Nome da
ARTIGOS

Edição 49 - Ano XI - Janeiro/Março 2015 - ISSN 1809-2888
Reahu – Dança, canto e comida no jogo simbólico de alianças e tensões: elementos etnográficos para a analise de um ritual yanomami
01/03/2015

Introdução

O povo Yanomami vive na floresta tropical do oeste do maciço guianense. Ocupa um território de aproximadamente 192.000 Km², nos dois lados da fronteira entre Brasil e Venezuela, formando um vasto conjunto cultural e linguístico. A população total dos Yanomami contava, em 2006, com cerca de 33.100 pessoas. (ALBERT; MILLIKEN, 2009). A Terra Indígena Yanomami tem uma extensão de mais de 9 milhões de hectares, nos Estados de Roraima e Amazonas, sendo habitada por 21.249 pessoas, divididas em 285 comunidades. (Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, 2014).

O presente artigo se propõe a apresentar alguns elementos etnográficos e uma análise de três sequências rituais do reahu, a grande cerimônia yanomami que, desconsiderando as fases preparatórias, dura cerca de uma semana. Uma aproximação analítica do reahu, embora rápida, permite entrever sua complexidade devida à multiplicidade dos aspectos que articula, atualizando periodicamente – pela performance de xamãs, cantos, danças, jogos, diálogos cerimoniais, distribuição de alimentos etc. – as categorias fundamentais da organização social e da cosmologia yanomami. (ALBERT, 1985).

A sintética apresentação das fases anteriores de desenvolvimento do reahu compõe o cenário que permite enquadrar e descrever com maiores particulares três sequências desta cerimônia: a dança praiai de apresentação dos convidados, a distribuição do mingau entre anfitriões e hóspedes, e a dança e canto hwakëmu entre homens e mulheres. Tais momentos expressam enfaticamente as três fundamentais formas de troca e comunicação que constituem uma sociedade, conforme apontadas por Lévi-Strauss ([1953] 1985).

O objetivo desta análise é, a partir da comparação de dados fornecidos por bibliografia etnográfica e recolhidos pessoalmente no campo, evidenciar o simbolismo e a polissemia expressos pelos três rituais considerados, com base na constatação de Turner (1974) de que os símbolos expressam os valores centrais e as tensões de uma sociedade, e seus rituais são fatores de coesão e produtores de contradições, e no estudo de Albert (1985) que evidencia o antagonismo e a complementaridade em várias esferas de relações, nas sequências do reahu. O estudo pretende, desta forma, evidenciar como o simbolismo dos rituais reflete uma dinâmica própria da estrutura social yanomami.

O reahu

O reahu é a grande cerimônia realizada entre os Yanomami, geralmente congregando numerosos membros de comunidades distintas, com o objetivo manifesto de celebrar a última etapa do ritual funerário, que consiste na consumação real ou simbólica das cinzas mortuárias. [2] Tais ocasiões podem ser consideradas, sem exagerar, como o ponto chave ao redor do qual gira toda a vida dos Yanomami, já definidos como “povo da festa”. A abundância de alimento que correria o perigo de se estragar – razão que frequentemente foi colocada para justificar tais acontecimentos – constitui apenas um pretexto: as motivações profundas da celebração são de caráter social, político e religioso, enquanto a preferência dos primeiros meses do ano para a realização de tais festas é devida à abundância de fruta e à facilidade dos deslocamentos na floresta durante a estação seca. (COCCO, 1987).

O nome reahu, em língua yanomae – uma das línguas da família linguística yanomami – indica, em sentido amplo, o conjunto dos rituais que acontecem ao longo de alguns dias. Este termo expressa, contudo, especificamente, a distribuição (reahuai) de carne de caça acompanhada de outro alimento vegetal que acontece como última sequência da cerimônia. [3] Comumente, traduz-se o termo reahu por “festa”, o que não deixa de ser apropriado, pelo fato desta ocasião conseguir condensar um grande número de pessoas – hóspedes e convidados – entre os quais se estabelecem interações diferentes das ordinárias, por proporcionar uma extraordinária quantidade de alimentos a serem partilhados, pela riqueza da coreografia que comporta pinturas corporais e enfeites, e pela performance de danças, cantos, diálogos rituais e atividades xamânicas. Enfim, por todo um clima que destaca um acontecimento que quebra a monotonia do cotidiano: um processo ritualizado realizado por pessoas que celebram algo que precisa ser solenizado.

Expondo uma convicção comum entre os Yanomami, Davi Kopenawa narra ter sido Omama, o demiurgo criador, a “ensinar-nos a realizar as festas reahu e colocar em estado de esquecimento as cinzas de nossos falecidos.” (KOPENAWA; ALBERT, 2010, p. 412). Diversos mitos tratam da origem destas festas, que em tais registros narrativos está atrelada às instruções que Omama deu aos Yanomami, referentes a muitos costumes: pinturas corporais, diálogos cerimoniais, cantos, rituais funerários etc. (WILBERT; SIMONEAU, 1990).

O ESPAÇO SOCIAL DO REAHU

A etnografia composta por Albert, superando o foco restrito na organização de um grupo local de corresidentes (yahitheripë), ligados por parentesco cognático, preferencialmente endogâmico – que constitui a “mônada política ciumenta de sua autonomia e sua soberania” e pode ser considerada a “unidade social de base das relações político-simbólicas intercomunitárias yanomami” (ALBERT, 1985, p. 202-203) –, tem o valor de mostrar a existência de uma ampla teia de relações que envolve um conjunto multicomunitário (nohimotima thëpë), mas que ultrapassa até os limites da humanidade esboçando a abrangência de um universo sócio-cosmológico complexo. [4]

A participação a diversos reahu, entre as comunidades Yanomami localizadas na região do médio rio Catrimani e na serra dos Opik?theri, na Terra Indígena Yanomami, permite afirmar que tais eventos são essenciais nas relações entre grupos locais e, geralmente, realizados entre aliados. Esses grupos compõem um conjunto multicomunitário, que se sustenta por vínculos matrimoniais: forma privilegiada para estabelecer alianças políticas e relações de troca. [5] As comunidades que compõem um conjunto recebem e retribuem o convite para participar de tais cerimônias, várias vezes ao ano. Os convites circunscrevem concretamente o círculo dos aliados políticos, além do qual se situam os inimigos “atuais (nabëthëbë), antigos ou virtuais (hwãthohothëbë) e desconhecidos (tanomaithëbë)”. (ALBERT, 1985, p. 438).

Tal quadro etnográfico mostra um sistema multilocal complexo articulado por vínculos rituais – a realização de reahu – e por relações políticas – uma rede de lealdades e inimizades –, e “organizado em círculos concêntricos espaciais que permitem a correlação proximidade: distância: agressão: convivialidade.” (SZTUTMAN, 2005, p. 168). Sztutman enfatiza que, na tese de Albert, o ritual coletivo reahu e a trama de agressões xamânicas, são considerados “meios de operar uma comunicação multilocal, pois ambos definem-se pela oscilação entre o polo da aliança (relativização das diferenças) e da inimizade (maximização das diferenças).” (2005, p. 168).


[2] O ritual osteofágico, real ou simbólico, é realizado no encerramento do reahu e, certamente, constitui a razão de ser desta cerimônia compósita. Contudo, não sendo o foco deste ensaio, será rapidamente apresentado apenas nesta nota. As cinzas funerárias são obtidas pela pulverização dos ossos calcificados dos falecidos. Os ossos são queimados separadamente dos outros restos mortais, depois da exposição do corpo na floresta durante algumas semanas. Contudo, em determinados contextos – dependendo da causa da morte, da situação da comunidade ou do status do falecido – o corpo inteiro pode ser queimado logo depois do falecimento. As cinzas são recolhidas em pequenas cabaças e distribuídas para várias pessoas que se encarregam de realizar cerimônias reahu, durante um tempo que pode chegar a alguns anos, até que todas as cinzas sejam sepultadas ou consumidas. Os rituais que envolvem as cinzas funerárias conservadas pelo anfitrião principal de um reahu, começam na véspera do último dia da festa e se caracterizam por diversas sequências: o diálogo hiimou, para convidar, entre os hospedes, o coveiro principal que manuseará as cinzas, a preparação da cabaça funerária, o choro cerimonial, a inalação do pó alucinógeno yakoana, a “consumação” real ou figurada das cinzas – com muitas variantes dependentes da idade, do status e da razão da morte do falecido (Cfr. ALBERT, 1985, p. 495-508). Os rituais que encerram o reahu consistem no diálogo cerimonial ya?mou de troca, seguido raramente de duelos, e finalmente, a distribuição (reahua?) do viático cerimonial que justifica o nome do conjunto de ritos que compõem a festa. Escrevemos que o reahu é realizado “geralmente” envolvendo comunidades distintas para a celebração do ritual funerário, pois presenciamos à realização ocasional de “pequenos reahu”, entre os membros de uma mesma comunidade ou recebendo alguns convidados, mas sem seguir todas as etapas que constituem o roteiro do reahu. Estas ocasiões menores se configuram, portanto, como uma partilha de alimentos, intracomunitária, mesmo na ausência de cinzas mortuárias, e os Yanomami se referem e elas dizendo: “yamak? ia? puo” ou “yamaki reahumu puo”, que podemos traduzir por “consumimos alimentos, sem outra razão” ou “realizamos um reahu tanto por fazer”, pois o sufixo “puo” indica algo parecido com “fazer de conta”. Apesar de referir-se a outra língua da família linguística yanomami, para informações sobre os termos em língua yanomae, ver Lizot (2004).

[3] Cocco (1987, p. 339), partindo de seu ponto de vista e percepção, descreve o reahu como “festa do pão, carne e cinzas”. Podemos entender sua expressão nesses termos: “do pão” porque não pode faltar o alimento base em abundância (bananas, pupunha, milho ou mandioca); “da carne” porque tais festas são sempre precedidas por caçadas ou pescarias coletivas que dão grandes resultados; “das cinzas” porque durante tais festas são consumadas simbólica ou efetivamente as cinzas dos ossos calcificados e pulverizados dos falecidos.

[4] Albert retoma o conceito de “conjunto multicomunitário” de Clastres (2012), referindo-se a certo número de grupos locais Yanomami que mantêm entre si relações matrimoniais como forma privilegiada para estabelecer alianças políticas intercomunitárias. Para a descrição da organização intercomunitária – com foco nos conjuntos multicomunitários de aliança – e da classificação das relações interpessoais, ver Albert (1985, p. 189-235).

[5] O estudo, ainda parcial, dos deslocamentos, das fusões e cisões, realizados no último século pelas comunidades localizadas hoje na beira do rio Catrimani, e a análise da frequência de casamentos exogâmicos e da reciprocidade dos convites dos reahu, permitem desenhar, para cada comunidade, o conjunto multicomunitário de referência. A maioria dos reahu aos quais o autor participou e onde coletou as informações para este artigo, foram realizados entre 5 comunidades localizadas ao longo do rio Catrimani, a uma distância máxima de 20 Km uma da outra, que compõem o conjunto multicomunitário de referência da comunidade dos Uxixiutheri.



Sobre o autor
Corrado Dalmonego
Corrado Dalmonego

Mestrando PUC/SP

Editorial
01/01/2015

A Edição 49 de Ciberteologia inaugura o 10º aniversário deste periódico totalmente on-line que surgiu, em 2005, como uma novidade na área de teologia e cultura.

  • Artigos
    01/03/2015

    A partir da discussão sobre o estado atual dos estudos das religiões afro-brasileiras, este artigo aborda o desenvolvimento desses estudos através da análise bibliográfica do que foi produzido ao longo dos anos deste seu início no fim do século XIX. Partindo daquele que é considerado o seu ponto inicial, Nina Rodrigues, até as mais recentes pesquisas, busca-se apresentar as linhas de pesquisa, escolas e metodologias que estabeleceram o estado epistemológico deste campo de estudo.

    01/03/2015

    Folias, ternos de folia, companhia de reis, são muitos os termos utilizados para denominar este tipo de manifestação do catolicismo no Brasil. Apesar da diversidade em suas práticas, os grupos de folia possuem elementos comuns que nos permitem circunscrevê-los dentro de uma mesma categoria. A partir de uma inserção etnográfica em grupos de folia na cidade de Montes Claros (MG), buscamos apontar dados acerca das influências da atual modernização da sociedade nos rituais destes grupos.

    01/03/2015

    No presente artigo, pode-se afirmar que o século XV na Europa assistiu uma consolidação do naturalismo, dos estudos relativos à natureza, ao cosmos, a uma revisão do mapa geográfico, modificando o desenho da Terra. Este artigo aponta para uma série de temas centrados no ícone da Virgem Maria, um assunto polêmico discutido nos concílios da igreja católica. Mas como referir-se à natureza sem mencionar qualquer aspecto sagrado, tendo em vista que o mundo natural não deveria profanar-se com os temas da antiguidade clássica e nem Javé dava-se a conhecer a olhos humanos? Quem a não ser Ela, a mãe do Cristo, poderia assumir este posto de guardiã da natureza?

    01/03/2015

    O Quilombo Brotas localizado na cidade de Itatiba-SP ao ser tomado como lugar de pesquisa de campo em nosso doutoramento através do estudo etnográfico vai revelando particularidades que devem ser consideradas. Neste artigo propomos uma reflexão de caráter intuitivo a partir da análise do detalhe encontrado em campo, quando de nossa descrição densa, conforme nos propõe a antropologia geertziana. Tia Lula era a mãe-de-santo desta comunidade negra, já falecida, metáfora do sagrado expresso pela sua presença ancestral e resignificada no espaço físico da tenda de umbanda atualmente desativada.

  • Notas
    01/03/2015

    Embora pertença à região metropolitana de São Paulo, a cidade de Mogi das Cruzes vive até hoje uma dinâmica parecida com as cidades do interior do Estado: grande parte da vida social de sua população é movimentada por festas e eventos ligados à religiosidade católica. A mais popular delas, a Festa do Divino Espírito Santo, acontece na região central da cidade com a participação efetiva de pessoas de diversos bairros que anualmente reúnem-se por devoção religiosa, mas também organizam outras atividades culturais que preenchem onze dias de eventos abertos a toda população.

    01/03/2015

    O trabalho pretende verificar a influência biográfica do autor João Guimarães Rosa em um dos seus contos, intitulado Campo Geral. Miguilim é uma personagem que integra parte de um conjunto de novelas que o autor denominou “Corpo de Baile”. Ele é um menino de oito anos de idade que apreende acontecimentos ficcionais com uma fala integrada que vai se tornando familiar tanto em sua temática quanto em sua realidade regional.

    01/03/2015

    O texto faz parte de um estudo preliminar que cogita, no Método Educativo de Dom Bosco, uma interação entre a dimensão lúdica e a religiosa. Após tecer um aceno histórico para a biografia e o contexto de João Bosco, seu projeto e sua missão, pergunta-se pelo grau de inovação na sua criação de mecanismos de interação. O articulista o faz a partir da teoria de Vygotsky, tecendo aproximações entre este e Dom Bosco.

    01/03/2015

    No alvorecer do que se costuma denominar de neoateísmo, surgem grupos ateus com formatos semelhantes a cultos religiosos, como é o caso da britânica Assembleia de Domingo (Sunday Assembly), cujos rituais contam com músicas de rock, palestras de cientistas e depoimentos de pessoas que se beneficiaram do “milagre da ciência”.

    01/03/2015

    A relação da religião com a cultura o pensamento de Paul Tillich abre portas para discussão entre duas esferas catalisadoras e difusas ao mesmo tempo, o futebol (enquanto arte) e a religião. Dois fenômenos que com o passar do tempo tornaram-se duas paixões nacionais. O Futebol traz consigo de uma forma sutil e às vezes disfarçada paralelos sobre os mais variados temas da religião, como hinos, liturgia e devoção.

    01/03/2015

    Este texto visa uma aproximação à discussão sobre o fundamentalismo. Pretende-se observar como o fundamentalismo é construído tanto no cristianismo católico romano como no protestante (evangélico), nos dias de hoje. Para isso, usaremos como parâmetro das nossas discussões um diálogo entre a Ciência da Religião e a Literatura. Os textos literários escolhidos com esta perspectiva serão de Saramago e de Júlio de Queiroz.

    01/03/2015

    Esta nota visa apresentar alguns conceitos-chave do método pedagógico-ético de Alfonso López Quintás propondo uma aproximação entre os jogos literários e o jogo da vida. A partir de textos literários pode-se criar um campo de jogo e nele diversos âmbitos, com o referencial de objetos, situações, ideias, ou vivências, para os jogadores. Esses podem ser tanto o leitor e o autor do texto; quanto o leitor e o próprio texto; ou os leitores do mesmo texto, que estabelecem um relacionamento entre eles.