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NOTAS

Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
O Quilombo de Brotas: urbano e pentecostal
15/02/2018

“Ser quilombola é ter história para contar, uma cultura para ser dividida”

Resumo: O artigo abre um diálogo com a tese de Antônio Boareto, intitulada Os Orixás e o Senhor Jesus na Casa de Mãe de Santo. Análise da construção cultural da Religião no Quilombo Brotas em Itatiba-SP, revisitando a estrutura, apontando tópicos significativos além de tecer observações pontuais. Diálogo que possibilita explicitar, ainda que brevemente, as especificidades deste Quilombo urbano pentecostal.

Introdução

Segundo a Fundação Palmares, no Brasil temos cerca de 3.000 Comunidades Quilombolas. Alguns dados, na Bahia são 718, no Maranhão 653, em Minas Gerais 275 e no Pará 245. Dados indicativos da importância da tese de doutorado de José Antônio Boareto, intitulada, Os Orixás e o Senhor Jesus na Casa de Mãe de Santo. Análise da construção cultural da Religião no Quilombo Brotas em Itatiba-SP, defendida no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião /PUCSP, em 13 de junho de 2017.[1]

Trazer realidade quilombola para a Academia contribui para retirá-la da invisibilidade, invisibilidade esta utilizada preteritamente como forma de resistência, hoje, manipulada pelas grandes empresas agrícolas e imobiliárias, com o apoio da mídia, para conferir-lhes a não existência, a não territorialidade, enfim a ausência de direitos e a garantia no seu ser específico.

Vale lembrar que atualmente 199 comunidades estão aguardando análise do Instituto Palmares para receber a certificação de Comunidade Remanescente de Quilombos, e que o governo atual paralisou as demarcações de terras quilombolas atendendo interesses da bancada ruralista do Congresso Nacional.[2]

Significativo, também, ter apontado na tese as diversificadas formas de opressão a que a comunidade está submetida e mostrar sua histórica vivência de luta pelo direito à terra e dignidade humana.

Boareto procurou recuperar não um passado congelado, mas, antes, reabriu debates cruciais e atuais. A historiografia tem reiterado que a escravidão permeou as construções sociais brasileiras no século XIX, mas não só elas. Ainda hoje, a mentalidade escravocrata continua incrustada no imaginário e no tecido social brasileiro, a tese aponta claramente para este dado.

Dois exemplos recentes ilustram bem o que acabamos de afirmar: o elogio do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luis Roberto Barroso a Joaquim Barbosa,[3] e as fotos publicadas na internet de estudantes do Colégio Anchieta de Salvador, colégio de classe média alta, vestidos de Ku Klux Klan.[4]

Na apresentação do trabalho de Boareto, percorreremos a estrutura da tese, dando conta da recepção do seu texto, tecendo comentários e fazendo observações e deixando alguns tópicos para a reflexão dos futuros leitores.

O fato de ter participado da Qualificação, momento que antecede a defesa propriamente dita, possibilitou uma avaliação mais refinada do trabalho final.

[1] Participaram da banca os professores (as) doutores Edin Sued Abumanssur (orientador), Breno Martins Campos, Lucia Helena Oliveira Silva, Teresinha Bernardo e Ênio José da Costa Brito.

[2] Atualmente, existe uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin), no Supremo Tribunal Federal, apresentada pelo partido Democratas, que pede a revogação do Decreto 4.887/2003, editado pelo presidente Lula e que regulamenta a titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos.

[3] Luís Roberto Barroso, na cerimônia de aposição do retrato de Joaquim Barbosa na galeria de ex-presidente da Corte, em 07/06/2017, referiu-se a Barbosa como “negro de primeira linha”.

[4] Estudantes se vestem de Ku Klux Klan na Bahia e causam revolta: https://www.pragmatismopolitico.com.br/. Acessado em: 10 de junho de 2017.

Também em PDF

Data de Recebimento: 14/10/2017
Data de Aprovação: 22/10/2017

Sobre o autor
Ênio José da Costa Brito
Ênio José da Costa Brito

Professor titular do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da PUC-SP, Coordenador do Grupo de Pesquisa “Imaginário Religioso Brasileiro (Veredas)” e Vice-Coordenador do Centro de Estudos Culturais A...

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