EDITORIAL

Este é o nono número de Ciberteologia e com ele iniciamos 2007, presenteando o ciberleitor com dois trabalhos inéditos na seção Artigos. No primeiro, A filosofia da ciência de Rubem Alves, Júlio Fontana ensaia uma leitura crítica do livro homônimo de Alves. Em A arte sacra e sua significação para a religiosidade sorocabana, os dois jovens autores, Michel Farah Valverde e Rosenilton Silva de Oliveira, escrevem com dois intuitos: investigar o fenômeno religioso a partir da representação artística e entender a religiosidade sorocabana e a inter-relação que há entre a visão de mundo estimulada pela fé e a produção da imaginária. Para tanto, investigam na região paulista de Sorocaba a tradicional Festa do Divino e a devoção mariana.


A seção Artigos traz ainda, como brinde ao leitor, um texto de Ghislain Lafont sobre O “caminho” cristão e a teologia primitiva. Propor o cristianismo como “caminho” é falar do primado do testemunho e da fé, assim como do litúrgico, do prático e do místico. Memória de Jesus Cristo, conhecimento espiritual, espera apocalíptica, ética do Evangelho, tal é o princípio do caminho e sempre será, de modo que esses quatro termos definem o quadro necessário de toda teologia verdadeira, amparada pelo fundamento permanente do testemunho apostólico. A partir daí, o autor se pergunta, então, por que e em que medida houve “teologia”, isto é, discurso sobre o mistério de Cristo nos primórdios do caminho.


O desafio da mística comparada é o título do trabalho de Faustino Teixeira que nos introduz em uma grande discussão no âmbito da epistemologia, a saber: a possibilidade ou não de uma mística assim compreendida. Para Teixeira, a relação de proximidade entre experiências místicas diversas é experimentada no diálogo inter-religioso. Fecha a seção uma reflexão de Juan Luis Segundo, na qual o teólogo uruguaio apresenta-nos A chave antropológica da cristologia de Paulo. Ele considera ser esta a maneira mais adequada para abrir-nos ao difícil pensamento paulino. No trecho selecionado, Segundo estuda, brevemente, um duplo problema: o das limitações e o da oportunidade de uma chave antropológica para fazer cristologia (seja em geral, seja dentro de um contexto particular — como o latino-americano).


Recuperar o símbolo, de José María Mardones, parte da convicção de que o imaginário simbólico tem importância capital para as questões fundamentais da existência e, por conseguinte, da fé cristã. Por isso a religião que não cuida da dimensão simbólica é uma religião desfalecida e enfraquecida pela secura do dogma e do moralismo, ou febril e a ponto de arder por causa da febre descontrolada do rito e das mitificações supersticiosas. O desafio, segundo Mardones, é buscar a síntese da razão simbólica e da razão crítica e reflexiva, dentro e fora da religião, aplicando a teologia negativa, que sabe que nada pode identificar-se com o Mistério e tudo pode ser um ligeiro vislumbre dele.


Oferecemos, também, um comentário de Raymond E. Brown sobre A quarta bucólica de Virgílio. Como se sabe, embora Virgílio tenha vivido um século antes dos evangelistas (70-19 a.C.), esse poema, composto em 40 a.C., menciona uma Virgem (v. 6) e um Menino (v. 49) diante do qual toda a terra estremecerá em reverência (v. 50), em uma idade de ouro de paz (vv. 9 e 17), quando os “vestígios de culpa” remanescentes vão desaparecer (vv. 13-14). Os primeiros cristãos viram na Quarta bucólica uma profecia do nascimento virginal de Jesus, o Messias, que tirou o pecado original. Será essa interpretação um “exagero patrístico”, ou equivoca-se são Jerônimo quando a rejeita como produto da ignorância?

 
Fechando a seção, Pedro L. Vasconcellos e Rafael R. da Silva brindam-nos, em Messias que vem, esperanças renovadas, com algumas reflexões sobre a questão do messianismo na Bíblia, na história de Israel e das primeiras comunidades seguidoras de Jesus de Nazaré. Completam o número as já conhecidas seções Espiritualidade, Nas Fontes da Bíblia e Teologia Aberta, além das Resenhas. Chamamos sua atenção para o recente lançamento do livro Karl Rahner: experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento, de Herbert Vorgrimler. A seção Teologia Aberta publicará, ao longo do bimestre, excertos da confissão de fé dessa figura maior da teologia católica do século XX.


Enfim, apenas queremos novamente chamar a atenção de nosso ciberleitor para a coluna Rumo à Conferência, na qual Ciberteologia vem colocando à disposição uma série de artigos e informações a respeito da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, a realizar-se, em maio, em Aparecida-SP (Brasil). Há novos textos disponíveis à sua espera.


Está entregue, portanto, a nona edição de Ciberteologia. Continuamos à disposição de quem quiser, de alguma forma, participar da produção e da divulgação do pensamento teológico latino-americano. Pesquisadores e autores com escritos originais afins com nosso projeto editorial podem enviar-nos seus trabalhos (artigos, notas, resenhas), desde que atendam a nossas normas de publicação. Aproveitamos para agradecer aos articulistas deste número por sua generosa colaboração.


Um feliz ano novo a todas e uma produtiva ciberleitura em nossa companhia é o desejo de toda a Equipe de Ciberteologia!
Afonso Maria Ligório Soares

EDIÇÕES ANTERIORES