EDITORIAL

Esta é a primeira edição de 2014, a um ano da renúncia de Bento XVI e da eleição de Francisco, o Papa que veio dos confins do mundo (na perspectiva dos europeus) e, desde então, tem sido um dos principais responsáveis (infelizmente, poucos) da enxurrada de vento novo que vem (re)despertando e desafiando vários setores do cristianismo católico a repensarem suas práticas e suas concepções teológico-espirituais. Enquanto aguardamos novos desdobramentos desse Vento nas respectivas igrejas locais, unimo-nos ecumenicamente às demais igrejas cristãs para pensar e compartilhar a produção teológico-pastoral brasileira e, assim, participar como protagonistas deste novo momento.


Nesta edição, três Artigos nos oferecem distintas perspectivas de análise dos desafios eclesiais contemporâneos. O pastor Alonso Gonçalves, em Uma espiritualidade sem igreja: a emancipação institucional e o surgimento de novas experiências religiosas, após admitir que o tema da espiritualidade é objeto de intensa discussão em diversos meios (empresas, mídia, congressos, igrejas e inúmeros eventos), tenta compreender as possibilidades do tema, bem como observar algumas experiências religiosas, tendo como foco a concepção de emancipação institucional presente em certos segmentos do universo evangélico.


No artigo Futuro de Deus e missão da esperança, o leigo católico, professor da PUC-Rio, Cesar Kuzma, apresenta-nos uma introdução à sua tese doutoral, recentemente premiada na edição 2013 do Prêmio Soter-Paulinas, cujo escopo foi estudar a Teologia da Esperança de Jürgen Moltmann, em aproximação com a Teologia Latino-Americana da Libertação, em uma perspectiva escatológica. O autor vem pesquisando há anos a relação entre essas duas teologias, mostrando os elementos de diferenciação que lhes são específicos. A novidade aqui foi ter encontrado entre elas pontos comuns e convergentes que respondem aos anseios e desafios do contexto atual. Sua intenção é oferecer um estudo aproximativo, acentuando aspectos que valorizem um novo discurso escatológico da esperança em tom também libertador. Para o autor, toda “esperança é libertadora” e “toda teologia que se quer da esperança é da libertação, e toda teologia que ser quer da libertação é da esperança”.


Finalmente, apresentamos ao público brasileiro um autor que vem da famigerada cortina de ferro, dos tristes tempos da guerra fria. Tomáš Halík nasceu em Praga (1948) e é formado em Ciências Sociais e Teologia. Sob a “cortina de ferro” trabalhou como psicoterapeuta e, na clandestinidade, como presbítero, tendo sido assessor do cardeal Tomášek, figura emblemática da chamada “Igreja do Silêncio”. Foi secretário-geral da Conferência Episcopal Checa e atualmente ensina Sociologia e Filosofia da Religião na Universidade Charles, em Praga. Atuou como consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não Crentes e hoje é membro da Academia Europeia da Ciência e da Arte. Dele trazemos uma introdução à obra Paciência com Deus, que, em breve, será publicada por Paulinas Editora no Brasil. Segundo Halík, em vez de mapa do céu, o Evangelho é gramática que interpreta o mundo. Assim ele explica o Cristianismo: como hermenêutica das luzes e sombras da vida, que tem na paciência sua grande regra. Paciência que não é virtude moral, mas atitude intelectual: perante os paradoxos da vida há que suster o juízo e dar tempo para que a verdade aí escondida se possa revelar. O Jesus de Halík é um “mestre do paradoxo”. E o Cristianismo, o lugar onde o dramático paradoxo do Deus revelado e oculto se esclarece, embora não se dissolva. Ele sugere ser o Cristianismo a perspectiva que possibilita viver o paradoxo. Não promete eliminá-lo; apenas, com paciência, percorrer com todos os Zaqueus essa dura e incontornável faceta da vida. Vale a pena ler o que Halík tem a ensinar aos cristãos brasileiros.


Na seção de Notas, três colaborações. Rafael Alberto dos Santos Maia, em O significado do amor: uma comparação contemporânea e teológica de sua ocorrência e significados, traz uma reflexão sobre a posição fundamental e essencial na vida humana que é ocupada pelo amor, pois o homem, de certa forma, é um ser incompleto se não consegue sentir ou praticar este sentimento. E tenta oferecer uma explicação das funções do amor nestas três áreas de conhecimento: física, emocional e espiritual. Para Maia, “pode-se dizer que Deus quer pegar o que o homem compreende por amor e transformá-lo em uma virtude que não está limitada a um simples sentimento momentâneo”, mas extrapola na direção da “profundidade” de Deus.


Robson Stigar, por sua vez, objetiva, em A concepção de religião para Feuerbach, apresentar questões centrais da filosofia feuerbachiana, ainda hoje, segundo o autor, “um pouco desconhecida e fortemente marcada pelo seu tempo”, mas que possui seu lugar na filosofia e na antropologia. As teorias de Feuerbach encontram respaldo na atual sociedade contemporânea, onde a pessoa humana passa a buscar um Deus celestial, um Deus humano no outro, pois hoje o ser humano reconhece que Deus é a caracterização divina de suas virtudes.


Fechando a seção, Vanessa R. M. Ruthes anota, em O conceito de lei natural na teologia paulina, que, nessa teologia, a temática da Lei constitui um dos temas centrais. Contudo, para compreender a base epistemológica de Paulo é necessário, diz a articulista, ter em mente que em sua formação recebeu influências tanto judaicas quanto helênicas. Ele nasceu em Tarso, na Diáspora, lugar de sincretismo entre estas culturas e foi educado “aos pés de Gamaliel na observância exata da Lei” (At 22,3). Portanto, entenderá a lei em dois sentidos, um estritamente judaico e outro influenciado pelo helenismo, a saber: a Lei veterotestamentária e a Lei natural. Mas, para poder efetivar essa distinção e compreender o lugar que ocupa na Teologia paulina, é necessário entender o evento de Damasco e seus desdobramentos nas convicções centrais e no esquema soteriológico estruturado pelo apóstolo. Tal é a proposta desta Nota.


Esta edição traz ainda duas resenhas, de Ângelo Vieira da Silva e Osiel Lourenço de Carvalho, respectivamente, sobre os livros: Raízes da teologia contemporânea (de Hermisten M. P. da Costa) e Pastoreio e compaixão: uma contribuição à pastoral urbana a partir da teologia pública (de Gabriel Natanael; Alonso Gonçalves), além da seção Teologia Aberta.


Boa leitura!
Dr. Afonso M. L. Soares - Editor

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