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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Façam as suas apostas: teremos avanços democráticos sob a tutela dos militares?
10/12/2018

Introdução
Um estilo bonapartista, claro que no jeitinho bem brasileiro, poderá ser a marca, do governo de Jair Bolsonaro. Seus assessores buscarão forjar a imagem que o consagrou nas urnas. O estilo militar de um homem de poucas palavras, parcos sorrisos, pouco senso reflexivo e de alguém que tem soluções para tudo e a todos. A aspiração de ser o primeiro a se pronunciar sobre qualquer tema na esfera da vida pública, o fato de desejar que sua vontade seja seguida nas esferas dos poderes judiciário e executivo, corre o risco de transformar o Presidente num ditador em potencial.

Diante de inúmeras dúvidas uma podemos excluir: Bolsonaro não governará ao estilo Temer. Neste aspecto não haverá continuidade alguma. Soma-se a isso seu modo de apresentar propostas simplistas aos problemas complexos. Tal simplismo já deu provas de seu elevado grau de desconhecimento dos reais problemas do país. As causas dos movimentos LGBT’s, negros, indígenas foram frequentemente escrachados nas entrevistas, do então, candidato. Acenos à pena de morte e à proposta de popularizar o porte de armas transformaram o ex-capitão e deputado federal em um “salvador” da pátria. Além dos traços pessoais do novo mandante, temos elementos de sobra para acenar algumas perspectivas de seu governo, considerando o malabarismo para compor seu grupo de ministros.

Não apostamos em um viés fascista no futuro chefe do executivo. Até o momento, Bolsonaro representa um pensamento de direita. Sua trajetória na vida pública confirma. Sua vitória se deu na conjugação de descréditos com as propostas de conhecidos candidatos e no anseio de que algo novo surgida dos resultados eleitorais. Mas não há nada que o faça merecedor e defensor de um modo fascista de governar. Tudo, até o momento, está muito aberto. Muitas disputas – internas e externas – estão para acontecer.

1. Perspectivas do novo governo
A imagem de ser um político antissistema foi muito bem vendida. Não poucas vezes o ouvimos recorrer à frase do jurista e ex-presidente do STF, um dos responsáveis pelo esquema de corrupção do Mensalão, Joaquim Barbosa, de que o “único parlamentar que não recebeu propina foi Jair Bolsonaro”. Bravatas de lado, o presidente terá que encarar as resistências do poderoso sistema que pretende destruir: os fortes lobbys no parlamento nacional, o poder extrapolante do judiciário e, algo que lhe pode tirar ainda mais o sono, as grandes corporações financeiras, industriais, agrárias, comerciais e de comunicações. Sem contar os interesses famigerados, sem limites por verbas de propagandas oficiais das igrejas católica e neopentecostais. Quando o as sunto é combater oligopólios uma ação pode prevalecer sobre outras, estabelecer o fim de uma tendência, ou até formar um novo grupo, uma nova tendência.

O governo de Bolsonaro não largará uma contínua e renovada campanha contra a corrupção. Todo o conjunto da crise terá um responsável único: o PT, tendo Lula à frente. Bolsonaro representa a tábula rasa que devolva ao povo ações de um governo que atue contra o sistema de corrupção, garanta emprego, segurança e coloque o país nos trilhos. Com base neste tripé, seu governo terá garantido um importante aval popular por um bom período de tempo e dificultar a recuperação de propostas de partidos e movimentos ligados à uma agenda mais de esquerda. 

Há de se ver uma significativa ofensiva na área da segurança pública, articulando e liberando a ação das polícias contra a criminalidade comum. Prender, matar e propagar as ações repressoras serão métodos corriqueiros.

A tão propalada e desnecessária reforma da previdência que legitimará mais dinheiro para quem já o possui, legitimando o incômodo foço social de ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, será vendida ao povo como uma ação governamental posta em prática para combater os privilégios dos privilegiados. Esta reforma deve ser posta em votação ainda no primeiro ano de governo. Gostaria de estar enganado, mais um forte aparato ideológico de cunho conservador está sendo orquestrado para dividir a opinião pública. Recentemente ouvi de um jovem eleitor duas chocantes declarações: o governo estará agindo certo se tirar o 13º salário. Afinal, ele precisa pagar a dívida pública. Uma segunda, e tão alarmante como a primeira: toda e qualquer oposição neste momento a Bolsonaro não deixa de ser uma orquestração de partidos de esquerdas corruptos. São ideias como estas já disseminadas e sustentarão a guerra de informação visando coroar vitoriosos em honestos e capacitados agentes políticos. Podemos prever tempos difíceis para as oposições.

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Data de Recebimento: 01/12/2018
Data de Aprovação: 09/12/2018

Sobre o autor
Antonio Carlos Frizzo
Antonio Carlos Frizzo

Mestre pelo Instituto Católico de Paris e doutor pela PUC-RJ. Nos anos de 1992 a 1996, atuou como Secretário Regional da CNBB – Sul I. É padre na diocese de Guarulhos e professor de Teologia Bíblica no ITESP-SP.

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