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Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
Leigos e leigas vivendo a política
15/02/2018

Resumo: Este artigo oferece um panorama da temática do leigo na política, tendo como fundamento as referências evangélicas e a Doutrina Social da Igreja. Afirma a política como serviço ao bem comum, sendo uma forma essencial de vivenciar a fé na sociedade de ontem e de hoje. Reconhece os desafios dessa atuação nos dias de hoje e convoca o leigo a agir politicamente em prol da transformação da sociedade.

Introdução

Muitos cristãos e cristãs olham o mundo, não gostam do que veem, e têm a tendência de se fechar nas palavras do Evangelho. “A mim me basta a Palavra de Deus”, dizem. Mas, como afirmaram os bispos latino-americanos em Puebla, a pretensão de anunciar um Evangelho sem conexões econômicas, sociais, culturais e políticas, no fim das contas, equivale a certo conluio – embora inconsciente – com a ordem estabelecida. Muito embora seja verdade que devemos – todos os que professam a fé cristã – ter um olhar crítico, e cada vez mais crítico, às realidades que nos cercam, é um erro nos fecharmos, ou não querermos ver o que nos cerca, ou afirmarmos que o Evangelho é a resposta para tudo. Os cristãos não podem fazer como Pilatos: lavar as mãos. Como disse Francisco a estudantes que o visitavam: “devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum”.

Entretanto, a coisa não é fácil. Diríamos, mesmo, que é a atividade mais laboriosa, difícil, e cheia de percalços. O mesmo Papa Francisco, levando isso em consideração, disse aos mesmos estudantes:

Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão.

Há, claro, uma imensa diferença entre os trabalhos pastorais, as ações “intra-eclesia” e o trabalho de inserção no mundo. Em verdade, as chamadas “realidades terrestres” têm sua estrutura própria, possuem autonomia, como nos disse a Constituição Pastoral Gaudium et Spes:

Se por autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios, [...] é perfeitamente legítimo exigir tal autonomia. [...] Por esta razão, a investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cado de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé, já que as realidades profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus (Gaudium et Spes, 36).

(...) embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao Reino de Deus (Gaudium et Spes, 39).

Mesmo o Papa João Paulo II nos mostra a importância do agir cristão no mundo, principalmente o da política, mas sempre a partir do Reino de Deus trazido e vivido por Jesus de Nazaré. Este ilumina os passos, mostra o bem ou o mal que afastam o mundo e o humano dos desejos de Deus, bem como revela o reto caminho para o bem comum. A partir dos valores do Reino que nos iluminam e são colocados à frente de nosso agir,

... notam-se melhor as exigências de uma sociedade digna do homem, são retificados os desvios, é reforçada a coragem do agir em favor do bem. A esta tarefa de animação evangélica das realidades humanas estão chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, os cristãos, e de modo especial os leigos (Centesimus Annus, 25).

Por isso, insistindo junto aos fiéis leigos e leigas, o mesmo pontífice nos diz, em sua Exortação apostólica Christifidelis Laici:

os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na “política”, ou seja, da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum (cf. 42).

A necessidade das ciências humanas e sociais

Entretanto, um problema se apresenta cada vez mais claro entre aqueles e aquelas que vão para o mundo da política, em nome de sua fé. Agem naquelas instâncias como se estivessem em sua comunidade, em sua celebração ou culto. Buscam, quando sérios e consequentes, viver como nos espaços intraeclesiais.

Mas, para assumirmos o agir cristão na sociedade, temos que conhecê-la por dentro, conhecer a forma como as coisas se dão, conhecer os agentes que a constroem e a forma como o fazem, conhecer os mecanismos muitas vezes inconscientes que a movem, seus interesses, inclusive os interesses das diversas classes que a compõe. Se quisermos, a partir de nossa fé, agir como cristãos no tecido humano da sociedade, em busca do bem comum, então é necessário saber quais são os mecanismos da realidade concreta que desejamos transformar, em nome mesmo da Palavra de Deus encarnada em Jesus Cristo.

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Data de Recebimento: 22/11/2017
Data de Aprovação: 22/11/2017

Sobre o autor
Carlos Signorelli
Carlos Signorelli

Ex-presidente do Conselho Nacional de Leigos e foi vereador em Campinas.

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Editorial
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