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Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
Papa Francisco e a inserção dos cristãos leigos e leigas na política
15/02/2018

Resumo: O presente texto foca de modo especial nos ensinamentos do papa Francisco referentes á temática política. A reflexão parte do Vaticano II, passa pelas Conferências do Episcopado latino-americano – de Medellín a Aparecida – e examina os Discursos do Papa Francisco aos movimentos sociais e conclui com rápido exame da Carta enviada pelo Pontífice ao Cardeal Marc Oullet, Presidente da Pontificia Comissão para a América latina, sobre o compromisso social e político do laicato.

Introdução

Lembro-me ainda de uma afirmação que Bento XVI fez em seu discurso inaugural na V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, em Aparecida, São Paulo, 2007:

“... E os leigos católicos devem ser conscientes de sua responsabilidade na vida pública; devem estar presentes na formação dos consensos necessários e na oposição contra as injustiças” (DAp, p. 260).

“... Convém preencher a notável ausência, no âmbito político, comunicativo e universitário, de vozes e iniciativas de líderes católicos de forte personalidade e de vocação abnegada, que sejam coerentes com suas convicções éticas e religiosas. Os movimentos eclesiais têm aqui um amplo campo para recordar aos leigos sua responsabilidade e sua missão de levar a luz do Evangelho à vida pública, cultural, econômica e política” (DAp, p. 261).

O Papa Francisco tem abordado o tema com toda a Igreja, e, de modo especial, buscado a interlocução com os fiéis leigos e leigas que exercem responsabilidades na vida pública. Na EG, n. 205, diz o papa:

Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente a sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer de que a caridade “é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos”. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E por que não acudirem a Deus pedindo-lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir de uma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia entre a economia e o bem comum social.

Nesse sentido, a religião não pode ser relegada ao intimismo, sem qualquer relação com a vida, sem se preocupar com a promoção social. Muitos são os cristãos de “boa-fé” que dizem que religião e política não se misturam e, chegam, até mesmo, a fazer uma oposição acirrada entre a fé e a vida, Igreja e mundo, com uma mentalidade e prática que dificultam e, até mesmo, impedem a vivência de uma fé integral (cf. CNBB 105, n.133).

A falta de interesse pela política

Muitos cristãos olham o mundo e se fecham sem um olhar crítico à realidade que os cerca, principalmente com respeito ao mundo da política. Encontramos em muitos o desinteresse à participação, à discussão política e, principalmente, à política partidária.

Na atual conjuntura política brasileira, marcada pelo conflito de interesses da elite brasileira, que acumula poder e fortuna de modo escandaloso, em detrimento dos interesses dos trabalhadores, aumentando a multidão de excluídos, rejeitados, descartados, “a corrupção e a impunidade estão levando o povo ao descrédito na ação política e nas instituições, enfraquecendo a democracia... Os poderes constituídos precisam assumir sua responsabilidade diante da corrupção e da impunidade” (nota CNBB, 21/06/2007).

Em todos os setores da população, especialmente entre os jovens, cresce o desencanto pela política e pela democracia, pois as promessas de uma vida melhor e mais justa para todos os brasileiros não se concretizaram.

Com isso, muitos se fecham no interno da Igreja, esquecendo-se “de que a democracia e a participação política são frutos da formação que se faz realidade somente quando os cidadãos são conscientes de seus direitos fundamentais e de seus deveres correspondentes” (CNBB, Democracia e ética, 2006).

A esse respeito, o Papa Francisco diz:

... É preciso prestar atenção à dimensão global para não cair em uma mesquinha cotidianidade. Ao mesmo tempo convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com os pés por terra. As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidadão vivam num universalismo abstrato e globalizante, miméticos passageiros do carro de apoio, admirando os fogos de artifício do mundo, que é de outros, com a boca aberta e aplausos programados; o outro extremo é que se transformem num museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras (EG, n. 234).

Não podem, portanto, os cristãos leigos e leigas abdicarem da política do bem comum (cf., n. 42). Estar na política é missão própria dos cristãos leigos e leigas, chamados a assumirem essa responsabilidade para que a sociedade seja justa (cf. AA, n. 14).

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Data de Recebimento: 21/11/2017
Data de Aprovação: 21/11/2017

Sobre o autor
Marilza José Lopes Schuina
Marilza José Lopes Schuina

Presidente do Conselho Nacional do Laicato no Brasil.

Comentários
Vitor

Teste no celular...

10/10/2018
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Editorial
02/02/2018

A conjuntura política brasileira configura a cada dia o retrato sempre mais nítido de retrocessos sociais e políticos. As conquistas sociais de décadas estão sendo dissolvidas a golpes rápidos, sem qualquer cálculo das consequências imediatas e futuras para a nação...