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RESENHA

Edição 57 - Ano XIV - Janeiro/Abril 2018 - ISSN 1809-2888
Cristo e o Universo: A visão mística de Teilhard de Chardin.
15/02/2018

A obra de Aparecida Vasconcelos, Cristo e o Universo. A visão mística de Teilhard de Chardin, publicada pelas Paulinas vem enriquecer a Coleção Interfaces, que premia a melhor tese realizada a cada dois anos nos Programas de Pós Graduação em Ciências da Religião e Teologia.  

A autora retoma uma linhagem de recepção da obra de Teilhard de Chardin realizada no Brasil, especialmente, nas décadas de 1960 e 1970 por autores, como Henrique Lima Vaz, Pedro Dalle Nogare, Leonardo Boff e bem mais tarde por Frei Betto (1990). Ao revisitar a cristologia cósmica de Teilhard  aponta novas veredas a serem exploradas no campo da ecoteologia e da espiritualidade.

Vasconcelos elege como categoria analítica axial a concepção teológica, original e inovadora da “cristogênese”, que significa “a presença e a ação do Cristo crescendo sempre mais no cosmo até a sua segunda vinda “ (p.13),  para ampliar e explicitar potencialidades presentes na dogmática cristológica. Assim, conceitos como encarnação, cruz/redenção, ressurreição/Eucaristia/ parusia, ao serem retomados adquirem novos sentidos e atualidade na cristologia cósmica teilhardiana.

A intencionalidade de cada um dos três capítulos é desvelar, gradualmente, a extensão e riqueza da noção de cristogênese, na história do cosmo, na história do ser humano e como divinização e transfiguração. Para responder a questão: como se realiza a cristogênese na história do cosmo? Vasconcelos abre o diálogo com temáticas da evolução cósmica e biológica, pois no bojo desses dois domínios científicos Teilhard plasmou sua cosmovisão. Cosmovisão, que também deita raízes na sua profunda experiência espiritual, que vislumbra a ação do Espírito, sob a atração do Cristo-Ômega no processo evolutivo. “O universo de Chardin, tal como ele é sistematicamente apresentado em sua obra O Fenômeno humano, foi se desenvolvendo passo a passo, num sistema animado, complexo e convergente. A matéria adquire formas sempre mais complexas: átomos, moléculas, células, multicélulas, até chegar ao máximo de complexidade no ser humano, sob a atração do Cristo–Ômega “( p.31).

O dogma da criação jamais foi colocado em causa por Teilhard, para ele, o ato criador apresenta-nos um Deus que mergulha em sua criação (Cf. p.37). “O ato criador concebido na dinâmica de um mundo em evolução testifica que a criação é contínua. A evolução produz sem cessar algo novo, o que implica a continuidade da ação divina”  (p. 44). Assim , o cosmo sob a ação do amor divino em sua evolução (cosmogênese) é compreendido como um crescimento do Cristo no mundo (cristogênese).

Após este primeiro passo, a autora, empreende uma reflexão sobre a presença  da cristogênese na história do ser humano. A análise dos mistérios da vida de Cristo, numa perspectiva cosmológica e evolutiva  revela esta presença e suas implicações antropológicas. “Ao abordar os mistérios da vida de Cristo, numa perspectiva orgânica e ascensional, Teilhard mostrou como Deus pode atrair os seres humanos alçando-os através do processo evolutivo e unificador do universo. Para tal intento, fundou esta perspectiva sobre a relação física entre o Cristo, a humanidade e o mundo material” ( p.68).

No terceiro passo, Vasconcelos analisou a cristogênese como divinização e transfiguração. Ela desenvolve esta análise examinando a história evolutiva do universo aleatória e a permanência de sua finalidade última à luz do “amor-energia” e examina, ainda, a íntima ligação entre  a Eucaristia e a cristologia cósmica e sua influência indireta em todo o universo. “O Cristo, ‘energia-amor’, é o sentido mais providencial nas entranhas insondáveis de um mundo em movimento” (p.96).

Estes traços apresentados, a título de uma breve introdução, nem de longe dão conta dos ricos meandros teológicos, cosmológicos e evolutivos presentes na obra Cristo e o Universo. A visão mística de Teilhard de Chardin.

Numa linguagem cristalina e precisa, a autora oferece aos seus leitores uma refinada visão da mística revolucionária e criativa de Teilhard de Chardin. Mística tão necessária num mundo que perde, gradualmente, a compaixão pela terra e pelos seres humanos.

Leitura aconselhada a todos que se interessam por um diálogo profundo e necessário entre a fé e a moderna razão cientifica, entre a fé e a ecologia, entre a fé e a vida do planeta terra , nossa casa comum , como nos relembra o papa Francisco na Laudato Si!.

Para finalizar, uma palavra síntese da autora: “A audaz extensão da cristogênese, da presença santificante do Cristo no conjunto criado, confirma, assim, que Cristo é o “sentido do cosmo”, a “meta da história”, a “ transfiguração final da humanidade e do universo” em parusia”  (p.96).



Sobre o autor
Ênio José da Costa Brito
Ênio José da Costa Brito

Professor titular do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da PUC-SP, Coordenador do Grupo de Pesquisa “Imaginário Religioso Brasileiro (Veredas)” e Vice-Coordenador do Centro de Estudos Culturais A...

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Editorial
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