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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
O cristianismo moderno de Dom Paulo Arns
10/05/2018

Resumo: O presente artigo visa apresentar como a atuação pastoral de Dom Paulo Arns na Arquidiocese de São Paulo (1970-1988) estava em sintonia com a mudança de concepção missiológica a partir do Concílio Vaticano II, que não se reduz a uma modernização do catolicismo, mas é fruto de uma hermenêutica de volta as fontes na qual se identifica a capacidade do Evangelho em ser moderno. Para tanto se pretende uma breve explanação da categoria Reino de Deus e as mudanças que sofreu em momentos fundamentais da história. Ao mesmo tempo em que ao ser resgatada como categoria central da evangelização pós-conciliar, o Reino de Deus é também uma chave de leitura fundamental para compreensão da teologia prática do arcebispo da esperança da cidade São Paulo. O modo como a evangelização ligada a ideia de tornar presente o Reino de Deus pode se verificar em alguns de seus principais projetos pastorais, que aqui se pretende apresentar.

Introdução
O Concílio Vaticano II ressignifica e revisita a semântica teológica da missão na Tradição católica a partir de seu movimento hermenêutico do ad fontes, e inicia a superação da ideia de missão que coincide com cristianização que se sustentou e ao mesmo tempo justificou o projeto político e sociológico de Cristandade. A evangelização como concebida no Concílio assumia a tarefa de resgate do anúncio do núcleo do Evangelho, a saber o Reino de Deus revelado por Jesus Cristo em seus gestos e palavras, fonte para toda a sistematização teológica e dinamismo de toda a teologia prática, de onde também Deus se dá a conhecer, na compreensão cristã. Há com isso não uma modernização do catolicismo, apesar de o efeito final parecer ser o mesmo para alguns, mas há a recuperação do Cristianismo e sua capacidade de ser moderno ao apregoar uma boa nova enquanto modo alternativo de viver a cultura (JAEGER, 1991; VAZ, 2002, p. 105-110).

Tal postura levou a uma dissociação do Reino de Deus com as estruturas políticas de caráter imperial para realocá-la na categoria de Povo de Deus, sujeito político por excelência que reivindica o bem comum e inclui especialmente os que mais precisam em sua opção pelos pobres. Seguindo o espírito e o dinamismo pós-conciliar do magis magisque, conforme concebido por Paulo VI (Ecclesiae Sanctae, 1), de “cada vez mais” adentrar o Cristianismo na sociedade moderna, Dom Paulo Arns parece conceber sua eclesiologia como recepção proativa da Evangelização que tinha como centro o Reino de Deus e a comunidade cristã como consequência pela identificação com o anúncio do modo de vida de Jesus Cristo. Concepção essa que, assim como de Francisco, bispo de Roma, critica a autorreferencialidade eclesial que confunde missão com autopromoção eclesial, quando não hierárquica (Evangelii gaudium, 8).

O Concílio Vaticano II retoma uma categoria central da Tradição cristã que é o Reino de Deus e seu substrato semântico teológico iria, entre outras coisas, criar o neologismo evangelização que aparece pela primeira vez como categoria oficial na semântica da Tradição católica no Concílio Vaticano II re-colocando a centralidade do Reino de Deus no centro da ação eclesial, e ainda identificando-o para além dos limites confessionais. O termo não aparece nem antes de Pio XII, e até mesmo em João XXIII ele está ausente, podendo se dizer que é um termo tipicamente conciliar, pois é nas discussões do Vaticano II que ele é concebido como ressignificação missionária que resgata a compreensão do Reino de Deus no anúncio do Evangelho. Essa ressignificação da missão, que passa a se chamar Evangelização, já em sua nomenclatura implica uma volta ao anúncio do que o Evangelho proclamava, a saber as narrativas que tratam do kerigma anunciado por Jesus Cristo, que em última instância dizem respeito ao Reino de Deus e, consequentemente, uma postura em relação a vida que implica o reconhecimento da ação do amor de Deus (testemunho), configurador de um estilo de vida marcado pelo signo do amor e disposição do serviço ao mundo (diaconia).

Tal labor não é mero exercício de adaptação de linguagem, mas revisão metanoica, enquanto implica uma mudança de mentalidade que atinge o modo de ser cristão no Mundo, que ao invés de meramente cristianizá-lo por via da expansão institucional, visa a expansão do Reino de Deus, tanto em sua forma confessional cristão, como sabendo reconhecer os sinais do Reino em diferentes confissões religiosas e mesmo em âmbitos não-religiosos.

Tal reconhecimento não é mera adaptação, mas resulta de um itinerário de salvação, que da graça imerecida se faz caminho de fé confiante nesse Amor e abertura para amar e servir como forma de gratidão, especialmente a quem mais precisa, processo que se desdobra na dinâmica da graça-gratidão gratuidade, implicando não somente um discurso, mas um processo de subjetivação agápica que desdobra no alargamento de uma consciência ética ainda que ciente de sua falibilidade, faz a opção fundamental de humanizar o humano por meio da vida de Jesus Cristo. Com isso não nega outras formas de humanização do humano, mas antes reconhece como sinais do Reino de Deus, e quando estas formas todas se unem em prol do humano, melhor se evidencia a dinâmica da graça reúne todo o Povo de Deus. Evangelização, portanto, tem a ver com “tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Evangelii gaudium, 176), de modo que “nenhuma definição parcial e fragmentada, porém, chegará a dar razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a evangelização, a não ser com o risco de a empobrecer e até mesmo de a mutilar”. A evangelização pós-conciliar só é possível de se entender dentro de uma abrangente “visão de conjunto” e “todos os seus elementos essências” (Evangelii nuntiandi, 17), concepção essa que Dom Paulo Arns (1921-2016) parece ter assumido em seu episcopado.

1. Evangelização do mundo moderno como presença do Reino de Deus
A teologia conciliar ao recuperar a teologia do Reino de Deus gera a compreensão de que há uma “revelação na práxis” (METZ, 1999, p. 246-255), sendo a tarefa da ressignificação da Tradição cristã em diálogo com o mundo moderno não somente uma adaptação retórica, mas uma verdadeira metanóis, uma mudança de mentalidade no modo de ser, do qual emerge o anúncio da presença de Deus onde Seu Reino se manifesta. A Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II diz que a revelação do Mistério de Deus se dá por meio de “gestos e palavras (gestis verbisque), intimamente relacionadas (connexis) entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido” (Dei Verbum, 2).

Deste modo, essa categoria, gesta et verba, indica a pedagogia divina, que por vezes se dá a conhecer claramente (Palavra), mas em outras vezes, se faz conhecer também em Sua eloquente e silenciosa presença. Os gestos são categorias que pedem uma contemplação silenciosa, uma atenção cheia de reverência ao Mistério que naquele gesto se esconde. O gesto enquanto forma de Revelação se situa dentro da questão da linguagem teológica que o Vaticano II apresenta como tarefa de revisão do dogmatismo formalista da segunda escolástica, pois “uma coisa é o próprio depósito de fé ou as verdades e outra é o modo de enuncia-las, conservando-se, contudo, o mesmo sentido [sensu] e significado [sententia]” (Gaudium et Spes, 62). Tais termos sensu e sententia remetem ao método teológico de Hugo de São Vitor (1096-1141), no século XII, que é resumido em uma fórmula célebre: littera, sensu, sententia. O método sugere que se apreenda o significado imediato da palavra (sensus), a partir da sua articulação literal (lettera), determinando a interpretação do conteúdo doutrinal. A “lição” (lectio) se torna uma “questão” (questio) (CHENU, 1983: 412), um tema a ser problematizado, criticado, aprofundado, revisitado até alcançar maior profundidade na pedagogia vitoriana, ou seja, de mero conteúdo se desdobra em uma questão problematizada que visa uma “compreensão mais profunda” (profundior intelligentia).

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Data de Recebimento: 12/04/2018
Data de Aprovação: 08/05/2018

Sobre os autores
Alex Villas Boas
Alex Villas Boas

O autor é professor de Teologia Sistemática no Instituto de Teologia João Paulo II e professor de Teologia e Literatura na Escola Dominicana de Teologia; membro pesquisador da Asociación Latinoamericana de Literatura ...

Welder Lancieri Marchini
Welder Lancieri Marchini

Doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP, bolsista CAPES. Estuda a religião em contexto urbano. Participa do Grupo de Pesquisa Teopatodiceia: Espiritualidade, Cultura e Práxis, PUC-PR, e do Grupo de Pesquisa Reli...

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