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Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
Educar para a escuta: reflexões a partir de Plutarco
15/02/2018

Resumo: Apesar dos conflitos e condições vividos pelos seres humanos, pode-se entender que pretendem viver em sociedade e ser sociáveis. Há, porém, uma premissa para que essa condição seja satisfeita, que é o atendimento de suas necessidades e as dos seus pares. Condição que pode ser atendida quando se sabe das indigências dos demais, o que será possível se for dada a atenção àqueles com os quais se convive. É em busca do preenchimento dessa lacuna que este artigo trata do mais remoto conceito filosófico que abordou esse tema, a escuta. Assim, produziu-se uma abordagem geral acerca do processo de escuta e, utilizando-se especialmente o ensaio de Plutarco: Como ouvir. Uma obra que tem como principal objetivo a proposição da mudança de comportamento dos seus jovens alunos e os demais indivíduos.

1. Introdução

Estamos rodeados por uma atmosfera psicológica significativamente voltada para a individualidade e subjetividade das pessoas, ou por um cuidado exacerbado com parcialidade de grupos com a finalidade de geração de vantagens imediatas, pelo menos como o senso comum tem interpretado as condições atuais de vida em sociedade.

Um ambiente, pelo menos no Ocidente ou onde já foi produzida uma espécie de ocidentalização, que chama a atenção por circunstâncias como a violência, o uso de drogas ilícitas, os excessos de ingestão de álcool, suicídio, obesidade, como que para fugir de si e/ou dos outros, preencher um vazio na existência ou ainda suprir uma solidão em meio à multidão.

Ainda assim, mesmo em meio a esse ambiente de crise que estamos vivendo, cuja marca poderia ter características limítrofes ao desalento e desesperança, “temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que de um fardo que se carrega no dia a dia”. (CORTELLA, 2007, p. 16).

Supõe-se que cada indivíduo, ao longo de sua existência, segue em busca do atendimento de desejos, vontades, interesses e tudo mais que possa ter algum significado, mesmo que seja para um autoatendimento, com finalidades estritamente egocêntricas, abandonando ou não atendendo aos demais indivíduos que o cercam, “em suma, cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável” (FRANKL, 2006, p. 98).

Apesar dessa ideia de ser-singular ou ser-individual, considerar os indivíduos como seres isolados é uma condição irreal ou fictícia (RÚDIO, 1993, p.7), assim, via de regra, também se considera como importante e necessária a socialização, que produz uma espécie de troca, parceria, submissão ou qualquer outra forma para o atendimento daquilo que seja significativo, produzindo satisfação, alegria ou felicidade, independentemente da definição subjetiva ou objetiva que se tenha desses conceitos.

Por outras palavras, “o homem, por sua própria natureza, é um ser sociável, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros” (PAULO VI, 1965, 12).

Essa noção de humanidade não isolada, necessariamente sociável, pode ser observada em Cortella, quando afirma que “nós só somos humanos com outros humanos”, ou melhor:

A ética é, antes de mais nada, a capacidade de protegermos a dignidade da vida coletiva. Afinal de contas, nós, homens e mulheres, vivemos juntos. Aliás, para seres humanos, não existe vivência, existe apenas convivência. Nós só somos humanos com outros humanos. A nossa humanidade é compartilhada. Ser humano é ser junto. Isso significa que é preciso que saibamos que a nossa convivência exige uma noção especial da nossa igualdade de existência, o que nos obriga a afastar do ponto de partida qualquer forma de arrogância (CORTELLA, 2007, p. 117).

Paralelamente, considerando essa relação com os demais indivíduos, pode-se levar em conta a afirmação que: “uma das questões centrais da ética é regularmos as nossas relações de maneira que o poder possa servir em vez de se servir” (CORTELLA, 2007, p. 139).

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Data de Recebimento: 04/10/2017
Data de Aprovação: 10/10/2017

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Editorial
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