EDITORIAL

A região amazônica tem sido objeto de preocupação mundial, ao menos desde que a consciência ecológica emergiu como um dado histórico, antropológico e ético na espécie homo sapiens espalhada pelo planeta e protagonista da civilização do progresso. Trata-se de uma consciência muito recente, porém fundada em dados reais, em teorias consistentes e em ações organizadas.

Entre mitos e realidade, a Amazônia tem sido objeto de atenção dos que se preocupam com a vida do planeta. Como tudo que envolve mudança e aquisição de novos valores, a consciência ecológica confronta o velho com o novo, a estabilidade com a transformação, o coletivo com o individual. De fato, a consciência ocidental do conquistador (eu conquisto) ainda comanda os comportamentos globais e locais, desde seu epicentro europeu, do lugar ampliado do hemisfério norte, da base material do capital globalizado etc. Essa consciência consolidada cultural e politicamente subjaz como pressuposto que resiste às mudanças de modelo de civilização nos quadrantes do planeta. Por certo, os povos originais dessa região amazônica deverão ser colocados fora desse pressuposto histórico dominador, uma vez integrados ecologicamente nesse vasto mundo sempre se entenderam como inseparável dele e, às suas maneiras e com suas possibilidades, se mostraram responsáveis por ele. O antropocentrismo moderno – ocidental, branco, europeu, macho, iluminista, capitalista e, em certa medida, judaico-cristão – demarca, de fato, uma etapa da marcha histórica da espécie que afirmou cada vez mais a superioridade do ser humano sobre a natureza e entendeu a terra como uma fonte de recursos inesgotável e disponível a quem dela pudesse se apropriar com mais poder e eficiência. Posicionados historicamente fora desse sistema ou no reverso dele, os nativos da grande Amazônia podem, por certo, recordar aos sujeitos da racionalidade ocidental como viver integrados na natureza e respeitá-la como grande mãe. Romantismo para os lógico racionais. Delírio para os realistas políticos. Perigo para os donos do capital.

Ainda que o processo de urbanização tenha seduzido os povos originais da Amazônia na mesma medida que em outras partes do planeta, a floresta ainda é considerada o habitat primeiro, espaço que oferece vida sob todos os aspectos; lugar das raízes e do retorno permanente, paraíso ameaçado e resistência cultural. De modo semelhante aos nativos, os ribeirinhos que ali se alojaram há alguns séculos vivem das ofertas da floresta, padecem de seus desafios climáticos e sanitários e exibem uma genuína cultura da floresta. A dinâmica da conectividade ainda se faz ver na grande Amazônia de modo emblemático: água-floresta-alimento-povos-trabalho-símbolos formam um sistema que, mesmo em permanente ameaça pelo éthos dominador ocidental mundializado, resiste como amostra do que a humanidade perdeu ou corre o risco de perder por completo.

A Amazônia já integrada na civilização revela de modo emblemático a encruzilhada em que se encontra a humanidade entre o avançar ou o moderar o progresso, entre o preservar e o explorar a natureza. A cultura urbana globalizada – padrões de consumo, tecnologias de comunicação, valores religiosos – chegou ao grande deserto verde. Os povos vivem a tensão entre as seduções da floresta e da cidade, das ofertas gratuitas da natureza e das ofertas da mercadoria, da tradição local e da informação global. O mundo amazônico emblematiza o resto que sobrou da dominação econômica do planeta, na floresta natural, nas águas limpas e nas culturas locais.

É também o mundo que habita como ícone a consciência ecológica que enfrenta a onipotência do poder econômico qual Davi enfrentando o gigante Golias. É nesse sentido que o Documento de trabalho fala da Amazônia como um novo sujeito que clama para o resto do planeta. Esse sujeito frágil debate-se contra um império mundial que hoje em dia se mostra em sua máxima prepotência, sem requintes de linguagem e sem escrúpulos civilizados.

A história da terra e as ciências da terra, hoje mais conhecidas do que em um passado recente, têm ensinado a perceber como os ecossistemas integrados ao sistema maior do planeta azul, são fundamentais para o equilíbrio do conjunto e para a perpetuação da vida. A Amazônia, situada entre as cordilheiras e o atlântico, alimenta as nuvens que são distribuídas pelo continente afora, a partir de um caminho regular que trilham do leste para o oeste, do norte para o sul. Nesse circuito estão inseridos o cerrado – pote que fornece água para uma grande parte do Brasil – o semiárido como caminho de passagem e a própria floresta tropical. E as conexões mais amplas dos ecossistemas com o planeta como um todo podem ser descritas. Nada está isolado.

A Amazônia é nada mais que uma parte do sistema terra, parte caracterizada pelo metabolismo de um produto essencial: a água. No sistema-terra atual constitui uma parte essencial, sem a qual a terra seria, provavelmente, outra coisa e, com certeza, com outras espécies sistemicamente geradas por suas endogenias biológicas no decorrer de milhões de anos. Na terra que temos e que somos a Amazônia é uma parte integrante. Nesse sentido, afirmar a relevância desse ecos sistema localizado na América do Sul, de 7,5 milhões de quilômetros quadrados, habitado por milhões de espécies vivas, com mais da metade das florestas tropicais do planeta, administrado por 9 países, tomada pela maior bacia hídrica do planeta é, sim, afirmar uma parte essencial – como todos os ecossistemas, evidentemente – da vida planetária que clama por sobrevivência em meio ao progresso sem limites.

Os delírios dos racionalistas autocentrados – cartesianos irrecuperáveis – e a cegueira do poder econômico – libertinos supramorais – se negam a ver essas evidências ecológicas. A escalada do domínio do ser humano – de alguns donos do poder econômico – não pode conhecer limites. Trata-se de um projeto que parece reger pela regra: é melhor perecer saciado! Quem são os loucos e os delirantes?

A emergência da consciência ecológica, etapa recente da consciência histórica do sujeito moderno, se inscreve na semântica basilar do homem ocidental: na escalada civilizacional que avança de uma visão e práxis cosmocêntricas, firma-se na autonomia crescente de compreensão e domínio da natureza e da história – percepção antropocêntrica – e chega, agora, ao liminar de uma consciência nova que capta a dimensão integradora de todos os seres com o conjunto da vida chamado terra. Essa escalada não está, evidentemente, concluída, mas parece ter atingido um patamar decisivo para o futuro da espécie. Será a última etapa do progresso da consciência humana? Do ponto de vista escatológico – seja qual for a escatologia – a resposta é negativa. O ser humano caminha para a consciência plena de si mesmo e essa será concretizada quando for confrontado com a Verdade total. “Agora conheço apenas em parte; mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido” (1Cor 13,12). Na perspectiva religiosa cristã da singularidade individual de cada pessoa, a consciência é um dado transcendente imortal que atingirá seu ponto final na eternidade. Por ora tudo é provisório, inclusive nossa percepção e formulação das coisas e de nós mesmos. Contudo, a escalada da humanidade atingiu um ponto decisivo: não poderá haver recuos. E isso não somente porque a história é irreversível, mas porque a fase demográfica, econômica, tecnológica, política e cultural da humanidade indica que a gestão planetária sustentável é condição de continuação das espécies vivas e, dentro dela, do próprio ser humano. A consciência dessa conjuntura poderá ser a fase final do amadurecimento da espécie.

Dessa consciência plena, a espécie depende sua perpetuação. Ou a consciência ecológica será capaz de gerar uma nova civilização, ou a falência geral do sistema terra avançará para a aniquilação final. Mas, se tudo der certo, o que viria após a consciência ecológica planetarizada? Que modelo de produção e de gestão política global emergirá dela? Que tipo de humanidade será viável? De qualquer forma, parece que estamos na encruzilhada mais crucial do processo civilizacional que trouxe a espécie até aqui. A globalização da consciência ecológica se impõe ao ser humano como etapa imprescindível de sua evolução. Eis o desafio de uma conversão planetária que envolverá sujeitos e sistemas inteiros. Parece desenhar-se a última cruzada da humanidade: entre os sujeitos ecológicos e os sujeitos econômicos. A terra de todos ou a terra de alguns? A aniquilação ou a perpetuação?

Mas, voltemos à Amazônia. Esse órgão vital do planeta quer ser a narrativa alarmante da vida planetária. O grande resto da natureza que emite uma mensagem de vida para todo o planeta e não somente para os países que detêm seus territórios e administram suas fronteiras.

Costumam falar não sem razão em “pulmão do mundo”, em reserva aquífera planetária. Para além da veracidade material e geológica dessas afirmações, elas indicam para algo mais urgente: para a consciência da sustentabilidade planetária. A mensagem ecológico-profética é como aquela de Jeremias e Isaias que falam do “resto de Israel”, do qual Deus reconstituirá o seu povo (Is 10,20-22; Jr 31,1-14). A Amazônia é o resto que ainda sobra da modernidade tecnocrata e que chama a atenção dos sujeitos, dos povos e nações sobre o significado da vida comum e sobre a urgência da responsabilidade planetária para com o futuro do planeta. O grito profético a ser construído pelos profetas críticos e utópicos é precisamente sobre o futuro possível para o planeta, condição para a continuação da vida. As feridas da devastação hão que ser sentidas na sua dor real por todos os povos, haverão de despertar o pavor nas consciências e de transformar gemidos da natureza em gritos coletivos e esses, por sua vez, em posturas políticas. A Amazônia é o anúncio ainda em tempo do perigo da devastação final; é a denúncia da ganância do poder econômico; é a convocação de todos ao cuidado da casa comum. Por certo, o papel mais fundamental desse Sínodo será o de construir essa narrativa do novo que se pode construir a partir do resto, do utópico que enfrenta o realismo do mercado que não pode frear sua lógica de acumulo incessante. A Amazônia será um grito globalizado que enfrentará as elites econômicas planetárias a partir dos sujeitos que já se puseram a construir o Sínodo, antes que acontecesse a Assembleia em Roma; será a voz da natureza e dos povos sem voz ecoada para toda a terra.

O Sínodo da Amazônia foi e tem sido boa notícia para muitos e má notícia para outros. Nada de novo em termos de profecia. A nova razão do mundo, estruturada e funcionalizada, pelo capital financeiro de um lado e pelo consumismo de outro, construiu um sistema perfeito de integração da alma humana com os mecanismos da produção incessante, mediante o consumo, de integração da gestão do Estado com a gestão econômica do capital mundializado, de integração das empresas com o capital financeiro. Para essa racionalidade onipotente e onipresente, todo discurso destoante será sempre má notícia. A ultradireita política hoje mundializada recebe o Sínodo como desvio do papel da Igreja, como coisa de comunistas culturais e como uma heresia para a ordem perfeita dominante. As redes sociais utilizadas pelos grupos católicos alinhados a essa tendência política bradam suas verdades contra tudo o que for contra o capital mundial, utilizando-se de um certo discurso religioso. E já nem disfarçam suas teologias políticas; ao contrário, afirmam explicitamente que a Igreja precisa apoiar as frentes políticas de direita, autênticas defensoras da genuína tradição cristã. O grande inimigo universal, o comunismo, há que ser enfrentado com todas as armas. Esse fantasma ressurgente vai tornando-se real e temido; catalisa em sua maldade intrínseca tudo o que soar contra o regime que hoje domina o planeta e submete as instituições e os valores sob seu domínio. Nesse sentido, o Sínodo tem exposto a fidelidade líquida ao Papa e ao magistério eclesial, por parte daqueles que sempre a defenderam contra todos os que falavam em renovação da Igreja.

O Sínodo da Amazônia está situado no centro de uma guerra na qual a frente contrária se mostra ambígua. Ela é: real e mítica (o regime econômico mundial contra os comunistas), presencial e virtual (a vida local com seus dramas econômicos e as redes sociais com suas notícias), verdadeiro e falso (as notícias factuais e os fake news), política e religiosa (o projeto de direita associado diretamente a símbolos religiosos). Evidentemente, essa ambiguidade própria dos discursos ideológicos, sobretudo dos que hoje são construídos na malha ágil das redes sociais, não é percebida pelos que habitam o condomínio de sua bolha social e política. No interior desse habitat tudo é verdadeiro e dispensa verificação.

A profecia do Sínodo consiste em falar sem temer a palavra, gritar a todos, mesmo sabendo que há quem não queira ouvir. O mérito social do evento é precisamente, falar a todos por suas dimensões mundializadas. Trata-se de um discurso aberto que rompe com as endogenias das bolhas sociais hoje subsistentes nas redes sociais e subjacentes às bases políticas dos regimes de direita que se espalham pelo planeta. O Sínodo transcende a prisão da verdade veiculada no jogo das notícias ágeis – falsas e verdadeiras – dos whatsApps e Facebooks. Embora seja apropriado por esses mecanismos, sua mensagem ainda fala acima e de fora desse regime de verdade; fala nas mídias clássicas e nas diversas esferas da Igrejas. Os pressupostos culturalmente estabelecidos da verdade dos donos do mundo impedem que a sociedade atual enxergue a si mesma no sistema-mundo e no sistema-terra. A voz do Sínodo instaura um círculo hermenêutico que visa romper com essa prisão de ouro centrada na satisfação do eu e do mercado, do consumo e da produção, da maior facilidade com o menos esforço. Fala do outro e do outro maior que é a terra e exige saída de cada um de seu casulo individual e de sua bolha social e política.

A Amazônia é, hoje, o grito distante da vida mais próxima de todos os vivos do planeta. É o grito da terra, do resto de suas vidas selvagens, da dignidade originária anterior ao regime dominado pelo capital, da ameaça permanente dos interesses econômicos que ignoram a preservação do meio ambiente e das comunidades tradicionais. A Amazônia acorda a memória da era perdida, a percepção da vida ameaçada e a esperança da perpetuação da vida para as futuras gerações. A natureza exuberante do imenso ecossistema preserva o que a humanidade foi: a integração dos seres vivos na mesma terra-mãe, a prodigalidade da natureza para os seus membros, a precariedade suficiente para a sobrevivência, as relações entre indivíduo e coletividade, a integração do material com o espiritual… A devastação galopante expõe a volúpia do lucro das empresas e dos sujeitos econômicos, o domínio inclemente da exploração do solo e da floresta, o desmonte das culturas locais… A esperança de que a humanidade pode seguir em frente como parte do sistema-terra vem dessa parte do mundo, reserva natural, resistência natural, patrimônio natural e projeto natural. E não se trata de simples romantismo de natureza intocável, mas de símbolo político que revela a terra pré-colonizada pelo poder tecnocrata e pela ganância econômica. A Amazônia desconcerta a onipotência e a onipresença do capital transnacional absoluto, mostrando ao mundo dos donos o mundo ainda sem donos, ao mundo do acúmulo o mundo da gratuidade, ao mundo do individualismo o mundo da integração sistêmica.

O Sínodo da Amazônia é um grito profético para todo o planeta; grito que expõe a ganância do regime do lucro e da cultura do dinheiro e do descarte. Por essa razão, tornou-se objeto de preocupação de poderes políticos. A luta entre uma perspectiva ecológica integral e uma perspectiva de assimilação econômica, deflagrou no epicentro do Sínodo as reações políticas inusitadas do governo brasileiro, ao solicitar uma participação oficial na assembleia sinodal. Mas, esse interesse alegado pela tese nacionalista de “área de interesse nacional” ou de “segurança nacional” mostrou logo seus vínculos com os interesses globais do capital, quando da proposição de um Seminário (antissínodo) a ser realizado em Roma com o apoio da direita política europeia. A contradição explícita entre os alegados interesses locais do Brasil e os interesses globais da direita política mundializada, não foi suficiente para revelar o jogo ideológico dos discursos e a franca oposição aos ensinamentos do Papa Francisco. E não faltaram nem mesmo grupos católicos que reproduziram o discurso contrário ao Papa e seus ensinamentos e a favor do domínio sem limites do capital mundial.

O Sínodo da Amazônia significa o ápice concreto dos ensinamentos sociais do Papa Francisco a respeito da casa comum desde a sua Encíclica Laudato Si’. É filho da Laudato si’, como explica o próprio Papa. E nessa casa não há mais possibilidades de pequenas reformas. O modelo econômico vigente pautado no lucro, na regra fundamental do dinheiro que gera dinheiro, deve ser superado por outro modelo que seja capaz de preservar a vida do planeta onde todos se incluem.

A mensagem não é mais de reforma da casa comum, mas de preservação de sua integridade. Por essa razão, Francisco fala em “conversão ecológica”. A casa comum representada pela Amazônia quis mostrar a todos a urgência de uma conversão sistêmica que inclui tudo e todos, os indivíduos e os povos, o econômico e o social, os desejos individuais e a inclusão do outro. Além dos apelos planetários ecológicos, econômicos, políticos e éticos o Sínodo teve um forte assento eclesiológico. A pergunta pela missão da Igreja a Amazônia esteve presente desde o início como questão chave da reflexão e, evidentemente, das deliberações. A Igreja amazônica se mostra como o ideal a ser buscado por variados meios e exige uma conversão radical dos sujeitos eclesiais, não somente os sujeitos eclesiais locais, mas de toda orbi católica e, quiçá, cristã e planetária. A Igreja em saída e missionária que busca um rosto amazônico não poderá ser a mesma que entrou no processo sinodal. Ainda que a mudança de discurso seja um dado político e epistemológico de imensa importância no pontificado atual, será necessário o avanço nos modos de ser Igreja; modos de ser não apenas por meio de práticas pastorais renovadas, mas em estruturas renovadas: novas normas, novos ritos, novos ministérios etc. Nesse ponto moram todos os problemas da renovação eclesial, desde o aggiornamento convocado por João XXIII já antes do Vaticano II. A tradução estrutural das reformas esbarra na tradição e na instituição estável e fixa que resiste em nome da fé ou da ortodoxia da fé a tudo o que exigir mudanças na organização legal e funcional da Igreja. Por essa razão, não tem faltado vozes temerosas que falam do alto da própria hierarquia eclesiástica contra os perigos iminentes do Sínodo. O perigo de renovação da Igreja permanece insistente nas almas conservadoras que habitam a hierarquia católica. Essa tendência assumirá, com certeza, a tarefa de fazer calar, esquecer ou minimizar as decisões do Sínodo, como tem feito com outros Documentos publicados pelo Papa.

Como explica a Constituição Apostólica Episcopalis communio, o Sínodo começa e termina com o povo de Deus. Portanto, estamos dentro de um processo que apenas começou e que dará passos à frente; passos que envolvem os vários sujeitos eclesiais, do Papa ao mais humilde dos leigos na periferia mais distante dos centros gestores da Igreja. A Amazônia está hoje mais conhecida, senão da sociedade planetária, da própria Igreja. Esse efeito impactante foi bem realizado pelo Sínodo, incluindo as próprias reações negativas da parte de membros da Igreja e de grupos conservadores. Os povos da Amazônia ganham com o Sínodo e a Igreja ganhou com os povos e as terras da imensa Amazônia em termos de consciência ecológica de reconhecimento dos pecados ecológicos e de proposição de uma conversão ecológica. O futuro oferecerá as condições de uma avaliação dos significados eclesiais, teológicos e políticos desse evento profético: loucura para o sistema econômico e escândalo para os cristãos tradicionalistas, sabedoria de vida e esperança das criaturas vivas.

O presente número de Ciber foi composto durante o processo sinodal que precedeu a realização da Assembleia em Roma entre os dias 6 a 27 outubro. As reflexões que compõem o dossiê situam-se nessa fase preparatória e carregam esse limite temporal inevitável. Se, por um lado, cumpre uma função histórica de registrar e pensar o processo sinodal nessa fase, por outro permanece atual, na medida em que a recepção do Sínodo se encontra em pleno curso e, ainda aguarda, a palavra oficial do Papa Francisco na futura Exortação pós-sinodal. O intuito fundamental das reflexões é participar do mutirão eclesial e social que pretendeu dar voz e vez à grande Amazônia. A seção Artigos é organizada em dois eixos: o primeiro que aborda temáticas variadas da realidade amazônica (a diversidade, o rio Amazonas, o trabalho e a questão da soberania) e o segundo que foca propriamente nas temáticas sinodais (histórico do Sínodo e ministérios). As demais seções completam informações sobre o Sínodo e disponibiliza documentos inéditos relacionados ao grande evento. Dentre esses, vale mencionar a Carta final do novo pacto das Catacumbas (Pacto das Catacumbas pela Casa comum), memória do primeiro realizado por ocasião do encerramento do Concílio Vaticano II e compromisso assumido por bispos, presbíteros e leigos, por católicos e fieis de outras confissões, pela casa comum.

A recepção do Sínodo para a Amazônia constitui o desafio atual para toda a Igreja. Ciberteologia estará presente nessa tarefa, afirmando a fidelidade para com a Boa nova da vida para a Amazônia, a comunhão com o Papa Francisco e a busca incessante de uma Igreja sempre em reforma.

João Décio Passos - Editor

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