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Edição 58 - Ano XIV - Maio/Dezembro 2018 - ISSN 1809-2888
Teologia comunicativa: uma proposta de cultura interativa do fazer teológico na contemporaneidade
16/11/2018

Resumo: A Teologia Comunicativa não é uma teologia de gabinete. Ao contrário, originou-se, há mais de 25 anos, da tentativa de Bernd Jochen Hilberath e Matthias Sharer de aplicarem o método de Interação Centrado em Temas da psicoterapeuta alemã Ruth Cohn em programas de formação teológica e educação continuada, atividades pastorais e educação religiosa nas escolas. Motivados pelo abismo entre a teologia acadêmica e a prática pastoral, estes teólogos alemães concebem a Teologia Comunicativa como uma “cultura” participativa do fazer teológico, uma teologia em processo aberto e vivo de comunicação, que busca aproximar a reflexão teológica da vida de fé. A tarefa central da teologia comunicativa é reconhecer no dinamismo repleto de conflitos gerado pelas interações em grupo uma força dinâmica que não é apenas teologicamente relevante, mas também geradora de teologia. A Teologia Comunicativa visa iniciar um processo teológico de reflexão e aprendizagem intercultural e intereclesial, no qual os “sinais dos tempos” são estudados e as esferas da vida local e global de mulheres e homens são interpretados à luz do Evangelho (GS, n. 4). Baseada no método de pesquisa bibliográfica, especialmente na obra “Communicative Theology” de Hilberath, Hinze e Sharer (2007), o presente artigo pretende expor esta cultura teológica pouco conhecida no Brasil como uma opção válida para se pensar a fé no espaço público contemporâneo. Fazer Teologia Comunicativa significa perceber o mundo de hoje como realmente é e deixar-se ser tocado por ele. “Esse estudo foi financiado em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).”

Introdução
A comunicação faz parte da nossa vida, da nossa fé e mesmo do nosso Deus. O que significa acreditar em um Deus que é em si mesmo relacionamento e comunicação? A comunicação humana vem de Deus, se origina do relacionamento e comunicação do Deus Uno e Trino. O relacionamento de Deus com o ser humano é um evento comunicativo cujo ápice é a Encarnação de sua Palavra na história humana. A relevância desta imagem de Deus para a imagem do ser humano, da sociedade e da Igreja está na imitação da ação do Deus comunicativo que se comunica com suas criaturas, como uma orientação para a vivência da comunicação e comunhão (HILBERATH, 2011).

A Teologia Comunicativa baseia-se na convicção de Bernd Jochen Hilberath e Matthias Sharer de que cada ação de reflexão teológico-científica deve se relacionar com o contexto social concreto em que está inserido local e global (HILBERATH et al, 2007, p. 71). Hilberath critica as teologias que apenas percebem a realidade sob um certo recorte de interesse epistemológico, sem levar em conta a relação Deus, alma e mundo. A teologia deve refletir sobre Deus, ponderando a realidade como seu objeto formal de estudo que faz referência a Deus e demonstra sua ação na história.

De acordo com seus autores, a Teologia Comunicativa se relaciona e se inspira em outras linhas de reflexão teológica como a Teologia da Communio e a Teologia da Libertação. Contudo, não há uma ligação direta com elas e tampouco com a Teoria da Ação Comunicativa de Habermas como muitos questionam por causa da denominação Teologia Comunicativa e pelo local onde esse tipo de reflexão se desenvolveu – países de língua alemã. Seguindo a própria dinâmica da obra base, vamos descrever como surgiu a Teologia Comunicativa no território germânico, o que é e o que não é esse campo teológico e concluir apresentando a possível contribuição desta cultura do fazer teológico para a teologia latino-americana.

1. Como surgiu
A Teologia Comunicativa nasceu da tentativa de aplicar o método de Interação Centrado em Temas para grupos da psicoterapeuta Ruth Cohn na reflexão teológica aproximando-a da vivência cristã (HILBERATH et al, 2007, p. 27). Vamos entender como este método ingressou na área teológica através de uma breve retrospectiva da vida dela. Ruth Cohn era uma judia alemã com conhecimento em economia, psicologia, medicina pré-clínica, psiquiatria, educação, teologia, literatura e filosofia. Cursou seus estudos em Heidelberg, Berlim, Zurique e Nova Iorque. Entretanto, sua especialidade era a psicoterapia. Ela trocou a terapêutica clássica freudiana pela recíproca relação comunicativa entre terapeuta e cliente. Esta experiência deu origem ao princípio de liderança participativa encontrado no entendimento dos líderes dos grupos de Interação Centrado no Tema, TCI (HILBERATH et al, 2007, p. 33). Sua trajetória demonstra como ela chegou ao método de TCI que é o princípio fundamental da Teologia Comunicativa.

Ruth Cohn fugiu da perseguição nazista e emigrou para os EUA em 1941. Em Nova Iorque, ela continuou suas práticas e estudos em psicoterapia. De 1949 a 1973, entrou em contato e aprendeu mais a respeito da terapia de grupo com pioneiros da área como Asya Kadis, Sandy Flowermann e Alexander Wolf. No ano de 1955, Ruth Cohn inicia o workshop “Contra-transferência” que será a base da Interação Centrada no Tema (TCI). Deu continuidade ao trabalho com a fundação do instituto de treinamento de TCI em 1966. Ruth retornou à Europa em 1974 e tornou-se professora de TCI em Hasliberg Goldern, Suíça. Neste período o método do TCI chega ao conhecimento de muitos pensadores de diferentes áreas do saber, inclusive à teologia. Ruth Cohn faleceu em Düsseldorf em 30 de janeiro de 2010 (SITE RUTH COHN INSTITUTE).

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Data de Recebimento: 20/10/2018
Data de Aprovação: 11/11/2018

Sobre o autor
Aline Amaro da Silva
Aline Amaro da Silva

Aline Amaro da Silva é jornalista, mestra e doutoranda em teologia pela PUCRS, com conhecimento em fotografia, design gráfico, web e marketing digital. Atua na formação teológica e comunicacional de catequistas e evan...

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