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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Medellín: espiritualidade da libertação!
11/08/2018

Resumo: A Conferência de Medellín foi a rápida e criativa recepção do Vaticano II no continente latino-americano, onde a reflexão foi orientada para a busca da forma de presença mais intensa como bem diz o tema: A Igreja na atual transformação da América Latina, à luz do Concílio Vaticano II. A atualidade do Vaticano II repercutirá sobre Medellín, que será mais ousada, que será para fora da própria Igreja. Na Conferência de Medellín se tornou realidade o que não foi possível se alcançar no Vaticano II, indo além da mera proclamação da Palavra ao visar à transformação das estruturas sociopolíticas e econômicas. A pregação, a teologia e a prática da Igreja focalizaram em Medellín a justiça social. A Igreja assumiu uma postura profética nos discursos, nas práticas, nas formas institucionais, inclusive no martírio. A Igreja se concentrou na libertação dos pobres. Antes da Teologia da Libertação há uma Espiritualidade da Libertação! Espiritualidade da Libertação é sem dúvida a libertação da espiritualidade. Ela é um viés da espiritualidade de Jesus de Nazaré, que fez a opção radical pelos pobres.

Introdução
Medellín é a conferência episcopal latino-americana que tem valor histórico-teologal pois faz memória do que aconteceu no Continente Latino-Americano após o Concílio Ecumênico Vaticano II: foi recepção, atualização, ampliação e aplicação de temas que só Medellín conseguiu desenvolver a partir da realidade vivida [um continente econômica e politicamente subdesenvolvido e dependente dos Estados Unidos, afundado em ditaduras militares sangrentas. No Brasil em 1968, o famigerado Ato Institucional 5 – AI 5 era editado e todas as liberdades encerradas]. 50 anos depois a pergunta que se faz: a Igreja conseguiu responder aos problemas encontrados e apontados por Medellín? O que foram avanços, o que foram descontinuidades? O que ainda se tem a fazer? Medellín faz parte do passado ou os novos desafios que surgem na sociedade e na vida eclesial requerem um retorno às fontes?

Medellin foi esquecida, desprezada, subjulgada; porém, ao ser lida a partir da História recente do continente, do Brasil, observa-se que foi [é] o retrato de uma Igreja profética, uma Igreja dos Pobres [como insiste o Papa Francisco], popular.

E hoje, qual é o retrato, o cenário de Igreja que temos?

Medellín é inteiramente fiel ao Vaticano II, portanto, quer ser uma Igreja para fora, com o cheiro das ovelhas. Ficam duas perguntas: 1. O que significa Medellín, para você hoje? 2. Quais elementos fortes de Medellín entraram e entram na vida da Igreja hoje?

1. Contextualização
A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, aconteceu na cidade de Medellín, na Colômbia, de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968. 50 anos depois, é necessário revisitar, recriar, e começar a História de novo! Podemos dizer que a Conferência de Medellín é de longe o salto qualitativo, o evento mais importante na história da Igreja na América Latina na década de 1960 na linha da promoção humana e da justiça social. Nela encontram-se os três pontos básicos da originalidade da Igreja dos Pobres na América Latina: 1. Opção pelos Pobres; 2. CEBs – Comunidades Eclesiais de Base; e 3. Espiritualidade, Pastoral e Teologia da Libertação.

A partir da década de 1960, a imprensa latino-americana passou a noticiar o envolvimento de leigos e leigas, religiosos e religiosas, padres e bispos da Igreja Católica Apostólica Romana nas lutas populares, em protestos contra a ditadura militar, denunciando as prisões, as torturas, as mortes e sua mobilização na defesa de seus membros, perseguidos por suas atividades políticas. Muitos católicos e católicas se envolveram na luta por democracia e direitos humanos. De 1960 a 1989, a Igreja se posiciona claramente ao lado dos pobres, sendo então muito perseguida e acusada de heresia e comunismo; sofrendo com as incompreensões por parte de seus próprios membros e por parte da Santa Sé que notificou e silenciou teólogos e teólogas, fechou seminários, dividiu dioceses e transferiu bispos considerados progressistas [SOUZA. SBARDELOTTI, 2018, p. 211-216].

A Conferência de Medellín, inaugurada na Catedral de Bogotá, com um discurso feito pelo beato Papa Paulo VI, presente na capital colombiana por causa do 39º. Congresso Eucarístico Internacional, continua sendo uma convocação para reexaminar a missão da Igreja frente às transformações globais daquele momento histórico da América Latina e o momento presente, passados 50 anos de sua realização. Embalada pela renovação trazida pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, Medellín, pretendeu num primeiro momento, ser a aplicação do Vaticano II às Igrejas da América Latina. Porém, Medellín foi muito mais. Já não se viviam os anos de otimismo do tempo conciliar. Implantara-se no continente um capitalismo transnacional, apoiado pela ideologia desenvolvimentista. Em vez de desenvolvimento, estava a acontecer nos países da América Latina dupla dependência. Para desmascarar tal ideologia, economistas da CEPAL elaboraram a teoria da dependência. Em vez de desenvolvimento, propugnava-se libertação no interior dos países em face dos países centrais. O mundo político incendiou se com o surgimento de movimentos populares e estudantis, com a conscientização e organização dos sindicatos urbanos e rurais, com movimentos revolucionários. A repressão militar e policial organizava-se, financiada interna e externamente pelos interesses burgueses, chegando a construir regimes de exceção ditatoriais. No âmbito cultural, a pedagogia de Paulo Freire, a instalação de centros de cultura popular e os movimentos de educação de base alimentavam propostas revolucionárias. Reforçou-se a abertura social de João XXIII e do Vaticano II, defendendo-se a mística da Igreja dos Pobres. Paulo VI, com a encíclica Populorum Progressio [1967], aprofundou o tema da pobreza e da Igreja no 3º. Mundo. Entrou em cena uma plêiade de bispos de extrema abertura social, de valor intelectual e evangélico, cuja expressão maior era D. Helder Camara. A Igreja do Brasil firmou a maravilhosa experiência de colegialidade. As CEBs começaram a surgir [LIBANIO, 2007, p. 21-22].

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Data de Recebimento: 21/06/2018
Data de Aprovação: 10/08/2018

Sobre o autor
Emerson Sbardelotti
Emerson Sbardelotti

Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Agente de Pastoral Leigo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Cobilândia, Vila Velha-ES. Catequista de Crisma da CEB Nossa Senhora d...

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