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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Os desafios da sinodalidade retomados por Francisco
20/06/2018

Resumo: Diante de uma dupla e consensual constatação de que a Igreja vive o necessário momento de renovação e que isso reivindica uma desafiadora fase de reformas, de ânimo novo e de um processo de saída, entende-se que a alternativa encontra-se no caminho da sinodalidade. Nele está contida a resposta para um novo e sistematizado momento da evangelização. Isto é, para a organização de uma renovada forma de transmissão da fé na contemporaneidade. O Papa Francisco tem dedicado todos os seus esforços para fazer viver as decisões do Concílio Vaticano II. Neste sentido, desde o seu primeiro gesto de pedir ao povo as bênçãos sobre si, até a mais simples atitude de valorizar cada pessoa em particular, especialmente os pobres, ele motiva a todos os fiéis para uma corresponsabilidade evangelizadora mediante o serviço atrelado à mística da cruz.

Introdução
Numa cultura que alcançou tantos avanços tecnológicos nela, paradoxalmente, estão arraigadas muitas facetas de individualismo, clericalismo, estrelismos, e tantas outras limitações que acabam travando o sinuoso processo de integração do seu humano. Diante disso, a Igreja na contemporaneidade, sob a orientação do Papa Francisco, tem a consciência da necessidade de retomada do processo de sinodalidade em vista de uma realização humano-cristã. Frente a isso, indagamos: como possibilitar que o ser humano, criado no amor de Deus, possa contribuir para o fomento da teologia da sinodalidade? O presente texto objetiva argumentar que se faz necessário um processo global de educação para o coletivo na comunidade eclesial. Objetiva-se neste pequeno texto, tecer algumas reflexões na perspectiva dos desafios da sinodalidade na Igreja de hoje, cujos traços eclodem nos ensinamentos do Magistério do Papa Francisco.

1. Conceituando e compreendendo
Sem uma correta compreensão e autocrítica de todos os batizados e do seu papel na vida da Igreja, entende-se que, dificilmente serão colocados em prática os esforços para a construção da sinodalidade, em seu sentido genuíno. “Etimologicamente o termo ‘sinodalidade’ significa ‘caminhar juntos’ e será aqui empregado num sentido lato que, embora privilegie a Igreja local, não se limita à mesma, abrangendo (...) todas as relações dos fiéis no interior da Igreja.”[2] Essa compreensão reivindica de todos os batizados o retorno a uma mentalidade cujo entendimento requer uma mudança do imaginário social presente até então, o que requer tempo e paciência nessa tarefa nada fácil. A estrutura eclesiológica hodierna carece de uma compreensão clara do sentido da autoridade na vida da Igreja.

Na perspectiva eclesiológica (do mistério) da Igreja como comunhão das igrejas locais, a sinodalidade, por conseguinte, se entende antes de mais nada em seu sentido estrito: tem concretamente em conta a comunhão neste lugar, é dizer, a catolicidade interna da Igreja local, a sabre: da Igreja que se realiza neste lugar por meio da diversidade dos carismas e dos ministérios, das vocações e dos estados de vida (cf. LG 32ª). Assim como a corresponsabilidade (da Igreja dos sujeitos) é diferenciada em virtude da diversidade dos carismas, a sinodalidade (da Igreja-sujeito) é plural: cada batizado desempenha no seu desenvolvimento e pode dar sua opinião. É claramente a catolicidade o que está em jogo na sinodalidade.[3]

A necessidade da inclusão dos diferentes sujeitos nessa caminhada comum que se estende por toda a Igreja, desde o seu sentido universal, passando pelas dioceses, paróquias e todas as comunidades, fomentando um espírito de comunhão que é própria de sua vocação. Para o processo de implementação de uma Igreja sinodal na atualidade, muitos desafios precisam ser enfrentados, tais como o enfrentamento de algumas “resistências de alguns, devido a razões diversas: aversão a mudanças, medo de perda de poder e prestígio, ceticismo pela complexidade da tarefa, sentimentos de insegurança, para citar só alguns”.[4]
[2] MIRANDA, Mário de França. Uma Igreja sinodal, p. 10.
[3] BORRAS,A. Sinodalidad eclesial, processos participativos y modalidades decisonales. In: SPADARO, A; GALLI, C. M. La reforma y las reformas em la Iglesia, p. 235.
[4] MIRANDA, Mário de França. Uma Igreja sinodal, p. 10.

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Data de Recebimento: 22/05/2018
Data de Aprovação: 18/06/2018

Sobre o autor
José Aguiar Nobre
José Aguiar Nobre

Pós-doutorando em Educação com Bolsa do PNPD da CAPES no PPG em Educação da PUC Campinas. Concluindo também a pesquisa de Pós-Doutorado em Filosofia na UFPR. Doutor em Teologia, na área de Teologia Sistemático-Pastora...

Comentários
Lígia Menezes

Parabéns Padre José!!! Excelente reflexão . Que Deus continue te iluminando com muita sabedoria. Sucessos.

14/03/2019
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