual. O último Artigo apresenta uma temática pouco conhecida entre nós sobre a chamada “teologia comunicativa”. Na seção notas três textos marcam presenças com distintas questões que permanece fazendo ecos na Igreja e na sociedade: informações sobre um estudo sobre o Papa Francisco, reflexões sobre a Encíclica Laudato Si’ e um ensaio sobre a Padroeira do Brasil. O leitor poderá ainda acompanhar informações recentes sobre fatos e documentos atuais nas Seções Documentos, Saídas e Fronteiras e Observatório. A seção Documentos oferece informações preciosas sobre os participantes da Conferência de Medellín, apresentando um elenco inédito de vários sujeitos que protagonizaram aquela emblemática assembleia. Nossos agradecimentos ao teólogo Prof. Fernando Altemeyer Junior por disponibilizar esse laborioso levantamento, sem dúvida, de singular relevância histórica.

Ciberteologia continua sua marcha como meio de divulgação acadêmica e de produções
culturais em nosso país. Permanece fiel à missão de informar e oferecer parâmetros éticos a seus
leitores. Oxalá ajude os leitores e discernirem os fatos históricos nessa fase política nacional e
os cristãos a fazerem a leitura dos Sinais dos tempos, como reafirmou a Conferência de Medellín.
“O tempo é superior ao espaço!” (Papa Francisco).

João Décio Passos - Editor

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