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Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
A educação inaciana na perspectiva do Barroco luso-brasileiro
15/02/2018

Resumo: O século XVII vivenciou a marca inconteste do empreendimento evangelístico inaciano em terras ameríndias, fazendo-se objetivo central a ser alcançado no contexto dos empreendimentos coloniais luso-brasileiros. Seja junto aos habitantes da comunidade colonial e prioritariamente junto aos nativos, o trabalho pedagógico alinhavado pelos inacianos deveria seguir seu rumo, baseando-se nos princípios práticos da Companhia, do “estar no mundo”, convivendo com os problemas nele existentes e, a partir daí, traçar estratégias que pudessem com o tempo se tornar eficazes na divulgação do Evangelho. Ainda que desenvolvendo um trabalho em estreita coligação com a Coroa Portuguesa, os jesuítas primaram por manter certa autonomia na práxis de seu trabalho, a fim de que pudessem manter seu investimento sobre bases teológicas sólidas, bases que interagiram com o universo da arte sacra barroca, cujo processo histórico consagrou a Companhia de Jesus como legítima representante da fé cristã em terras brasileiras. O Barroco, arte de expressão essencialmente religiosa, e o amplo universo imaginário que ao redor dele se desenvolveu, buscou expressar uma mentalidade típica do século XVII, própria a uma sociedade de corte, hierarquizada, e ao mesmo tempo profundamente arraigada a preceitos religiosos, notadamente católicos, de cunho contrarreformista. Seu rico universo das artes, de alcance eficaz e persuasivo, forneceu ferramentas para a catequese empreendida pela Companhia de Jesus, que, de modo pontual nos aldeamentos, mas de alcance geral no universo do barroco, implementou um modelo de educação e decoro pretendidos para o período.

1. A Companhia de Jesus e o processo educacional-catequético no território luso-brasileiro: análise histórica

A atuação da Igreja no Brasil sempre foi de grande peso para a história do país. Desde o período colonial, a Igreja atuou em intensa concordância com o Estado português através do Padroado. Na realidade, o Padroado se tornou um mecanismo eficaz de participação da Igreja

no cenário colonial, uma vez que, dada a escassez [1] de bispos e das longas vacâncias entre um prelado e outro, a ausência de padres e clérigos, por ser significativa, tornava necessária a busca por caminhos que propiciassem a vinda de novos membros da Igreja para a Colônia, a fim de promover um trabalho de organização político-religioso entre a população local existente. Por meio do Padroado, ao Estado era concedido o poder de intervir na nomeação de bispos e padres; em contrapartida, a Igreja poderia contar com o apoio do Estado para sua atuação no universo religioso da Colônia, o que envolvia desde o apoio aos trabalhos de catequese até a cobrança dos dízimos. Segundo Hoornaert,

os bispos eram considerados nobres vinculados à Coroa real, e, portanto, sua atuação religiosa estava limitada com frequência aos interesses políticos. Alguns bispos que agiram com certa independência em seu múnus pastoral foram afastados do exercício de seu cargo pela autoridade do rei (2008, p. 172).

Convém salientar que a instituição do Padroado no Brasil se deu em moldes muito específicos. Tradição antiga em Portugal, o Padroado praticamente herdou os recursos destinados à Ordem de Cristo, organização formada por antigos fundos da Ordem dos Templários.

A necessidade maior do uso de recursos financeiros por parte da Ordem de Cristo se deu a partir da conquista de Ceuta pelos portugueses (1415), fato que lançou Portugal como grande empreendedor marítimo, ao mesmo tempo que combatia contra os mouros, considerados infiéis pela Igreja Católica. A este respeito nos informa Hoornaert que, “em consequência disto, os papas publicaram ao longo do século XV numerosas bulas, ‘bulas de cruzada’, em número de 69, das quais 47 mencionam o Islão como grande inimigo, embora a empresa estivesse sobretudo atuando na África em regiões não atingidas pelo Islão” (2008, p. 35).

Como pioneiro dos mares e considerado legítimo representante da fé católica, Portugal lançou-se à conquista de novos espaços de além-mar, com o intuito de formar Colônias e, com isso, adquirir riquezas. Os “discursos de conquista de novas terras” vinham intensamente atrelados à tarefa missionária de conversão de povos nativos, tarefa essa que deveria, segundo a visão dos conquistadores lusos, ser da responsabilidade oficial de Portugal. É Hoornaert quem novamente reforça que “Portugal é senhor dos mares ‘nunca dantes navegados’, organizador da Igreja em termos de conquista e redução, planificador da união entre missão e colonização” (idem, p. 35). Sobre isso escreveu Vieira, ressaltando a nação portuguesa como sendo o Quinto Império na Terra, o que consequentemente a imbuía da missão de levar a fé cristã católica ao mundo.

Dentre as determinações exigidas pelo Padroado, destacam-se: os clérigos e bispos, de maneira geral, não poderiam partir de Portugal sem autorização do monarca; havia entre o rei e a Igreja (representada por seus membros) uma espécie de juramento de fidelidade. O mesmo se dava em relação aos missionários (naturais ou estrangeiros), cujos trabalhos passavam por fiscalização e controle em terras portuguesas, antes de partirem para seus destinos. Além disso, os bispos não poderiam comunicar-se de maneira direta com o Papa, fato que criava significativas distâncias entre a Igreja no Brasil e a sede do papado em Roma. Tal situação limitou sobremaneira a comunicação entre Roma e a Igreja no período colonial, num momento muito importante de alicerçamento e solidificação da fé cristã católica nas terras recém-encontradas.

A Coroa Portuguesa mantinha um rígido controle sobre as operações que ocorriam em solo colonial. A Igreja, representada praticamente pela Companhia de Jesus em terras brasileiras, possuía tímida autonomia de ação, e, em que pese sua fiel devoção à autoridade papal, o fato é que sua manutenção e sustentação em muito dependiam da Coroa. A Igreja não podia prescindir de sua aliança com o Estado português, pelo menos num primeiro momento, quando a Companhia de Jesus ainda não reunia capital suficiente que a tornasse autônoma e plenamente independente para tomar decisões. Segundo Moreau,

os jesuítas tinham certa autonomia, respondendo mais a Roma que ao rei de Portugal, mas serviam a interesses da Coroa no desenvolvimento da Colônia, sendo no começo sustentados por ela. Seriam o contraponto para a dizimação desenfreada de índios praticada pelos colonos, visando preservá-los pela adaptação ao trabalho produtivo (2012, p. 10).

Com a chegada dos portugueses ao Brasil, o processo de colonização se fez nos moldes de um empreendedorismo colonial. Na esteira das grandes transformações que aconteciam na Europa, e de maneira pioneira em alguns países, dentre os quais se destacou Portugal, as coroas reinantes viam à sua frente mares a serem desbravados, populações novas a serem conquistadas. Para tanto, o papel da Igreja se tornou central.

Diante da conquista de novas terras, havia que dominar as populações nativas; é fato que este processo de contato inicial pareceu ocorrer de forma pacífica, uma vez que os nativos, ao se depararem com os portugueses, estabeleceram um contato inicialmente cordial; no entanto, com o passar do tempo, a Coroa necessitou contar com a ajuda da Igreja, a fim de dar prosseguimento ao trabalho iniciado junto aos indígenas.

[1] O número de bispos na América portuguesa não era suficiente para controlar todo o território conhecido à época, devido à sua extensão geográfica. Em todo caso, havia quem exercesse um tipo de função eclesiástica nas várias vilas e fazendas, tanto no litoral quanto no interior (Hoornaert, 1991, p. 277).

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Data de Recebimento: 21/11/2017
Data de Aprovação: 06/12/2017

Sobre o autor
Andrea Gomes Bedin
Andrea Gomes Bedin

Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP; Doutoranda em História pela PUC-SP, Bolsista CAPES; Prof. Orientador: Dr. Fernando Torres Londoño.

Comentários
Angela

Conteúdo relevante!

10/10/2018
Maria

Legal!!

10/10/2018
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Editorial
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