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Editorial

Edição 48 - Ano X - Outubro/Dezembro 2014 - ISSN 1809-2888
O tema das religiões a partir de distintos caminhos
01/10/2014

A edição 48 da Ciberteologia, última do ano, traz uma interessante seleção de trabalhos, que se embrenham no complexo tema das religiões a partir de distintos caminhos: da literatura à geografia, passando pela Bíblia e pela economia. Os autores são, na maioria, jovens pesquisadores a revelar, pelo aperitivo oferecido neste número, futuras contribuições de peso ao estudo das religiões entre nós.

Na seção de ARTIGOS, Diego Klautau oferece-nos os primeiros resultados de sua pesquisa acerca de O estudo de J.R.R. Tolkien do poema “Sir Gawain and the Green Knight”. O artigo trata da tradução e do estudo realizados por Tolkien sobre o citado poema (séc. XIV-XV), que narra aventuras desse cavaleiro da Távola Redonda diante do desafio do cavaleiro verde, dos jogos da corte e das trapaças da magia. Segundo Tolkien, é possível encontrar aí uma discussão sobre a lei moral, de fundamento cristão patrístico e escolástico, frente os desafios do paganismo e da cultura cortesã.

Em O fim da religião e o último homem: uma crítica cristã à razão destranscendente, Anderson Clayton Pires faz uma aproximação filosófica ao fenômeno da desfuncionalização da religião com a abolição de sua escatologia. Sua credibilidade, como agência da moral e dos bons costumes teria se degenerado. Com a destranscendentalização da consciência (Jürgen Habermas), o mundo caminhou em direção à sua emancipação cognitiva dos a priori da razão transcendental (Immanuel Kant). O autor discorre sobre as consequências mais notáveis dessa mudança no espaço religioso-cultural no Ocidente.

Em Um Deus improvável: análise exegética de Gn 18.1-15, Silas Klein Cardoso analisa a citada perícope como reveladora da imagem de um Deus incomum, que não se submetia aos caprichos de uma religião oficial e de uma forma social bem estabelecida mas, pelo contrário, irrompia de forma heterodoxa no horizonte, se fazendo ver por uma mulher de idade, impossibilitada de ter filhos e por um homem cansado de sua vida. O autor esforça-se por compreender o texto em seu horizonte de sentido tentando aplicar seus conceitos ao presente.

A seção de NOTAS abre-se com o texto Jesus e as finanças modernas: notas sobre a parábola dos talentos, de Paulo Tiago Cardoso Campos, cujo objetivo é comentar a citada parábola à luz de conceitos centrais das finanças modernas. Já em A religião por um olhar freudiano, Tiago Augusto Franco de Vasconcelos Souza faz um exercício inicial de diálogo com o criador da psicanálise. Ele ressalta alguns dos principais postulados do autor dentro do tema, a começar pelo primeiro texto de Freud a respeito (1907), associando as neuroses obsessivas às práticas religiosas e passando por outros escritos nos quais o pai da psicanálise evoluiu seu pensamento na relação da religião com a psicologia. Fecha a seção o texto O Poder do Rito: um olhar sobre o rito enquanto “memória do mito” no cristianismo primitivo a partir do livro de Atos dos Apóstolos, de Rivanildo Segundo Guedes. Aí ele se propõe a abordar, de maneira panorâmica, o poder do rito no cristianismo primitivo, notadamente a partir do livro de Atos dos Apóstolos. Para tanto, utiliza algumas ferramentas da Ciência da Religião com destaque especial para a perspectiva fenomenológica, por meio da tríade: Rito-Mito-Etos. Pretende com isso apontar de que maneira o rito, enquanto memória do mito, influenciou o modus vivendi dos cristãos primitivos.

A edição contém também uma Resenha de Welder Lancieri sobre a obra de John F. Haught, Mistério e promessa: teologia da revelação (Paulus, 1998).

Ótima leitura a todos e boa entrada no verão.

Dr. Afonso M. L. Soares (Editor)

  • Artigos
    01/12/2014

    Este artigo trata da tradução e do estudo realizados por J.R.R. Tolkien do poema Sir Gawain and the Green Knight. O poema é datado entre os séculos XIV e XV e narra aventuras do cavaleiro da Távola Redonda diante do desafio do cavaleiro verde, dos jogos da corte e das trapaças da magia. Segundo Tolkien, é possível encontrar uma discussão sobre a lei moral, de fundamento cristão patrístico e escolástico, diante dos desafios do paganismo e da cultura cortesã. Investigando os símbolos e cenas descritas no poema, Tolkien elabora uma interpretação que o leva a concluir pela existência de uma reflexão filosófica e religiosa que se estabelece com imagens e atos que refutam as tentações que desviam o desenvolvimento do herói e do cavaleiro para uma via de santidade. São fundamentos desse estudo: a devoção mariana, a confiança nos sacramentos do matrimônio e da confissão e o reconhecimento da falibilidade humana e a consequente força da graça divina.

    01/12/2014

    O século XIX foi o precursor da intuição profética acerca do “fim da religião”. Esse fim, contudo, não aconteceu como se esperava. Do ponto de vista da institucionalidade, a “religião/igreja” (Niklás Luhmann) ainda vive um momento de expansão, o que torna o presságio do século XIX duvidoso. Entretanto, se o analisarmos do ponto de vista da funcionalidade, considerando a sua natureza e finalidade originais, a religião (sobretudo no Ocidente) se disfuncionalizou com a abolição de sua escatologia. Sua credibilidade, como agência da moral e dos bons costumes, se degenerou. Com a destranscendentalização da consciência (Jürgen Habermas), o mundo caminhou em direção à sua emancipação cognitiva dos a priori da razão transcendental (Immanuel Kant). Entrementes, o cenário ontológico da vida em sociedade que dessa situação se derivou figura um modo de ser humano pós-natural, cuja flagrante intenção não é outra senão a de revelar a ausência completa da ingerência dos postulados apriorísticos da religião sobre o agir moral dos indivíduos. As consequências mais notáveis da mudança que aconteceu nesse espaço religioso-cultural no Ocidente são: 1) as flutuações ônticas das identidades ontológicas, 2) a desfuncionalização da autoridade da natureza e da religião e 3) a erogenização do espaço vital das interações humanas. Mas a progressão dessas três variáveis figuras a tese de que a humanidade chegou a um provável estágio terminal: a disfuncionalização operacional das crenças moral e teológica da consciência transcendental (fim da religião) e a saturação hedônico-erótica da economia libidinal (último homem).

    01/12/2014

    O texto de Gn 18.1-15 revela a imagem de um Deus incomum, que não se submetia aos caprichos de uma religião oficial e de uma forma social bem estabelecida mas, pelo contrário, irrompia de forma heterodoxa no horizonte, se fazendo ver por uma mulher de idade, impossibilitada de ter filhos e a um homem cansado de sua vida. O presente ensaio pretende fornece um comentário exegético da perícope, observando os seguintes passos exegéticos: (1) tradução; (2) delimitação do texto; (3) estrutura do texto; (4) coesão do texto; (5) estilo e gênero literário; (6) contexto do texto; e (7) estudo semântico, visível em nosso comentário exegético. Com isso, pretendemos compreender o texto em seu horizonte de sentido e colher insumos à tarefa hermenêutica, aplicando seus conceitos ao presente.

  • Resenha
    01/12/2014

    HAUGHT, John F. Mistério e promessa: teologia da revelação. São Paulo: Paulus, 1998. 311 p.

  • Notas
    01/12/2014

    O objetivo da presente nota é comentar a Parábola dos Talentos à luz de conceitos centrais das finanças modernas. Trata-se de uma enigmática parábola, que contém espaço para diversas interpretações. Também ilustra, a nosso juízo, conceitos financeiros, como, por exemplo, a relação agente-principal, a aversão ou não ao risco, a noção de valor econômico e valor temporal do dinheiro, e conceitos contábeis-financeiros como a prestação de contas (accountability) e evidenciação (disclosure); todos eles são centrais nas finanças modernas, e em nosso entendimento de algum modo acham-se presentes na parábola.

    01/12/2014

    O criador da psicanálise, Sigmund Freud, tratou em diversos textos de sua trajetória científica o tema da religião. Ela foi associada a diversas elaborações teóricas a partir de análises de seus pacientes que vinham com questões associadas ao assunto. Esta publicação tem como objetivo ressaltar alguns dos principais postulados do autor dentro do tema, iniciando pelo primeiro texto que Freud escreveu a respeito (1907), associando as neuroses obsessivas às práticas religiosas e passando por outros escritos nos quais o pai da psicanálise evoluiu seu pensamento na relação da religião com a psicologia.

    01/12/2014

    Este texto se propõe a abordar, de maneira panorâmica, o poder do rito no cristianismo primitivo, notadamente a partir do livro de Atos dos Apóstolos. Para tanto, utilizarei algumas ferramentas da Ciência da Religião com destaque especial para a perspectiva fenomenológica, por meio da tríade: Rito-Mito-Etos. Pretendo, portanto, apontar de que maneira o rito, enquanto memória do mito, influenciou o modus vivendi dos cristãos primitivos.