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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Religião e política no Brasil: um olhar sobre o lugar dos evangélicos nas eleições 2018
01/12/2018

Resumo: O presente artigo apresenta uma reflexão inicial sobre o voto evangélico no candidato Jair Bolsonaro, eleito presidente da República. O texto interroga sobre as relações entre política e religião nesse caso concreto e apresenta os números das opções políticas evangélicas. Para isso, estrutura-se em três partes: expõe as possíveis compreensões sobre apoio de fiéis evangélicos, oferece um balanço sobre a composição da bancada evangélica na nova legislatura e analisa a escalada de poder de lideranças evangélicas neste contexto.

Introdução
Muito ainda será pesquisado e analisado sobre o apoio religioso à eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018 e sobre ele ter sido o primeiro candidato, em campanha e depois da vitória, com um discurso identificado como cristão, marcadamente evangélico. Neste primeiro momento pós-eleitoral, é possível refletir sobre alguns elementos na relação religião e política neste processo, particularmente aqueles que dizem respeito ao protagonismo dos evangélicos, e que emergem como desafio para análises futuras mais densas. Este é o objetivo a que este artigo se propõe.

Para isso, o texto está estruturado em três partes: na primeira, apresenta possíveis compreensões sobre intenso apoio de fiéis evangélicos à candidatura de Jair Bolsonaro; na segunda, oferece um balanço sobre a composição da bancada evangélica na nova legislatura; na terceira parte, analisa a escalada de poder de lideranças evangélicas neste contexto.

1. Como compreender a adesão evangélica ao bolsonarismo
O presidente eleito Jair Bolsonaro foi vitorioso entre cristãos, com peso maior entre os evangélicos. A estimativa é de 69% dos votos deste grupo, segundo pesquisa Datafolha, de 25 de outubro de 2018. Neste ponto, há que se considerar que, apesar de se declarar católico, Bolsonaro tem alianças estreitas com políticos e outras lideranças evangélicas.

Seria muito raso atribuirmos a vitória significativa de Jair Bolsonaro entre evangélicos à publicidade em torno da fé cristã, cristalizada no slogan de sua campanha “Deus acima de todos”. Ou ainda, às falsidades disseminadas sobre uma vitória do seu oponente Fernando Haddad ameaçar a existência das famílias e das igrejas. É fato que são componentes significativos na persuasão de fiéis mas é importante também considerar outros elementos, como o perfil socioeconômico do segmento.

Segundo os dados do IBGE, boa parte dos evangélicos vive em áreas urbanas e periféricas e em grande medida entre a população pobre e de baixa renda (TEIXEIRA, MENEZES, 2013). Neste contexto, independentemente de religião, está o sofrimento consequente das ações violentas de facções do crime organizado, das milícias e das polícias. As propostas imediatistas e vingativas da campanha de Bolsonaro para pôr fim à violência urbana (ROSSI, MACHADO, 2018) possivelmente encontraram abrigo nesta população sofrida.

No entanto, é preciso considerar os elementos do mundo e da cultura evangélica que parecem determinantes para a adesão ao bolsonarismo. Estes aspectos estão desenvolvidos profundamente em obra publicada pela autora deste artigo (CUNHA, 2017) e serão sistematizados nos parágrafos a seguir.

Um deles é a moralidade sexual alimentada pela teologia protestante puritana, que descarta a dimensão da corporeidade e da sexualidade relacionada à realização plena da pessoa e ao prazer, e a classifica como pecado e desvio do objetivo maior, a formação das famílias para procriação. Resultado disso é a submissão da mulher ao poder do homem/patriarca (pai, marido, irmãos, tios, filhos, pastor), a repressão do corpo e a condenação da homoafetividade.

O mote da campanha pela “salvação da família”, contra a suposta ditadura dos governos do PT e seu “kit-gay”, certamente obteve ressonância no segmento evangélico. Por mais que se desmentisse a distribuição de um “kit-gay” pelo PT de Haddad e se explicasse o projeto da Câmara dos Deputados, apoiado pela UNESCO, de produção de um material para adolescentes para superação da homofobia nas escolas, o “clique” na elaboração mental e emocional do imaginário evangélico puritano e moralista já havia sido acionado.

Este aspecto está relacionado a outro muito fortemente presente no imaginário evangélico: o combate a inimigos. A teologia de um Deus guerreiro e belicoso, o Senhor dos Exércitos, sempre esteve presente na formação fundamentalista dos evangélicos brasileiros, compondo o seu imaginário e criando a necessidade da identificação de inimigos a serem combatidos. Exércitos precisam de inimigos. Historicamente a Igreja Católica Romana sempre foi identificada como tal e combatida no campo simbólico e também no físico-geográfico. Da mesma forma as religiões afro-brasileiras também ocupam este lugar, especialmente, no imaginário dos grupos pentecostais. O comunismo e seus derivativos são outra forte expressão inimiga desde os anos 1940, com altos e baixos na escala imaginária.

Desde 2010, quando emergiu intensa oposição de líderes evangélicos à candidatura de Dilma Rousseff, muito por conta das pautas progressistas que ela defendia e que integravam o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, aprovado em 2009, estava atualizado o grande inimigo a ser combatido: pessoas, grupos e partidos defensores da justiça de gênero, considerados ameaças à família e à moralidade sexual evangélica.

Somam-se a este elemento os quase 30 anos de cultura gospel, construída via tríade música, mercado e entretenimento, disseminada pelas mídias religiosas e seculares, que tem como uma de suas âncoras teológicas e doutrinárias a “guerra espiritual”. O gospel tem comunicado e ensinado que inimigos da fé, encarnações das potestades do mal, devem ser constantemente combatidos, e eles assumem as identidades bem concretas aqui listadas.

Canções como “O nosso general é Cristo... nenhum inimigo nos resistirá...” foram e ainda são frequente e repetidamente cantadas em boa parte das igrejas, numa educação não-cristã para a eliminação dos diferentes e dos discordantes. Este discurso se alinha diretamente àquele pregado por Jair Bolsonaro, em sua cruzada moral e bélica. Sem falar no discurso autoritário do capitão que encontra identificação com posturas de autoridades mundo evangélico.

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Data de Recebimento: 20/11/2018
Data de Aprovação: 29/11/2018

Sobre o autor
Magali do Nascimento Cunha
Magali do Nascimento Cunha

Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2004), Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1997) e Graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela Univer...

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